Troca, A

[rating:3.5]

Uma olhada atenta na maior parte do trabalho de Clint Eastwood, em especial a partir do início dos anos 1990, revela uma preferência concreta por temas ligados ao ajuste de contas com o passado. Os melhores longas que ele dirigiu neste período (“Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro”, “Sobre Meninos e Lobos”) são também os mais pessoais, aqueles que o diretor realmente lutou para transformar em filmes. Este não é o caso de “A Troca” (Changeling, EUA, 2008). O primeiro dos dois títulos lançados em 2008 com a assinatura de Eastwood foi, na verdade, um trabalho de encomenda para os estúdios Universal, com quem o diretor não trabalhava desde 1975. Trata-se de um drama clássico, que narra a incrível história real de uma mãe que, em 1928, lutou contra a corrupção policial em Los Angeles na tentativa desesperada de reencontrar um filho desaparecido.

Embora seja um filme correto, com momentos de inspiração ocasional, “A Troca” não está à altura dos melhores trabalhos de Clint Eastwood. É possível que a abordagem escolhida por ele para o longa seja por demais austera, emocionalmente distante. Talvez isso exprima a própria distância emocional entre diretor e material dramático, porque há falhas visíveis na condução da narrativa. “A Troca” é longo e irregular demais. Eastwood e o roteirista J. Michael Straczynski gastam muito tempo em uma trama paralela envolvendo um serial killer que agia na região da Califórnia no mesmo ano em que o enredo se passa. Apesar de a decisão conferir realismo e clareza narrativa ao resultado final, acaba por diluir a tensão emocional da mãe que, angustiada, é seguidamente impedida de tentar encontrar o filho que sumiu.

Na verdade, o filme deveria ser sido dirigido por Ron Howard (curioso como o diretor de “O Código Da Vinci” tem atração por histórias sobre mães em busca de filhos desaparecidos). O cineasta comprou o roteiro e acalentou o projeto por algum tempo, mas a agenda lotada fez com que ele preferisse ficar apenas na cadeira de produtor executivo. O trabalho foi então oferecido a Eastwood, que o aceitou por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar, a trama acontecia na época e no local onde ele passou a infância, oferecendo-lhe a oportunidade de reviver memórias de menino. Por fim, o fato de o roteiro original ter sido construído sempre sob o ponto de vista da mãe dava a oportunidade de criar um longa com maior carga dramática.

Como de hábito, Eastwood filmou tudo rapidamente, chegando a registrar até oito minutos de filme por dia (índice muito superior à média em Hollywood, que não passa de um minuto). Esta rapidez evidencia um dos aspectos mais interessantes de “A Troca”, que é a direção de arte. Sim, a reconstituição de época é muito bem realizada, mesclando locações reais (bairros antigos na periferia de pequenas cidades na região da Grande Los Angeles) e efeitos digitais discretos, que passam despercebidos dentro da fotografia sombria de Tom Stern. O fotógrafo optou por suprimir as tonalidades mais vibrantes da paleta de cores do filme, iluminando as cenas interiores com holofotes quase sempre posicionado nas laterais, o que gera grandes contrastes e áreas de sombra extensas – em geral, os atores quase sempre interpretam com um lado do rosto iluminado e o outro, sob escuridão. Essa técnica realça os aspectos sombrios da história.

Como de hábito, Eastwood prefere tomadas longas e uma narrativa limpa, concisa, sem chamar a atenção para a técnica. Não espera inovações neste terreno. A seqüência em que a polícia invade uma granja para prender um imigrante canadense ilegal serve como exemplo disso. Enquanto o policial entra no local (convenientemente iluminado através de raios de sol que entrar por buracos na parede de madeira do recinto), uma série de planos-detalhes curtos de objetos potencialmente perigosos, como facas e machados, é inserida na montagem, e a trilha sonora vai tendo o volume realçado aos poucos. Edição de imagem e som se unem para produzir na platéia a expectativa de um ataque ao policial – que, de fato, acontece. Bem feito, mas convencional. Um microcosmo do filme como um todo.

Ademais, é possível notar certo desequilíbrio entre os três atos da história. O primeiro, que apresenta os personagens e introduz o conflito dramático, é rápido e ágil; o último ato, porém, pisa e repisa certos aspectos da história. Aparentemente, Eastwood foi acometido da síndrome de Peter Jackson e não soube como terminar o filme, que parece ter três ou quatro finais (a seqüência que se passa dentro da prisão de San Quentin, em particular, é um exemplo claro deste excesso, pois não tem nenhuma função narrativa, a não ser estabelecer a realização da vingança de um dos personagens centrais, algo que poderia ter sido feito em uma cena com dois ou três minutos a menos). De qualquer maneira, é importante enfatizar o ótimo desempenho de Angelina Jolie no papel central. Ela parece realmente confortável no papel de uma mãe, e transmite sensação real de angústia – sem os exageros melodramáticos que uma atriz menor facilmente cometeria – quando as coisas realmente começam a dar errado.

O DVD brasileiro carrega o selo da Universal. O enquadramento original (widescreen anamórfico) foi preservado, e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1).

– A Troca (Changeling, EUA, 2008)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Jeffrey Donovan, Amy Ryan
Duração: 141 minutos

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21 comentários em “Troca, A

  1. Grande Clint. Deve ser mais um belo trabalho dele, apesar de “Gran Torino” me parecer melhor. Alíás, Rodrigo, você acha que o velho Clint ainda consegue influenciar o cinema feito hoje em dia? Na sua opinião, quais cineastas, direta ou indiretamente, têm esse poder sobre as obras de outros diretores? Leone? Ozu? Kubrick? Hitchcock? Chaplin? Bergman? Ou mesmo Clint?

    Abraço!

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  2. Vinícius, acho que todos os que você citou influenciam cineastas contemporâneos, em menor ou maior grau. Dá para fazer facilmente pontes entre Ozu-Jarmusch, Leone-Tarantino, Hitchcock-Spielberg, Kieslowski-Twyker, por exemplo. Mas acho que a narrativa de Eastwood é clássica (ou seja, a chamada “direção invisível”). Diretores como ele não costumam ter influência estética muito pronunciada.

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  3. Olá, andei sumido por aqui, mas voltei! Para dar continuidade nas suas ‘pontes’ eu arriscaria sem medo a dobradinha Ford-Eastwood, pois pra mim não há melhor cineasta que trabalhe essa linguagem clássica como o Clint, atualmente. Temos uma equivalência de gêneros, de narrativas, de personagens, enfim, são universos muito próximos. Eu acho apressado considerar que Eastwood não venha influenciar diretamente cineastas futuros, tanto na América quanto fora dela. Isso é uma coisa muito minha, eu sei da importância e do valor que uma inovação, um novo olhar, podem trazer à arte cinematográfica, mas cada dia tenho valorizado mais os pouquíssimos diretores que demonstram tato, maturidade e bom senso ao simplesmente contar uma história. Não acho que contar uma história sem grandes preocupações estéticas limite o cinema em sua relação com o discurso literário. Contar bem uma história é representar a vida e isso é tudo que movimenta o homem a criar.
    Em tempo: parabéns pela aprovação, futuro professor! Quero bisbilhotar suas aulas…

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  4. Você está certíssimo, Nando. Quando eu penso em Eastwood, também penso em John Ford. Não citei essa “ponte” porque, na verdade, acho que se trata de uma linhagem completa: Ford, Hawks, Mann, Siegel, e então Eastwood. Mas você tem toda razão quando diz que haverá outros seguidores. E vá às aulas, será bem-vindo! 🙂

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  5. Rodrigo, vi há pouco “A Troca” e achei absolutamente MARAVILHOSO! É o tipo de cinema que mostra não apenas o apuro da linguagem, mas a grandeza de um artista focado exclusivamente em ser coerente com a vida e com a arte que o escolheu.

    Bravo, velho Clint! Bravo! Desde já, um dos melhores filmes do ano.

    Abraço!

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  6. Olá, Rodrigo ! Vi ontem “A Troca” e gostei muito ! Confesso que me surpreendi com a atuação da Angelina e com o tom sóbrio com que o drama foi narrado. No final, vendo os créditos, percebi que a música era creditada a Clint Eastwood (music by C.Eastwood). E ele é músico também ? Sei que ele a aprecia, sobretudo o jazz, pois fez “Bird”, mas não sabia que ele era também compositor. Se for realmente, mais um talento que Mr. Eastwood tem e que me faz admirá-lo ainda mais. Grande abraço !

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  7. Andrea, Clint Eastwood assina todas as trilhas sonoras de filmes dele desde a década de 1980. Ele toca piano e antes de ser ator queria ser músico… na verdade, acho que chegou a trabalhar como pianista na década de 1950. E além de ter dirigido “Bird”, também fez um documentário muito bom sobre blues.

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  8. Discordo bastante dos que compreendem o filme A Troca de Eastwood com sem ritmo, ou com cenas a mais e mesmo com “distãncia?” emocional. Acredito que a realidade da história transpôe-se para o filme de forma poucas vezes realizadas, tornando esta obra o drama tenso e “terrível” que é; e exatamente assim o consegue porque manteve-se emocionalmente dentro da história com todas suas nuances dramáticas ao mesmo tempo em que não “chutou o balde” com cenas que, creio eu, provocariam desmaios, pois, afinal, sentir a agonia e dor dos personagens durante o filme foi uma frequente para mim enquanto via o filme. Creio que é um filme maravilhoso em quanto direção e realização. Abraços.

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  9. Gostei do filme. Achei a estória suficientemente triste para ficar fazendo apelos emocionais. Sendo assim, o distanciamento emocional da direção deu um bom equilíbrio ao filme. Só não gostei daquela boca horrorosa de Angelina Jolie. Exageraram demais com aquele batom que deixa o lábio mais grosso. Eu teria medo de ser beijado por uma criatura com uma boca tão grande (hahahahahaha).

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  10. Antes de mais nada Parabens para você Rodrigo, descobri seu site a pouco tempo, e desde então acesso com frequencia, pois gosto muito de suas criticas. Quanto ao filme a troca concordo no que diz respeito a duração tambem me parece um pouco arrastado mais tudo dentro do contexto. obrigado!

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  11. Prezado Rodrigo,

    Interessante ponto de vista publicado nesse blog, porém atrevo-me a acrescentar que Clin Eastwood conseguiu reproduzir com minuciosidade o que se passava em Los Angeles, em 1928. Os três ou quatro finais citados por você não retratariam a extensão das violações aos direitos mínimos do ser humano à época, que, diga-se de passagem, ainda ocorrem.
    Ao enfrentar a polícia na busca por informações do desaparecimento de seu filho, Christine Collin é vítima de uma rede de corrupção, descaso e desvirtuamento do aparato estatal – polícia – que ao invés de proporcionar segurança aos indivíduos age com atrocidades e violência indiscriminada nas ruas de Los Angeles.
    Sem o devido processo legal, mediante tortura e agressões físicas, a polícia ignora o indivíduo como sujeito e passa “eliminar” todos os que iam contra sua reputação. A criança era ouvida sem seu representante legal, ou qualquer interessado em proteger seu processo de desenvolvimento. A identificação das pessoas não passava de pareceres de “especialistas” indicados pelo Estado com coincidência de interesses políticos. Pessoas eram “descartadas” da sociedade e colocadas em manicômios, caso seus atos repercutissem contra interesses da corporação policial, sendo coagidas a inocentar o Estado de qualquer responsabilidade e dano contra elas praticados.
    O julgamento final apresentado demonstra o início da percepção do Poder Judiciário dos atos discricionários da polícia, a luta de resistência contra um Estado opressor, a busca por justiça e a esperança do indivíduo na reparação das violações suportadas, quando afastado o Estado cerceador de direitos dos indivíduos.
    Grande abraço,

    Leatrice Paola

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