Pagando Bem, que Mal Tem?

[rating:2.5]

Na última cena de “Procura-se Amy” (1997), o protagonista – um roteirista de quadrinhos – encontra, meses depois do fim do namoro, a ex. Ele apresenta a ela seu último trabalho: um gibi adulto, de estilo confessional. Quando a moça questiona a mudança radical de rumo, já que ele sempre escrevera histórias sobre garotos de cabeça oca à caça de garotas de cabeça oca, o rapaz retruca que nunca tivera nada pessoal para dizer, antes daquele momento. Não é difícil perceber que o personagem, interpretado pelo ator Ben Affleck, representa com perfeição o cineasta Kevin Smith. É justamente por isso que “Procura-se Amy” continua a ser o ponto alto da carreira de Smith. A partir dali, infelizmente, o diretor nunca mais encontrou nada de pessoal para dizer. E isso inclui a comédia romântica “Pagando Bem, que Mal Tem?” (Zack and Miri Make a Porno, EUA, 2008).

Não foram poucos os fãs que acalentaram a esperança de que o cineasta de New Jersey (EUA) pudesse resgatar, com esta produção, o estilo verborrágico e despojado, que retratava tão bem a letargia de toda uma geração movida a cultura pop e falta de perspectiva social. Para ser justo, existem lampejos do velho Kevin Smith em “Pagando Bem, que Mal Tem?”, faíscas que deixam antever quão interessante o filme – e o trabalho do diretor como um todo – poderia ser, se ele decidisse voltar a tratar do vazio existencial de sua geração, ao invés de preencher as lacunas da fórmula clássica de uma comédia romântica tipicamente norte-americana (dois amigos que se amam, mas não conseguem perceber isso até que seja quase tarde demais) com piadas sobre sexo oral e masturbação. É material capaz de agradar adolescentes de 16 anos – o público típico de gibis por quem o roteirista de “Procura-se Amy” demonstrava tanto desprezo, lembram? – mas não faz mais muito sentido para quem já passou dos 30 anos, e um dia se identificou com o material emocional que Smith punha em celulóide.

A estrutura narrativa de “Pagando Bem, que Mal Tem?” é quase tão velha quanto o próprio cinema. A chamada Era Dourada de Hollywood (1935-50) se estruturou, em parte, graças ao sucesso das comédias de costumes. Esse gênero continua sendo revisitado até hoje, com sucesso, em filmes cuja qualidade varia do simpático ao intragável. “Pagando Bem, que Mal Tem?” não está nem numa ponta nem na outra da escala. O enredo, que focaliza um casal de amigos de escola (Seth Rogen e Elisabeth Banks, ambos ótimos) que mora junto num apartamento furreca e tem a idéia de filmar um vídeo pornô para conseguir pagar as contas, não passa de uma reciclagem bobinha e inconseqüente de temas já abordados antes na maioria dos filmes de Smith. Além disso, o cineasta filma de maneira extremamente conservadora, abusando de canções pop bonitinhas, piadas de qualidade variável e nenhuma ousadia visual.

Os temas essenciais da obra de Smith, como o racismo (todo filme dele tem personagens negros que encontram insinuações racistas nas conversas mais improváveis) e a obsessão com a série “Guerra nas Estrelas”, estão lá. Bem como o péssimo ator Jason Mewes, que interpretava um personagem-caricatura (o falastrão Jay) e continua incapaz de expressar qualquer tipo de emoção com o corpo, e a galeria de não-atores coadjuvantes que injeta no todo um clima mambembe e amador. Aqui, isso até que funciona a favor da história, que trata da feitura de um vídeo pornô por gente sem qualquer talento dramático – e as seqüências capturadas enquanto a trupe tenta filmar aos trancos e barrancos são, sem dúvida, os trechos mais interessantes e engraçados de toda a produção (curiosidade inútil: cheque o rosto de travesti da antiga diva pornô Tracy Lords e segure o queixo antes que ele atinja o chão).

Além disso, para um longa-metragem cujo tema é o sexo, “Pagando Bem, que Mal Tem?” carece de ousadia. Embora os personagens sejam desbocados e o roteiro ponha três palavrões a cada frase pronunciada por eles, Smith escolhe os ângulos de câmera mais banais e evita mostrar qualquer imagem explícita, que possa limitar a entrada de adolescentes nos cinemas dos EUA (afinal de contas, são eles que pagam as contas do diretor). “Pagando Bem, que Mal Tem?” só não é um filme realmente ruim porque a dupla de protagonistas está excelente nos respectivos papéis. Seth Rogen exala simpatia e naturalidade, tendo o tipo físico perfeito para o garotão nerd boa praça, e Elisabeth Banks não fica muito atrás (talvez seja bonita demais para uma garota que leva cano de todo mundo, mas a gente perdoa). Aliás, falando de Rogen, é curioso notar que o ator, que também é roteirista, faz parte da turma do diretor Judd Apatow. Os dois estão entre os melhores profissionais a retratar o jovem contemporâneo dos EUA, em comédias como “Ligeiramente Grávidos” e “Superbad”. Parece que Smith tentou entrar para o time, mas não foi muito bem-sucedido.

O DVD da Swen Filmes é simples, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Pagando Bem, que Mal Tem? (Zack and Miri Make a Porno, EUA, 2008)
Direção: Kevin Smith
Elenco: Seth Rogen, Elisabeth Banks, Jason Mewes, Gerry Bednod
Duração: 101 minutos

6 comentários em “Pagando Bem, que Mal Tem?

  1. “A partir dali, infelizmente, o diretor nunca mais encontrou nada de pessoal para dizer. ”

    Bom, parece que o “Jersey Girl” (a.k.a. “Menina dos Olhos”) era autobiográfico. Ou seja, não é que ele não tenha nada a dizer, mas sim que ele deveria permanecer calado, rs.

    Observação: adoro os primeiros filmes de Kevin Smith; até “Dogma” passa. Mas depois deste, simplesmente não tá dando…

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  2. Realmente, passou BEM longe da sátira a pornografia que eu pensava que seria.
    Salvou por algumas músicas da trilha sonora e algumas piadas-trocadilhos dos filmes.

    😉

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  3. Kevin Smith utilizou todos os clichês da comédia romântica de forma intencional, já que “Zack and Miri make a porno” é uma sátira muito inteligente e divertida do gênero. Porque os críticos não entendem isso?
    O senhor Carreiro disse que esse filme “carece de ousadia” e “evita mostrar qualquer imagem explícita, que possa limitar a entrada de adolescentes nos cinemas dos EUA”. Ora, e quem ia financiar esse filme se Smith o fizesse ainda mais ousado? Tenho certeza que os irmãos Weinstein não. E se devemos criticar e condenar Smith por se render as normas do sistema, então devemos criticar de igual maneira os filmes do Alfred Hitchcock, já que ele sempre era obrigado a incluir um final feliz em suas obras. Só que os críticos não ousariam tanto, já que até o pai do cinema de autor, o francês François Truffault, se rendia ao mestre inglês. Mas onde fica a imparcialidade? É muito fácil criticar um diretor contemporâneo politicamente incorreto como Kevin Smith que, por sinal, é infinitamente superior ao Judd Apatow.
    E um detalhe não foi levado em conta nessa crítica: os homens de 30 anos ou mais de hoje são idênticos ao personagem de Seth Rogen, que representa o público alvo desse tipo de produção. Ou será que toda a bilheteria de filmes como Guerra nas Estrelas e O Senhor dos Anéis é paga só por adolescentes?

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