Operação Valquíria

[rating:2.5]

Não dá para negar: Bryan Singer cultiva uma obsessão pela II Guerra Mundial, particularmente pelo Holocausto. Esse período histórico já havia sido abordado de forma periférica em duas produções anteriores do cineasta, “O Aprendiz” (1998) e o primeiro “X-Men” (2000), ambas torturando o ator britânico Ian McKellen com memórias traumáticas das batalhas na Europa. Em “Operação Valquíria” (Walkyrie, EUA/Alemanha, 2008), Singer finalmente mergulha nessa obsessão pessoal e a traz para o centro do palco, em um melodrama que distorce deliberadamente detalhes históricos reais e se junta a um movimento cinematográfico internacional (e provavelmente involuntário), exemplificado por filmes como “A Queda” (2004) e “O Leitor” (2008), que tenta humanizar os carrascos nazistas.

“Operação Valquíria” trata de um caso real, ocorrido em 1944. Na ocasião, um grupo de oficiais do exército alemão (chamado Wermacht) elaborou e executou um plano para assassinar Hitler, tomar o poder na Alemanha e acabar com a guerra. A história nos mostra que o plano fracassou; seus executores quase conseguiram o objetivo, mas foram descobertos e fuzilados, dando ao ditador a chance de prolongar o massacre dos judeus europeus por mais um ano, antes de ser finalmente derrotado. Inspirado em velhos thrillers políticos ambientados durante a guerra (“Desafio das Águias”, de 1968), Singer capricha na direção de arte para reconstituir os eventos com o máximo possível de tensão e fidelidade visual. Infelizmente, o mesmo cuidado não foi usado na construção de um perfil historicamente acurado dos principais personagens, em particular o protagonista, o coronel Claus Von Stauffenberg (Tom Cruise).

O Stauffenberg do filme é um ótimo exemplo do modo como o cinema pode distorcer, em ficção, a personalidade de alguém que efetivamente existiu. O nobre alemão tem todas as qualidades de um autêntico herói hollywoodiano. Ele é mostrado na tela como um homem devotado à família, que ama a esposa (Carice Van Houten, de “O Espião”) e os filhos, é moralmente íntegro e tem horror aos atos sanguinários cometidos pela Wermacht. Na vida real, porém, não era bem assim. Stauffenberg participou ativamente da invasão à Polônia, comandou o massacre de milhares de judeus e deixou cartas abertamente anti-semitas. Convenientemente, o filme não cita nenhum desses detalhes embaraçosos a respeito do passado do herói. Auxiliado pelo roteiro de Christopher McQuarrie, o diretor prefere enfatizar – especialmente na segunda metade da produção – os tensos movimentos de bastidores que envolveram a execução do plano.

É verdade Stauffenberg liderou uma tentativa de matar Hitler em 1944, e pagou por isso com a vida. Naquela ocasião, porém, já não era mais segredo que a Alemanha tinha perdido a guerra. Todos os oficiais nazistas sabiam que a derrota era apenas questão de tempo, já que os exércitos russo (pelo leste) e norte-americano/inglês (pelo oeste) avançavam sem parar rumo a Berlim. O coronel alemão e todos os alto oficiais que participaram do complô, portanto, não estavam procurando salvar vidas. Queriam evitar a destruição física do país, preservar a população civil que lá residia (basicamente ariana, inclusive as próprias famílias) e, obviamente, salvar a própria pele. O quanto de heroísmo existe neste ato?

Num artigo demolidor a respeito de outro filme (“O Leitor”), o historiador Ron Rosembaum, um dos maiores especialistas do mundo em estudos sobre o Holocausto, raciocina com simplicidade a respeito desse suposto heroísmo. Para ele, se Stauffenberg e os demais oficiais nazistas tivessem formado o complô em 1941 (quando a Alemanha estava em vantagem e parecia estar perto de ganhar a guerra), o ato seria revestido de verdadeiro heroísmo. Pois bem: nada – nem uma vírgula desta discussão – está no filme. Bryan Singer demonstra habilidade técnica no manejo das ferramentas narrativas do cinema, da escalação de atores à escolha do estilo de fotografia para cada uma das duas metades do filme, mas jamais usa essa expertise para construir uma obra sólida e articulada. “Operação Valquíria” é um thriller raso. Só isso.

Synger usa a seu favor o olho privilegiado para composições visuais grandiosas. Com orçamento de US$ 80 milhões e filmagens agendadas em muitos dos locais verdadeiros onde os eventos históricos ocorreram (a cena da execução dos integrantes do complô, por exemplo, foi filmada na praça real onde o evento ocorreu), o cineasta foi capaz de reconstituir o período histórico com incrível atenção aos detalhes. Até mesmo os móveis reais que ficavam na residência de inverno de Hitler foram usados. Cenários como a piscina onde nada o oficial responsável pelo exército de reserva da Alemanha (Thomas Krestschmann), decorada com uma enorme suástica negra sob o azul límpido dos azulejos, demonstram o quanto a equipe se desdobrou para reconstituir fielmente a suntuosidade das construções nazistas.

A fotografia de Newton Thomas Sigel segue um planejamento inteligente, apesar de mais ou menos óbvio. Na primeira parte do filme, que focaliza o planejamento do assassinato, a cinematografia é clássica e elegante, com travellings abundantes, movimentos elaborados de câmera e uso constante de gruas. Já a segunda parte (a execução do plano) é quase inteiramente filmada com a câmera na mão, com composições visuais mais espontâneas, menos planejadas, de forma a acentuar a tensão e o suspense do momento. Este trecho é, sem dúvida, o mais interessante do filme, embora parte dessa tensão seja automaticamente dissipada pelo fato de que conhecemos o final (pois sabemos que Hitler só se matou em 1945, perto do fim da guerra).

Por fim, a escalação de atores foi feita de forma inteligente, apesar de polêmica. Como não tinha tempo de projeção para desenvolver cada um dos muitos personagens secundários, Synger preferiu escalar muitos atores que já haviam interpretado oficiais nazistas em filmes anteriores (casos de Christian Berkel e Thomas Krestschmann, sendo que este último já tem 10 oficiais do exército alemão no currículo). Deste modo, cada ator traz um pouco de sua história pregressa para seu papel, o que facilita o reconhecimento dos rostos por parte do público. Por outro lado, a decisão de escalar prioritariamente atores britânicos (Bill Nighy, Terence Stamp, Kenneth Branagh) para os papéis de conspiradores, deixando os “vilões” nazistas nas mãos de alemães, cheira a preconceito da pior espécie, pois sugere que entre os “nazistas bonzinhos” só havia estrangeiros.

O DVD da Fox Filmes é simples, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Operação Valquíria (Walkyrie, EUA/Alemanha, 2008)
Direção: Bryan Singer
Elenco: Tom Cruise, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Terence Stamp
Duração: 120 minutos

13 comentários em “Operação Valquíria

  1. Rodrigo, acabei não entendendo a sua última frase na resenha (“Por outro lado, a decisão de escalar prioritariamente atores britânicos para os papéis de conspiradores, deixando os “vilões” nazistas nas mãos de alemães, cheira a preconceito da pior espécie.”) em q vc fala sobre preconceito. Pq? Acho q é a coisa mais óbvia a ser feita nesse caso, não acha? Particularmente não vejo nada de estranho ou preconceituoso nisso.

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  2. Olá Rodrigo. Não vi ainda este filme, portanto ainda não tenho uma opinião formada. Mas tenho uma crítica quanto a sua forma de avaliação. Não gostei deste critério que você adotou de dar meia estrela. No caso desse filme, acho que não existe meio termo: ou ele é bom ou então é mediano. O mesmo vale para outras avaliações feitas. Abraço.

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  3. Como assim, “a coisa mais óbvia”, Daniel? Ao fazer isso, o filme sugere que os alemães são pessoas mais vis do que os ingleses, só por serem alemães. Você acha mesmo que isso é correto?

    Alessandro, respeito sua opinião, mas acho que na sua própria colocação há uma contradição. Se não existe meio termo para um filme, mediano é algo que ele nunca pode ser (é bom ou ruim, ponto final). Para mim, esse aqui tem coisas interessantes (tecnicamente falando), apesar de ser ideologicamente questionável.

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  4. Eu imaginei que tivesse havido muita desvirtuação de fatos… Mesmo sabendo disso, tenho que dizer que gostei bastante de “Operação Valquíria”. Este é um filme tenso e que prende a atenção. Não entendo as más críticas recebidas. Devem ser birra com Tom Cruise, mas este é o melhor filme do astro desde “Colateral”.

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  5. Perai, isso é uma crítica ou uma aula d história? Não acho q a distorção d fatos históricos tornem um filme bom em ruim? onde fica a criatividade? se fosse por isso não tinha um fime de guerra americano que prestasse!
    Quanto a ter sido cruel no começo da guerra, isso foi inteiramente natural! qualquer pessoa q jah serviu em forças armadas sabe o quanto o militar eh alienado! naturalmente com a maturidade isso vai se modificando e isso pode sim ter ocorrido com alguns oficiais alemães! Ou lá só tem gente cruel e burra?
    Quanto a este historiador (obviamente judeu) claro q hoje após o fim da guerra, fica facil citar herois e viões, mas agora mesmo ocorre uma guerra na faixa d gaza, e quem será q esta matando inocentes??? E os americanos e britanicos no iraque e afeganistão? serão eles os heróis?

    Achei o filme bom, e essas poucas estrelas q ele vem recebendo na minha leiga opnião não passam de uma influência que os criticos americanos (defensores dos judeus e judeus) estaum causando, e que reforçam a idéia popular que “mentira só é boa quando eu conto!”

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  6. JP, não acho saudável tirar o filme de seu contexto histórico para fazer a crítica (ademais, eu também falei sobre aspectos técnicos, apenas não acho que eles possam ser descontextualizados). Especialmente, não num filme sobre a II Guerra. Claro que o historiador é judeu, mas já li um livro dele (enorme, mais de 900 páginas) e sei bem que ele não é radical. E acho que ele tem razão, sim. Quanto à suposta maturidade do oficial alemão, o que questiono não é o comportamento dele, mas a escolha que diretor e roteirista fazem de omitir toda e qualquer referência ao passado de assassino que ele levou.

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  7. Um filme pode ser bom distorcendo fatos históricos, mas isso é eticamente questionável. Cinema não é só arte e deleite para os sentidos, mas pode ser também um eficiente veículo de comunicação de massa para disseminar ideologias.

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  8. Estamos no século XXI, o povo alemão (eu disse o povo, não os nazistas) foi satanizado no pós-guerra e aparentemente estão tentando redimir sua má fama mostrando de maneira didática que Nazista e Alemão não são sinônimos.

    Convenhamos, o antisemitismo existia em toda a europa cristã e nos estados unidos. O Nazismo e o holocausto tirou as nações de cima do muro e as obrigaram a tomar atitudes enérgicas contra esse preconceito.

    Dito isso, Singer é nerd na essência e tem um lado “grognard” (viciado em WW2) que ele gosta de desfilar em seus filmes com citações obscuras (vide os detalhes relatados sobre o uniforme e os efeitos do gás em “O Aprendiz”) e resconstituição de época, coisa de quem leu muito sobre o período sabe ou se cercou da consultoria especializada.

    Esse fato histórico já foi retratado outras vezes no circuito dos documentários e cinema europeu. As mudanças no currículo de Stauffenberg, posso estar enganado, parecem obra do próprio Cruise que quis retomar o papel “chefe de família diante de crise épica” que ele viveu em a “Guerra dos Mundos”. As concessões da trama também receberam um selo de “made in hollywood” que tornaram a figura do coronel e sua motivação, mais palatável para a platéia que acorre aos blockbusters ou guiados pelo brilho ofuscante de algum queridinho da terra.

    Gostei do filme, apesar da obviedade do desfecho, mal que aflige de filme basedo em fatos históricos e de uma certa deturpação da real motivação dos oficias (poder garantido, sob uma nova ordem). A fotografia é muito interessante, alguns planos parecem reproduzir técnicas dos documentários nazistas coisa que não deve ter sido mero acaso.

    É importante que o público médio que nunca travou contato com a WW2 tenha alguma opção de ver esse tipo de assunto no grande circuito, caso tenha interesse, poderá ler e assistir a outras versões, mas não enxergo nada muito “conspiratório” na roupagem que o filme assumiu.

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  9. Olá Rodrigo, tudo bem. Assisti recentemente Operação Valkíria e cheguei á conclusão que entre o drama histórico e o triller de suspense, o diretor Brian Singer e o astro Tom Cruise ( que é um dos produtores do filme) optaram pelo segundo. Como triller o filme até funciona bem, apesar de já sabermos como termina. No entanto, isso também acaba sendo seu ” calcanhar de aquiles “, uma vez que o roteiro não esclarece muito bem o motivo dos oficiais alemães nazistas conspirarem contra Hitler. Talvez um pouco mais de aprofundamento neste aspecto histórico, tornaria o filme mais interessante. Ainda assim, é um bom triller de suspense.

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  10. Não assisti ao filme, mas vou dar um pitaco mesmo assim. Toda vez que se faz arte, se recria a realidade de alguma forma. Aliás, mesmo um documentário ou um jornal não expressam a verdade em si, mas uma recriação (consciente ou não) da realidade. Recriar, porém, é diferente de manipular intencionalmente, de distorcer. Como bem disse alguém que não lembro quem foi, “a estética é uma ética”. Não há estética neutra.

    Neste filme, eu arriscaria dizer (mesmo sem ter assistido) que a opção por tornar o protagonista um típico herói romântico é fruto mais de uma pressão da produtora do que de uma opinião política do diretor. Esse tipo de simplificação é comum no cinema de Hollywood, especialmente em filmes de guerra, e muito mais especialmente em filmes que retratam a II Guerra Mundial e o Holocausto. Acredita-se que o público médio não possa lidar bem com uma visão mais complexa dos fatos, enão dane-se a complexidade, pois, afinal, é preciso vender. Dê aos estadunidenses o título de mocinho e aos alemãos o de bandido, e pronto. Os resultados desse tipo de prática, às vezes, são abomináveis.

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  11. Vendo os dois longas, a primeira e segunda versão, ambos fogem um pouco à versão real dos fatos. Concordo com Rodrigo que não axo saudável retirar um filme “que narra um fato histórico” de seu contexto real. Alocar fatos e firulas é aceitável, mas distorcer é um tanto quanto exagerado, a menos que coloque-se a velha tarja de “baseado em fatos reais”.

    Pra mim, o longa todo foi um erro, e Cruise no papel do general foi o pior de todos. Ele ao menos tem um jeito de alemão. Sem contar que a trilha sonora e os draminhas internos na trama de familia, amigos, mortes e muito choro não tem nem ao menos haver com a cultura alemã.

    E comentário maldoso que aquele é o olho de vidro mais real que já vi. rsrs….faltou efeito especial, hein? A primeira versão é 4 estrelas melhor!

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  12. santo Deus. quanta bobagem numa crítica só.

    misturando alhos com bugalhos, com argumentos q não tem nada a ver (como a escalação ocasional dos atores) e um monte de teorias imaginárias.

    o filme não é bom, na verdade, mas distorcer, preconceito, “se”…

    ridícula sua análise.

    procure conhecer todos os detalhes da história da conspiração e produção do filme, antes de se meter a analisar.

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