Leitor, O

[rating:3]

Os alemães de qualquer idade ou geração têm um tabu. Falar sobre o passado nazista do país – ou seja, sobre o genocídio cometido durante o regime de Hitler – permanece uma experiência constrangedora, ou mesmo perturbadora, para a grande maioria da população do país, mesmo várias gerações depois da II Guerra Mundial. Este tabu só começou a ser derrubado, ainda com certa hesitação, a partir da chegada do século XXI, quando filmes como “A Queda” (2004) iniciaram um processo de humanização dos carrascos nazistas, um processo que se estendeu para vários outros filmes e obras artísticas. “O Leitor” (The Reader, Reino Unido/Alemanha, 2008) faz parte deste movimento nascido espontaneamente, e lida diretamente com o tema da culpa (consciente ou não) dos alemães por terem a mesma nacionalidade dos assassinos de milhões de europeus.

“O Leitor” consiste em um raríssimo caso de superprodução internacional concretizada sem dinheiro ou apoio formal de estúdios norte-americanos. O filme é dirigido pelo inglês Stephen Daldry. A maior parte do elenco tem a mesma nacionalidade do diretor, com o acréscimo de alguns atores alemães (a atriz sueca Lena Olin também tem uma participação importante). Boa parte do orçamento foi captado em órgãos de incentivo cultural oriundos da própria Alemanha. Foi uma das formas que o governo do país encontrou para incentivar a discussão deste tema espinhoso, muitas vezes varrido para baixo do tapete pelos membros de uma sociedade que, mesmo passadas várias décadas, ainda não conseguiu se olhar no espelho depois de permitir a ocorrência de tamanha atrocidade.

Este é o terceiro trabalho de Daldry na direção de longas-metragens. Graças ao estilo suntuoso e clássico de narrar, ele se tornou queridinho pela Academia de Artes de Hollywood, tendo obtido sua terceira indicação sucessiva ao Oscar de direção (e também de filme). O currículo respeitável e a visibilidade, mesmo trabalhando fora dos círculos habituais dos grandes estúdios, o tornam um nome convidativo para atores de prestígio. É o que ocorre aqui, com a presença de Kate Winslet e Ralph Fiennes. O elenco desempenha com correção, e o trabalho de cenografia, capturado em película pelos veteranos fotógrafos Chris Menges e Roger Deakins (este último começou o trabalho, mas deixou o filme antes da finalização), garante belas imagens. Apesar disso, o filme sofre demais com a abordagem fria, quase intelectualizada, do tema. É um trabalho bonito e bem feito, mas sem calor humano – sem emoção. Trata-se de uma experiência emocional, distante, quase impassível, e que tem lá seu quinhão de clichês e cacoetes narrativos típicos de um drama que almeja ganhar prêmios.

A história, baseada num romance escrito pelo jurista Bernhard Schlink, possui três tempos narrativos distintos. O hábil roteiro, de David Hare, entrelaça esses três tempos de forma suave. Toda a história, na verdade, é contada em retrospectiva pelo advogado alemão Michael Berg (Fiennes na meia idade, o extraordinário David Kross na juventude). Quando adolescente, ele teve uma experiência amorosa intensa e fugaz com uma cobradora de metrô chamada Hannah (Kate Winslet), que sumiu de sopetão alguns meses após o início do caso. Uma décadas depois, enquanto estudava Direito, Berg a reencontrou em circunstâncias pouco comuns – soube, só então, que ela tinha sido guarda da SS no campo de concentração de Auschwitz. Na ocasião, estava sendo julgada por ter permitido a morte de 300 mulheres durante um incêndio numa igreja abandonada, durante uma marcha de prisioneiros no final da guerra, em 1945. Portanto, antes do affair.

As memórias desses dois períodos vêem até o Michael adulto porque Hannah, já perto da velhice, está prestes a entrar de novo na vida dele. O período crucial da narrativa, para a evolução dramática, é o segundo. O tema principal se expressa através do tumulto emocional de Michael no decorrer do julgamento de Hannah. Ele tem informações sobre ela que, se divulgadas, podem interferir de forma determinante no resultado do julgamento. É através do comportamento dele que Stephen Daldry pretende discutir a questão da culpa alemã. De quebra, o cineasta também aborda (com pompa e circunstância) o tema da humanização através da arte – no caso, a literatura. Nisso, lembra bastante o também inglês “Desejo e Reparação”, que tem mise-en-scéne bastante semelhante.

Nos aspectos técnicos, há espaço para todo tipo de elogio. Como legítimo filme de atores, “O Leitor” tem excelente desempenho coletivo, com destaque para o novato David Kross. Stephen Daldry capricha nas transições elegantes entre os três tempos narrativos (observe, já no final, a suave passagem do passado pelo presente que mostra a troca de atores que interpretam o personagem masculino quando ele está dentro de um trem). O diretor também acerta ao manter certo mistério na composição da personagem feminina. Ela é orgulhosa, decidida e pouco instruída, mas nada disso explica totalmente seu comportamento. Hannah permanece uma charada, um mistério que nem Michael e nem os espectadores conseguem desvendar totalmente, o que é um dado positivo. Além disso, a elegância e sobriedade do clímax, com a participação extraordinária de Lena Olin, concluem o filme de maneira pouco comum, mas muito convincente.

Por outro lado, as concessões comerciais comprometem um pouco o resultado final. Tome como exemplo a trilha sonora didática, óbvia, em que um violoncelo é “acionado” nos momentos de maior intensidade dramática, praticamente gritando para o espectador que a hora do suspense chegou. A maquiagem aplicada para o envelhecimento de Kate Winslet é absurdamente artificial. Além disso, a opção dos produtores em escalar um diretor inglês (e elenco idem) para discutir uma questão que é fundamentalmente alemã também soa estranha, já que Daldry jamais consegue mergulhar mas minúcias do tema principal. Provavelmente vem daí, desse estranhamento ao tema que vive o diretor, a frieza emocional da narrativa, algo que o fato de o filme ser totalmente falado em inglês também enfatiza, porque nos lembra a todo instante do caráter ficcional da obra. É importante ressaltar, porém, que esta decisão fundamental foi tomada pelos produtores alemães, e não pelo diretor. O produto final, apesar de bonito e bem feito, carece da intensidade emocional necessária para um filme que se pretende relevante na discussão de um tema tão complexo e polêmico.

O DVD da Imagem Filmes traz o filme com razão de aspecto original (wdiescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– O Leitor (The Reader, Reino Unido/Alemanha, 2008)
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Kate Winslet, David Kross, Ralph Fiennes, Bruno Ganz
Duração: 124 minutos

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14 comentários em “Leitor, O

  1. Assisti ao filme hoje e acho que é mais um bom trabalho do diretor Stephen Daldry. Pude perceber muitos elementos em comum entre este filme e “As Horas”, trabalho anterior dele com o roteirista David Hare. O importante, para mim, é mencionar que o filme funciona muito bem quando David Kross e Kate Winslet estão juntos em tela. Só não gostei mesmo das concessões feitas no final, para a redenção de Hanna e Michael. Mas, entendo o por quê de ela ter sido realizada.

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  2. Vi o filme hoje, gostei, em especial do primeiro tempo narrativo, que envolve o relacionamento entre Winslet e Kross. Ah, Rodrigo, não sei se entendi errado o que você escreveu na crítica, mas a personagem de Kate Winslet foi guarda da SS antes de conhecer Michael, e não depois (quando ela desaparece), uma vez que o relacionamento dos dois ocorre no ano de 1958.

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  3. Olá Rodrigo. Vi este filme e gostei muito. Apesar de não ser perfeito acho que mereceria quatro estrelas. Dentre os pontos positivos, gostei da atuação de todo o elenco, principalmente de Kate Winslet, que se ganhar o Oscar não será injustiça.O roteiro consegue estabelecer uma interessante discussão sobre a questão da culpa, sem parecer piegas ou auto-condescendente, embora não revele muito sobre o que se passa na intimidade com Hanna, o que contribui para torna-la uma personagem ainda mais interessante. No entanto, concordo com o que você disse sobre a maquiagem dela. Acho que uma das falhas do filme, embora eu acredite que tenha escolhido aquele look para não chocar muito o espectador. Mais uma vez, Daldry demonstra que tem talento para dirigir filmes adaptados de romances. Que venham seus próximos trabalhos.

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  4. “É um trabalho bonito e bem feito, mas sem calor humano – sem emoção.” Essa sua frase-síntese diz tudo sobre o filme. Acabei de assistí-lo só pra confirmar algo que eu já sei há muito tempo mas, por insistência, acabei incorrendo no mesmo erro: filme que tenha o Ralph Fiennes como protagonista não pode ser bom.

    Va lá, posso ter sido radical, mas confesso que o cara não me emociona. Com aquele semblante de eterno sofredor não dá pra encarar. Todo filme é a mesma sensação de “deja vu”.
    E a Kate ficou a cara da Madona, vcs não acharam não?

    Boa fotografia, tecnicamente impecável mas eu não quero ir num cinema pra ficar prestando atenção nisso. Quero uma história bem contada e que me emocione. Ou me indigne. Ou me deprima. Mas que faça a diferença. A tecnicalidade não pode se sobrepor ao filme. É como futebol. Se o juiz se destacou é por que o jogo deixou a desejar. O bom juiz é o que passa incógnito. No bom cinema penso igual.

    A realidade é que sai do filme com a nítida impressão de ter errado na escolha. “Sim, senhor!”, com o histriônico Jim Carrey teria sido melhor.

    Mas é assim mesmo. Sem crise. Aproveito pra dizer que, na minha opinião, vc foi generoso demais nas estrelinhas!

    Abração.

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  5. Celly, confesso a minha ignorância: não vi nenhum dos dois que você citou, embora conheça ambos. Aliás, “Fim de Caso” eu já devia ter visto, pois um monte de gente que eu conheço adora esse filme. Penso que vou gostar muito quando o vir, como gosto do “Desencanto” de David Lean, sempre citado como muito parecido.

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  6. Um filme que decepcionou e surpreendeu. Fiquei surpresa com a reflexão feita dos personagens quanto a hipocrisia de se julgar algo perante a lei que aconteceu com concentimento da lei em época. Mais surpresa ainda desta reflexão vir de vozes do elenco de apoio, de adolescentes alunos de direito.

    Muito interessante também as frases finais da sobrevivente dos campos, pois axo que todo filme que se foca no sofrimento dos campos de concentração vem com um ar de aprendizado, e ela deixa bem claro que refletir voltando no tempo e se prendendo aos fatos vividos nao levam a nada. “Os campos não sao terapia”, disse a personagem e gostei muito.

    Gostei muito da iluminação com silhueta, muito legal efeito de fotografia em muitas cenas.

    Mas o fato de ser em inglês já deixa a coisa meio distante, fraca. Mas muito bom!

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  7. Concordo com Jaziel: a cara de eterno sofredor do velho Michael ás vezes incomoda, mas a história tem lá seus motivos. Talvez culpa por ter sido a unica pessoa a saber que a pena de Hanna poderia ter sido minimizadam, vai saber.

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  8. Rodrigo, gosto muito das suas críticas,são sempre muito enriquecedoras.
    Provavelmente você já viu “as Horas”(do mesmo diretor),como procurei no site e não achei nenhuma crítica sobre ele…bem,gostaria de saber sua opinião sobre esse filme.Só uma sugestão.

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