Doce Vida, A

[rating:5]

Exercício curioso de observação crítica é perceber como um mesmo tema pode gerar filmes radicalmente diferentes, dependendo do cineasta que o aborda. O clássico inquestionável “A Doce Vida” (La Dolce Vita, Itália, 1960), grande obra-prima de Federico Fellini e presença quase obrigatória nas listas de dez melhores filmes de cinéfilos e cineastas mundo afora, é uma excelente maneira de comprovar isto. Basta colocá-lo ao lado de outros grandes momentos do cinema italiano da década de 1960, em especial os três exemplares da trilogia da incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni, feitos praticamente ao mesmo tempo em que Fellini erguia seu monumento de 174 minutos.

Os dois diretores trabalharam com o mesmo material: uma crítica ao vazio existencial dos ricos, à pobreza espiritual e à degradação moral daqueles que vivem na frivolidade da aristocracia. Fellini apareceu com uma história alegórica e espalhafatosa, cheia de símbolos circenses e psicanalíticos que celebravam aquela típica euforia nostálgica que marcaria seu trabalho futuro: artistas circenses, mímicos, personagens extravagantes, mulheres fogosas – enfim, um filme alegremente melancólico, com teor sutil mas firme de crítica social. Antonioni, ao contrário, realizou uma trinca de filmes depressivos, tristes (o primeiro, “A Aventura”, foi lançado no mesmo ano de “A Doce Vida”), com longas e silenciosas caminhadas e personagens amargurados. Ambos dizem basicamente as mesmas coisas, cada um a seu modo.

Embora também seja reconhecido como gênio do cinema, Antonioni deixou menos marcas na memória dos cinéfilos do que Fellini. “A Doce Vida” gerou algumas das imagens mais poderosas e icônicas do cinema europeu, a principal delas sendo o célebre banho de madrugada da deusa sueca Anita Ekberg, junto com o charmoso Marcello Mastroianni, na famosa Fontana di Trevi. Muita gente que nunca viu o longa de Fellini reconhece o filme por causa desta cena. Ela é tão famosa que transcendeu o cinema. Em 19 de dezembro de 1996, dia em que Mastroianni faleceu, centenas de fãs foram espontaneamente até Trevi, sem que ninguém pedisse, para depositar rosas na fonte, como forma de homenagear a memória do ator.

A história de “A Doce Vida”, parodiada por Woody Allen em “Celebridades” (1998), traz Mastroianni como um jornalista de origem humilde, trabalhando em Roma como colunista social. Ele exerce seu ofício sobretudo à noite, rondando os bares e boates luxuosos da Via Veneto, a mais famosa e glamourosa avenida da capital italiana. A estrutura narrativa é episódica, com segmentos praticamente independentes mostrando o cotidiano noturno de Marcello, também nome do personagem interpretado pelo ator. Marcello leva uma vida doce: come nos melhores restaurantes, bebe a melhor champanhe, dorme com mulheres belas e ricas. Mas está triste. Ele sente que algo está errado, embora não saiba direito verbalizar o sentimento.

Fellini utiliza uma forma ímpar de contar sua história, sempre leve e bem-humorada, recheando cada episódio vivido pelo jornalista com diálogos saborosos que circulam o tema sem jamais abordá-lo diretamente. Suas cenas são quase sempre alegóricas, indiretas, causando na platéia uma sensação permanente de que algo está passando despercebido. É um cinema diferente, lúdico, que apela para climas e sensações, e não dá muita bola para essa palavrinha chamada lógica. Vale lembrar que com “A Doce Vida” Fellini rompia em definitivo com o movimento neo-realista, mergulhando cada vez mais, nos filmes seguintes, nesta técnica peculiar de fazer cinema, algo que lhe dava um prazer quase infantil.

Tome como exemplo a famosa seqüência de abertura. Nela, Marcello sobrevoa Roma de helicóptero e o aparelho pára acima de uma luxuosa cobertura, onde belas mulheres seminuas tomam sol. O jornalista flerta com uma delas e lhe pede o número do telefone, para que possa ligar mais tarde. Ela não escuta o que ele está dizendo, e ele também não compreende quando ela tenta lhe dizer isto. Os críticos interpretam a cena como uma alegoria do tema principal do filme, a incomunicabilidade – ninguém consegue se entender, e mesmo quando tentamos desesperadamente falar com o próximo, ele não nos ouve, ainda que se esforce para fazê-lo.

Há passagens memoráveis em “A Doce Vida”, como a breve e divertida visita que o pai do protagonista faz a ele, vindo da humilde cidade interiorana onde mora a família, mas as seqüências mais importantes parecem ser aquelas que incluem o personagem Steiner (Alain Cony), o rico empresário que Marcello elege como ídolo: homem rico e inteligente, bem-sucedido no trabalho e no casamento, pai amoroso de lindos filhos, sereno e tranqüilo. Steiner é um espelho para o jornalista, espécie de prova de que alguém pode manter a integridade pessoal e a riqueza de espírito, mesmo vivendo em meio à luxúria vazia dos ricos. É a partir de certo acontecimento radical envolvendo o personagem que “A Doce Vida” toma o rumo amargo do final inesperado em que, mais uma vez, Marcello tenta conversar com uma mulher, sem conseguir. Tire conclusões por si mesmo, e aproveite a galeria de imagens inesquecíveis adornadas pela música especial de Nino Rota.

O DVD da Versátil é uma edição dupla e recheada de extras, que ganhou novo lançamento em março de 2009. O disco 1 traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 letterboxed) e som OK (Dolby Digital 2.0). Na primeira edição, de 2003, o segundo CD traz um longo documentário biográfico (legendado em português) sobre o músico Nino Rota, grande parceiro de Fellini. A edição de 2009 apresenta um documentário diferente, sobre Fellini.

– A Doce Vida (La Dolce Vita, Itália, 1960)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée, Yvonne Furneaux
Duração: 174 minutos

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15 comentários em “Doce Vida, A

  1. Esse relançamento não é igual a edição dupla anterior. Essa edição nova não tem o documentário sobre Nino Rota e no lugar tem um documentário chamado a “A Magia de Fellini”.

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  2. Olá, Rodrigo. Compartilho de suas impressões sobre A doce vida. No entanto, acho que o “doce”do título é uma ironia, uma vez que conforme você mesmo comprovou, Marcello se sente infeliz a maior parte do tempo. É impressionante, como o filme realizado no início dos anos sessenta, ainda hoje consegue se manter bastante atual, principalmente no seu retrato da exploração da mídia e das relações socias superficias. Felini além de ter sido um grande cineasta, e seus travellings é uma prova evidente disso, ainda soube retratar muito bem as ansidedades e preocupações de sua época, que mesmo no dia de hoje ainda continuam as mesmas: união (ou não ) por meio do casamento, o dilema entre o trabalho e a aspiração a voos mais altos, no caso de Marcello, a literatura, a influência nociva da aristocracia ( cujo castelo decadente é uma poderosa metáfora), o discurso fútil da mídia ( a coletiva de imprensa da atriz), e a importância que essa dá a imagem ( a bela “bambola”, que é Sílvia, conforme atesta uma das falas de Marcelo, e talvez o mais terrível a incerteza e a dissolução do futuro( conforme atesta a trágica morte de Stheiger). Quanto ao final misterioso, acho que este além de ir de encontro ao tema da incomucabilidade também representa a decadência moral de Marcello ( o peixe grotesco, não identificado, representa ele mesmo), também pode significar sua incapacidade enxergar e manter contato com as coisas bonitas da vida, o que acredito está representado no filme pela bela adolescente. De qualquer forma, sendo este ou não o significado do último e marcante close no rosto dela, isso não importa. Uma vez que A doce vida, é grande cinema justamente pelo que insinua, mais do que mostra.
    Sugestão: você poderia escrever uma resenha sobre Satyricon. O que acha?Abraço.

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  3. Sua interpretação é muito consistente, Alessandro, mas grande parte da beleza de Fellini reside no fato de que seus filmes se abrem a muitas interpretações, sem que qualquer uma delas esteja necessariamente certa ou errada. A crítica que Roger Ebert escreveu sobre esse filme é certeira: ele explica como o significado do filme (o melhor de todos os tempos, segundo Ebert) foi mudando junto com ele, com o passar dos anos, abrindo-se a novas impressões sempre que era revisto.

    Quanto a “Satyricon”, eu o vi em 1991 e desde então nunca mais o revi, o que me impossibilita de escrever no momento sobre ele.

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