Orquestra dos Meninos

[rating:2.5]

Uma boa história nem sempre garante uma narrativa do mesmo nível. Esta afirmação, cultivada com carinho por jornalistas de todo o mundo, também cabe perfeitamente na atividade cinematográfica. Se tomar decisões equivocadas, um cineasta pode muito bem transformar uma história interessante em um filme medíocre. Infelizmente, foi o que aconteceu com o longa-metragem dirigido pelo veterano Paulo Thiago. “Orquestra dos Meninos” (Brasil, 2008) não chega a ser totalmente ruim, mas decepciona. O enredo rascunha personagens ricos de forma simplista e caricatural, investindo em uma série de clichês e cacoetes narrativos que dão cheiro de mofo à narrativa, fazendo-a ranger como se estivesse enferrujada.

O filme é baseado em uma história real, ocorrida em São Caetano, pequeno município vizinho a Caruaru, no agreste de Pernambuco. Na verdade, trata-se da cinebiografia do maestro Mozart Vieira, homem humilde que dedicou a vida a educar crianças pobres da cidade, ensinando-as a tocar instrumentos musicais. A chamada Orquestra dos Meninos de São Caetano ficou famosa, na primeira metade dos anos 1990, fazendo turnês nacionais em que tocavam peças de Mozart e Villas-Lobos. O prestígio de Mozart ficou abalado depois que ele sofreu acusações de forjar o seqüestro de um dos garotos. Insinuações de pedofilia também viraram voz corrente na cidade. Como nenhuma prova dessas acusações jamais apareceu, Mozart continuou a perseguir o sonho. E venceu. A Fundação criada por ele cuida de 200 crianças carentes e a orquestra continua a funcionar.

Paulo Thiago acompanhou o caso pelos jornais e embarcou na idéia de filmar uma versão ficcional da história em 2000. Levou oito anos para transformar a idéia em realidade. O longa-metragem, inteiramente rodado em Sergipe, usa uma base de atores consagrados (Murilo Rosa, Priscila Fantin, Othon Bastos) e mescla-a com uma porção de jovens amadores, que representam os garotos músicos. Esta estratégia, aliada às locações reais – nenhuma cena foi feita em estúdio – e ao estilo naturalista de iluminação, garantem o ar de contemporaneidade à produção. Todas são, afinal, técnicas muito utilizadas pelos diretores mais jovens que filmam no Brasil, quase sempre com bons resultados. Se por um lado o esforço de atualização feito por Paulo Thiago deu resultado, por outro o resultado final deixa flagrante um estilo de cinema anacrônico, ultrapassado.

Este cheiro de mofo fica especialmente evidente na direção de atores, talvez a pior característica do trabalho de Paulo Thiago. Da mesma forma que acontecia em “O Vestido”, por exemplo, os atores parecem estar interpretando no teatro. Eles falam de maneira excessivamente pausada, usam gestos largos e exagerados. Parecem sempre falsos. O mau desempenho coletivo complica a vida da platéia, que enfrenta enorme dificuldade para “entrar” no espírito da história, porque a sensação de estar assistindo a um filme mecânico e sem vida não passa nunca. Além do mais, a escalação de Priscila Fantin como uma adolescente nordestina semi-analfabeta soa quase como piada de mau gosto, porque a estrela global jamais consegue “sumir” dentro do elenco de anônimos, o que seria fundamental para que ela funcionasse no papel. Murilo Rosa, como o protagonista, é o único membro do elenco que está realmente bem. O fato de estar em todas as cenas minimiza bastante o problema. Sem ele, “Orquestra dos Meninos” seria um desastre.

O outro problema grave está no roteiro, escrito a seis mãos por Thiago, Melanie Dimantas e Graciela Maglie. Ele abusa de clichês, tanto nas situações dramáticas propostas quanto na composição dos personagens. Na cena em que Mozart (Rosa) se declara para Creusa (Fantin), por exemplo, pode-se vislumbrar a sombra de um bom personagem – um homem sonhador, cheio de vitalidade e esperança e ousadia, que não desiste nunca, mas com absoluta inabilidade no campo afetivo. A seqüência seguinte, porém, puxa o filme de volta à realidade, recriando de forma caricatural um dos momentos dramáticos mais copiados em longas de má qualidade. Nela, forma-se o triângulo amoroso típico de novelas, com uma pretendente malvada (Olga Machado) se insinuando de forma grotesca ao sujeito inocente, enquanto a verdadeira moça que o ama vê o flerte e interpreta tudo errado, sem que ele perceba a lambança.

“Orquestra dos Meninos” está cheio desses exemplos. Personagens batidos em produções comerciais, como o político que só quer faturar com a novidade recém-descoberta e o marqueteiro que promete mundos e fundos com o único objetivo de fazer seu protegido ganhar a eleição, pululam por todos os cantos do longa-metragem. Por trás de tantos equívocos, contudo, repousa uma história arquetípica que já foi contada em infinitas variações, quase sempre com sucesso – a trajetória do sonhador que nunca desiste antes de realizar um sonho aparentemente impossível. É uma história com potencial para atrair muitos admiradores, até mesmo por causa das semelhanças com “Dois Filhos de Francisco”. Só que o filme de Breno Silveira, em que pese a qualidade inferior da música, é muito melhor enquanto cinema.

O DVD foi lançado pela Paramount. O enquadramento original (widescreen) foi respeitado, e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Orquestra dos Meninos (Brasil, 2008)
Direção: Paulo Thiago
Elenco: Murilo Rosa, Priscila Fantin, Othon Bastos, Laís Corrêa
Duração: 108 minutos

10 comentários em “Orquestra dos Meninos

  1. Discordo totalmente desta critica….sou frequentadora assidua de cinema ….e gostei do filme…nao vi tantas aberracoes conforme fala a critica…tem coisas piores ate nos filmes americanos…enfim….Thiago esta de parabens…pela denuncia aos problemas do nosso nordeste tão cancaceiro ainda…..e pela bela historia de coragem e perseverança do maestro…
    em busco dos seus sonhos….
    PARABÉNS A TODOS….ARTISTAS, DIRETORES, AUTORES……valeu foi emocionante…amei

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  2. Discordo da crítica acima. Gosto de Cinema Nacional e
    sempre que possível também faço minha avaliação como cinéfilo
    Emocionei-me com o filme.

    Passa ao olhar mais humano e menos técnico o esforço de
    composição dos personagens por parte dos atores e da equipe de
    filmagem. Um pouco da expressão teatral existe sim, mas neste filme
    isso pode representar um esforço de composição dos personagens
    e para mim foi um caráter simbólico de qualidade.

    Há algumas falhas no roteiro que poderia ser melhor aproveitado mas o filme,
    conta bem a mensagem que pretende passar e o conjunto da obra ficou
    muito bom. Murilo Rosa de parabéns, a melhor atuação dele até hoje. Priscila Fantim encontra-se bem no papel. A mim que a assisti sem preconceitos por ela ser Global me conveceu demais.

    Recomendo assisti ao filme e prestar atenção especial na homenagem a Dom Helder
    Câmera que é simplesmente bem colocada e uma das outras mensagens do filme.

    Um dos melhores filmes nacionais do ano. Não perca e deixe a sua opinião.

    Parabéns ao Paulo Thiago

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  3. Meu Deus ! A ideia de paulo Thiago foi muio boa ! Mas… coitado… os atores , que eu não sei se são de Sergipe ou da Bahia, foram muitos ruins , gente ! Não passaram verdade , naturalidade e forma muito teatrais. No sentido pessimo da palavra. Se ele tivesse chamados atores mais experientes….
    Mas valeu ! Tudo vale a pena, não eh mesmo?

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  4. História que merecia muito mais dedicação do que teve.
    Filme sem ritmo, roteiro péssimo e atuações deprimentes (cheguei a sentir vergonha
    vendo aquelas crianças tentando ,sem êxito ,convencer o público com aquela interpretação,HORRÍVEL)

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  5. Concordo com parte das críticas. Paulo Thiago sempre foi um diretor cheio de boas intenções, mas que nunca consegue o resultado desejado. Está longe de um veterano como Nélson Pereira ou dos mais novos, como Walter Salles e Fernando Meirelles. Mesmo assim, acredito que ele conseguiu em “Guerra dos Meninos” contar uma boa história e proporcionar alguns momentos bonitos. Ainda é um dos seus melhores trabalhos, talvez pela temática que escolheu desta vez.
    Moro mais ou menos perto de São Caetano e acompanhei pela televisão e jornais o surgimento desta orquestra surpreendente dos meninos do Agreste de Pernambuco. Lembro que apareceram no Fantástico, na campanha de Joaquim Francisco ao Governo do Estado e do sucesso que veio depois, com gravações de CDs e exursões até pela Europa. Assisti ao grupo pelo menos quatro vezes. No Recife, na igreja da pequena Angelim, no Centro Cultural de Garanhuns e uma apresentação no centro desta mesma cidade, no período de Natal. Em todas as apresentações fiquei encantado com aqueles meninos, embora nesse último “show” tenha ficado decepcionado com o público. Acho que não tinham 150 pessoas prestigiando.
    Apesar de acompanhar tanta coisa, o filme revelou muitos fatos que eu desconhecia. Essas informações da orquestra, do drama vivido por Mozart e pelas crianças já é um fato bastante positivo. O filme tem os defeitos apontados pelo crítico, mas também qualidade que foram deixadas de lado. Na crítica é comum isso: ver só o que está errado. Acho que “Guerra dos Meninos” merece pelo menos uma nota 6, se formos ver a história, as interpretações (mesmo com o amadorismo dos atores), a condução do diretor. Infelizmente, somos muito mais severos quando analisamos o cinema nacional. que é feito com tremenda dificuldades, do que quando nos deparamos com as produções de qualidade do cinemao americano.

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  6. Roberto, respeito totalmente seu comentário, mas não posso deixar de afirmar que esse chavão do “somos mais severos quando analisamos o cinema nacional” não cola aqui. Já dei cinco estrelas para uma quantidade enorme de filmes nacionais (o acervo do site não mente) e freqüentemente filmes internacionais elogiados são vistos com bastante olhar crítico. Para mim, um filme mal feito é simplesmente um filme mal feito. Não é por ser brasileiro que ele merece um olhar condescendente.

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  7. Gostei sim do filme, mas acho que na realidade houve mais emoção. Senti falta dessa emoção. Algumas cenas não forma bem feitas, bem terminadas como a do suicidio do seu mellhor amigo. Acho que deveria ter uma explicação mais clara pra sua morte. No final esperava saber como mais detalhes da vida dos personagens. Passou muito ráoido uma pequena legenda falando deles.

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