Milk – A Voz da Igualdade

[rating:3.5]

O cineasta Gus Van Sant possui o saudável hábito de dar guinadas radicais na carreira. Ele começou criando retratos estilizados de uma juventude indolente (“Garotos de Programa”, “Drugstore Cowboy”), viveu uma fase de filmes comportados e convencionais (“Gênio Indomável”, “Encontrando Forrester”), e depois voltou a operar abaixo dos radares mainstream, criando pequenos trabalhos experimentais, de narrativa anti-convencional, com atores semi-amadores (“Elefante”, “Paranoid Park”). Em “Milk – A Voz da Igualdade” (EUA, 2008), cinebiografia do primeiro político norte-americano abertamente gay a conquistar um mandato, Van Sant cria um híbrido entre seus lados experimental e convencional. Ele retoma a estrutura narrativa direta, clássica, mas a mescla com uma estética imagética e sonora ousada, que inclui o uso de película de 16mm em algumas cenas, elenco parcialmente amador e uso criativo de sons fora de sincronia com as imagens.

Na verdade, o projeto de “Milk” foi acalentado pelo diretor durante quase 20 anos, antes de ser concretizado. Van Sant trabalhou pela primeira vez no roteiro em 1992, quando chegou a ser contratado pela Warner para dirigir o filme baseado na vida de Harvey Milk. O ativista, que emergiu da comunidade gay estabelecida no bairro do Castro, em San Francisco (EUA), foi o primeiro defensor da causa homossexual a ganhar um mandato municipal segurando a bandeira do arco-íris. Ele acabou assassinado aos 48 anos, por um enciumado colega de cargo, mas o impacto político de suas atitudes diante da comunidade gay perdurou por décadas. Van Sant, como se sabe, é militante homossexual, embora não aborde isso diretamente nas histórias dos filmes que dirige (exceção a esta regra é “Garotos de Programa”).

O longa-metragem, portanto, se desvia um pouco do projeto estético acalentado pelo diretor. O traço comum aos filmes do cineasta é o interesse genuíno em registrar os afetos da juventude, algo que ele conseguiu fazer com brilhantismo em obras do naipe de “Drugstore Cowboy” e “Elefante” – esse último lhe deu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Neste caso, porém, Van Sant deixou a juventude em segundo plano (observe, porém, que o diretor teve o cuidado de povoar todo o filme com figurantes de pouca idade, usando pequenas histórias paralelas e segundos planos para retratar os jovens com o interesse habitual). Além disso, graças ao elenco recheado de grandes nomes e também ao cuidado documental com que foi feita a direção de arte, “Milk” entrou na rota do Oscar 2009.

Essas duas características – os atores e a direção de arte – estão entre as virtudes do trabalho. Não apenas o elenco, liderado por um Sean Penn inspirado, chega perto da perfeição; a produção também proporciona uma verdadeira viagem aos coloridos e libertários anos 1970 em San Francisco (EUA), através de uma recriação perfeita do visual daquela época. Figurinos, penteados, cenários e até mesmo o uso de película semi-amadora (boa parte dos planos gerais que mostram a cidade foram filmados no formato 16mm, que gera uma imagem granulada característica dos filmes caseiros realizados na década de 1970) dão ao espectador a chance de mergulhar de cabeça na época em que o verdadeiro Harvey Milk caminhava pelas ruas da cidade na costa oeste dos EUA.

O cuidado na recriação do ambiente não está apenas no visual. Van Sant também procurou recriar, nos mínimos detalhes, o comportamento dos homossexuais daquela época, mais exótico e efeminado do que nos dias de hoje. Basta checar, por exemplo, a primeira aparição do ajudante político de Milk, Cleve Jones (Emile Hirsch) – o modo como o jovem ator balança os braços e gira a cabeça, exageradamente gay, é puro anos 1970. O ator, aliás, oferece mais uma demonstração de talento, atingindo o mesmo nível de intensidade de Sean Penn. Este, auxiliado por um corte de cabelo curioso, nariz e dentes postiços, dá um show particular no papel-título. Não, ele não imita o verdadeiro Harvey Milk, como acontece na maior parte das cinebiografias; ele cria uma nova pessoa, fiel em espírito ao original, mas com personalidade própria.

Conhecido em Hollywood pela postura às vezes masculina em excesso (convém lembrar da época em que costuma espancar fotógrafos, durante o casamento com Madonna), Penn encarna um homem de gostos levemente exóticos e gestos discretamente efeminados, mas sem nunca cair no exagero. É interessante observar que sua escalação no papel ativou a patrulha ideológica da comunidade gay norte-americana, que fez protestos contra o fato. Diziam que Penn, por ter apoiado abertamente o regime de Fidel Castro em Cuba, não deveria interpretar um ícone do movimento – Fidel, como é de conhecimento público, já andou encarcerando homossexuais em prisões da ilha. Só que Van San não deu bola para o politicamente correto e garantiu o selo de qualidade imposto ao filme pelo ator.

Entre as características da obra mais experimental do cineasta que encontraram abrigo dentro do trabalho está a câmera, relaxada quanto aos enquadramentos e à luz (a fotografia parece freqüentemente escura, às vezes com propósitos dramáticos evidentes, como nas tomadas em que Sean Penn, imerso em um ambiente de escuridão total e iluminado apenas por um refletor, grava um tocante depoimento em áudio). O uso do som também chama a atenção, porque Gus Van Sant freqüentemente usa a trilha sonora como guia para os cortes na imagem. Em muitos momentos, é a entrada do áudio da cena seguinte que sinaliza ao espectador a proximidade do corte. Além disso, Van Sant cria a intensidade dramática do momento-chave do filme, perto do final, retirando da cena o áudio original e preenchendo a banda sonora com um trecho da ópera de Puccini, exibida como uma espécie de premonição trágica apenas alguns minutos antes, com Harvey Milk na platéia.

De qualquer forma, apesar das virtudes, “Milk” não consegue escapar totalmente da armadilha das cinebiografias. Trata-se, afinal, de um gênero cultivado em Hollywood como forma calculada de marketing para grandes atores, e aqui não é diferente. Além disso, a estrutura narrativa, em especial a partir do terceiro ato, incomoda um pouco pela obviedade: aparições cada vez mais constantes do assassino de Milk (Josh Brolin), dificuldades cada vez maiores na vida pessoal do protagonista, e até mesmo um legado melodramático na forma de um discurso sobre a necessidade de manter a esperança, mesmo nos momentos mais difíceis, enquanto cenas da passeata que 30 mil pessoas fizeram em San Francisco após o assassinato, com velas nas mãos, enchem a tela. Não há dúvida de que se trata de um longa-metragem de qualidade, mas está longe de ser uma obra-prima.

O DVD da Universal (locação) tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) e imagem no formato original (widescreen anamórfico).

– Milk – A Voz da Igualdade (EUA, 2008)
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, James Franco, Josh Brolin
Duração: 128 minutos

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16 comentários em “Milk – A Voz da Igualdade

  1. Eu vi o filme e, sinceramente, acho que merece pelo menos 4 estrelas e meia. Não creio que o filme utilize o esquema das cinebiografias e sim é uma realização em que se vê muita verdade. A direção do Van Sant, justamente ao se equilibrar entre o convencional e o alternativo, é bem sucedida, gerando um filme de estética heterogênea e que só contribui para o efeito final. As opções do diretor, o roteiro muito bem desenvolvido, as ótimas interpretações e todo o departamente de arte fazem de “Milk” um filme memorável.

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  2. Gostei bastante do filme e o Sean Pean está perfeito no papel de Harvey Milk.
    Só viajei qdo Dan White (James Brolin) pede pra ser reintegrado… mas como, se ele já era um supervisor??

    E Rodrigo, parabéns pelos detalhes técnicos. Tipo “…uso criativo de sons fora de sincronia com as imagens…” e “…Em muitos momentos, é a entrada do áudio da cena seguinte que sinaliza ao espectador a proximidade do corte…” Juro que fui ver o filme tendo lido a crítica, mas msm assim não consegui identificar este último. Passo batido nesses sacadas. Fico impressionado como vc (e outros) consegue(m) captar esses detalhes e se concentrar na história do filme. Acho que eu teria que ver uma segunda vez para tanto.

    E em recente post no blog do Pablo Vilaça, ele responde ao filho pequeno que gosta de esperar todos os créditos passarem pois é o tempo certo pra ele sair do universo do filme e voltar à realidade. Isso tb acontece ctg Rodrido?

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  3. Obrigado pelos elogios, Jurandy. Quando a gente treina o olhar, dá pra ir notando essas coisas técnicas aos poucos.

    Quanto à questão dos créditos, acho que ele deve ter razão, mas não tenho tanto esse costume. Quando o filme é bom, eu saio da sala ruminando o filme por muito tempo, inclusive dentro do carro, voltando para casa. Confesso que acostumei – e até prefiro – ir ao cinema sozinho (coisa que a maioria das pessoas odeia) por causa desse tempo que dedico ao filme após a sessão. Para mim, não preciso estar dentro da sala para voltar à realidade. Até porque vivo anotando coisinhas e não tem como emergir totalmente na realidade do filme, quando se tem que ficar rabiscando troços num papel.

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  4. Quando saiu o resultado do Oscar na categoria melhor ator, fiquei bem desapontado pelo Mickey Rourke não ter ganho, pois achei a sua atuação em “O Lutador” sensacional.
    Contudo, após assistir “Milk”, confesso que fiquei em dúvida, a atuação de Penn é igualmente virtuosa, de modo que não deixa nada a dever à de Rourke. O fato é que há anos que não ocorre um embate tão difícil nessa categoria.
    Portanto, é possível que você, Rodrigo, já tenha comentado algo a respeito, mas gostaria de saber qual a sua opinião, Rourke ou Penn???

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  5. Concordo, o filme do Rourke é bem melhor, achei-o excelente (nada obstante ter o final aberto, coisa que, em geral, e na minha opinião, é prejudicial a uma obra cinematográfica).

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  6. Pode ser pura idiossincrasia, mas o que me parece, na maior parte das vezes que assisto filmes com finais abertos, é que o diretor/roteirista, por um misto de medo e preguiça, não teve coragem de levar a obra a um final mais conclusivo, temendo prejudicá-la.
    Isso não que dizer, entretanto, que o final precisa ser óbvio e simplório, penso que há grande margem para interpretações por parte da platéia. O que me incomoda é quando fica uma parte essencial da história faltando, sem resposta, isso sim não me agrada.

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  7. Realmente, há um certo grau de subjetividade nessa avaliação de essencialidade, mas também que crítica é feita só com a ponderação de elementos objetivos?
    Sempre se está sujeito às impressões pessoais.
    Só para exemplificar o meu ponto de vista, tomemos dois filmes recentes, em Watchmen, o final me pareceu completo, conclusivo, apesar de haver uma margem de continuidade.
    Já em “O Lutador”, data vênia, a conclusão da luta agregaria mais qualidade ao final, fosse qual fosse o resultado, bastava apenas trazer uma carga de verdade implícita (coisa que o filme fez muito bem em todos os momentos).
    Em minha opinião, o filme não precisaria traçar por completo o destino do personagem, mas apenas fechar aquele ato.
    Mas como você mesmo falou, isso é subjetivo.

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  8. Eu entendo o que você tá falando, Fábio. Por coincidência isso foi discutido numa aula de Análise Fílmica que tive no doutorado há uma semana. E eu coloquei justamente esse exemplo. Porque após a cabine que vi do filme, fomos almoçar (um monte de críticos) e o que se mais discutiu, mais do que o filme em si, foi esse final aberto. Isso me aborreceu um pouco, porque eu gosto daquele final do que jeito que ele é. Mas admito: sou uma exceção.

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  9. Para mim foi um dos melhores filmes dessa temporada! Nos remete a época, entedemos o contexto histórico, o sofrimento, a luta retratada, nos envolvemos com o filme. E a atuação de Sean Penn é simplesmente fantástica! Quem está acostumado a vê-lo em papéis machistas, durão, indestrutível, conservador, é realmente um espanto em ver seu trabalho! Mereceu o Oscar com certeza!

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