Oscar 2009

Não, eu não assisti à cerimônia de entrega do Oscar2009. Não tenho TV a cabo em casa, e como a Globo preferiu passar o desfile das escolas de samba cariocas, acompanhei tudo pela Internet mesmo. Menos mal que eu sempre achei as cerimônias do Oscar enfadonhas e longas. E o fato de este ano a transmissão ter sido mais ágil e compacta, aliás, foi para mim a melhor novidade de 2009.

Nos dois posts anteriores que publiquei sobre o assunto, fiz algumas apostas (mas não muitas), sendo algumas delas bastante arriscadas. Meu maior erro, fruto da teimosia, foi achar que “Quem Quer Ser um Milionário?” não confirmaria o status de papa-prêmios da temporada, pelo fato de ser um lançamento independente, feito fora da Hollywood. Errei.

E errei feio. O filme de Danny Boyle tinha sido indicado dez vezes. Venceu oito. Perdeu duas vezes, nas categorias de edição de som (mas venceu em mixagem de som) e canção (mesmo assim faturou o Oscar dessa categoria, com outra indicação).

De qualquer modo, essa vitória traz um ponto positivo: de todos os concorrentes, ganhou justamente aquele sem o tom solene e auto-importante que os vencedores quase sempre têm. Um filme realmente pequeno (e não falsamente pequeno, como de hábito).

Nas categorias técnicas, eu tinha escrito que “Milionário” e “Benjamin Button” dividiriam os troféus. Foi mais ou menos o que aconteceu. O primeiro garantiu montagem, fotografia, trilha sonora, canção e mixagem de som. O longa de David Fincher levantou os troféus de direção de arte, maquiagem e efeitos especiais. E só. Foi o grande derrotado da cerimônia, com três vitórias em 13 possibilidades.

Injustiças? Muitas! “Wall-E” venceu melhor animação, mas perdeu música, roteiro, edição de som e mixagem de som (difícil entender as derrotas nessas últimas categorias). “Valsa com Bashir”, favoritíssimo em filme estrangeiro, foi esnobado (essa era até previsível, pois os votantes desta categoria costumam ser ultra-conservadores, e dar o troféu a um documentário que é também animação…).

“O Lutador” deveria estar entre os indicados a melhor filme. “Homem de Ferro” deveria ganhar o Oscar de efeitos visuais. Kate Winslet já merecia há muito tempo, mas deveria ter vencido por “Foi Apenas um Sonho”, onde esteve melhor do que em “O Leitor” (esta vitória foi fruto do marketing cínico de Harvey Weinstein).

Mas a Academia de Artes e Ciências de Hollywood é assim mesmo.

Entre atores e atrizes, deu mais ou menos aquilo que todos esperavam, talvez com exceção de Sean Penn (mas todos sabiam que ele era um forte concorrente, embora todo mundo, talvez até o próprio Penn, torcesse por Mickey Rourke). E nas duas maiores categorias, direção e filme, a Academia foi coerente.

Para encerrar, devo confessar que minha aposta renitente em “Benjamin Button” se deve, em parte, a certa implicância com “Quem Vai Ser um Milionário?”. O filme de Danny Boyle é bacana, empolgante, esteticamente belo, bem filmado, tecnicamente impecável… mas fica a léguas de distância dos melhores filmes dele (“Cova Rasa”, “Extermínio” e “Trainspotting”). E deve muito –muito mesmo! – ao nosso “Cidade de Deus”. Ora, se era para premiar um filme independente sobre favelados cool, deveriam ter dado o troféu ao original, e não à cópia! 

Mas, de novo, a Academia é assim mesmo. E menos mal que a estatueta mais importante fique, dentro os cinco concorrentes, nas mãos do mais legal. Ainda que este mais legal seja, na minha opinião, inferior a “O Lutador”, “Wall-E” e “O Casamento de Raquel”, todos injustiçados.

A lista completa de premiados no Oscar 2009 está aqui.

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19 comentários em “Oscar 2009

  1. Olha, também segui teu raciocínio no que tange à produção de Quem quer ser Milionário e errei feio. rsrs
    O que mais me causa espanto é ver um produção de 150 milhões de dólares, com um roteirista oscarizado, um bom ator protagonista e um diretor bastante capaz(criador de, ao menos, dois recentes clássicos, se levarmos em conta o impacto e a popularidade) fracassar numa premiação que tem um caráter menos artístico que comercial.
    O Merten disse que ano passado o PTA deixava bastante explícito nas entrevistas que fez um filmes pra Oscar – e ele custou 25 milhões, pelo que sei – e o californiano sentiu bastante a derrota; imagino o que o Fincher sente agora – é verdade que ele diz que ñ se importa com o Oscar, mas que acredita?!
    Outra coisa que acho importante chamar a atenção é que ano passados tínhamos dois autores(Coens e PTA) e esse ano tivemos dois caras com características autorais(mais ñ autores, isso fica claro pelo currículo de ambos) e duas obras-primas, enquanto a competição dessa edição foi entre dois filmes medianos. Com efeito, a partir daí é possível entender por que a Cahiers hoje vê o conceito do autor diferente do que Truffaut pensou lá na década de 50/60.

    Abração, Rodrigo.

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  2. Errei no último parágrafo. Queria dizer que esse ano tivemos dois filmes de autores com características autorarais e duas obras medianas, ao passo que, ano passado, tivemos dois autores, PTA e Coens, e duas obras-primas. A partir daí, dá pra entender por que o conceito do autor na Cahiers, hoje(o diretor tem que ter domínio sobre a obra, roteizando, produzindo ou mais alguma ocupação ao invés de somente dirigir e dar seu toque), difere do pensado por Truffaut nos anos 50/60.

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  3. Concordo com tudo o que você escreveu, Paolo. Digo mais: em termos de filmografia, o trabalho antecessor de David Fincher o qualificaria muito mais ao prêmio do que Danny Boyle (pelo menos na minha opinião). Mas você matou a charada com essa observação sobre a questão da autoria.

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  4. pelo segundo ano seguido a academia entrega os Oscar de efeitos visuais equivocadamente, a que se deve isso? será que tão colocando a comissão de maquiagem pra votar nessa categoria?

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  5. Pura marmelada esse Oscar. Quem Quer Ser um Milionário? é o novo O Último Imperador. Ganha Oscar pra caramba, tem elenco desconhecido, trata de uma cultura estrangeira e… é esquecido. Ou alguém ainda se lembra do filme de Bertolucci? Teve alguma relevância? Influenciou alguém?

    Tomara que esteja errado sobre o filme de Boyle, que ainda não vi. Mas que os indicados e vencedores desse ano foram decepcionantes, não há dúvidas.

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  6. Lamentei muito por wall e.. pra mim foi o melhor filme do ano passado, merecia ter ganho todas as categorias q concorreu. Uma pena. Uma injustiça.
    Gostei de Sean Penn e Kate Wislet, e .. apesar de não ter gostado da vitoria de Penelope Cruz (queria Marisa Tomei), foi o melhor discurso da noite. Adorei a cerimonia, as inovações e Hugh Jackman, ele é uma simpatia e pareceu se divertir muito nas apresentações..

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  7. Rodrigo, eu te disse que sua implicância com “O Curioso Caso de Benjamin Button” estava errada. Os precursores do Oscar mostravam que o favoritismo estava todo ao lado de “Slumdog Millionaire”. A noite de ontem foi óbvia no que diz respeito aos prêmios em si, afinal a maior surpresa que tivemos foi em Melhor Filme Estrangeiro. Mas, o que dizer do show? Adorei as mudanças que foram implementadas. Acho que o ritmo do programa foi ágil demais e amei a idéia de trazer vencedores passados para homenagear e comentar as perofrmances dos indicados em atuação. Imagino o quão especial os indicados, nestas categorias, neste ano, se sentiram!

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  8. Kamila, sobre a cerimônia não posso falar, pois não vi. Agora, por mim, nem tinha cerimônia. Bastavam soltar a lista de vencedores na imprensa e pronto. Acho um saco, realmente.

    Quanto à “implicância”, continuo achando que meu raciocínio era correto. Estava conversando com minha mulher hoje sobre o prêmio e ambos concordamos que ontem ocorreu uma exceção às regras – um filme sem estrelas, feito fora de Hollywood, ganhar oito estatuetas? Raro. Espero que não seja uma exceção que confirme a regra, e que venham filmes com o mesmo perfil (só que melhores) depois dele. Estou com o G4mbit aí em cima: acho que daqui a dois anos ninguém mais vai lembrar direito desse filme. Como ocorreu com “Uma Mente Brilhante”, “Crash”, “Beleza Americana”…

    Edu, ainda não escrevi a crítica de “Rachel”. Espero fazê-lo até o final de semana.

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  9. Concordo com você que Cidade De Deus é melhor que Slumdog.

    Mas pelo amor de Deus, parem com essa dor de cotovelo, Slumdog ganhou, concorreu com filmes fracos e era o melhor deles.

    Cidade De Deus deu azar de pegar um ano de Senhor Dos Anéis, num tinha como ganhar, e além do mais é de se orgulhar um filme falado totalmente em uma lingua estrangeira receber indicações a 4 Oscars. Mas vejo o povo tratando o Oscar como se fosse a coisa mais importante do mundo. Cidade não levou nada, mas como já sabemos, daqui há 10 anos, todo mundo vai lembrar dele e ninguém mais (Exceto alguns como eu, que sou fã incondicional de Danny Boyle) se lembrará de Slumdog Millionaire

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  10. depois de tanta marmelada, ao menos vi Kate Wislet levar algo. Desde Titanic vejo ela se arrumar e nada…mas concordo contigo, Rodrigo. Ela devia ter vencido por “Foi Apenas um Sonho”, mas arrasou em O Leitor. Pra mim, ela promete tanto quanto Merily Streep em renovação de caras e bocas.

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  11. Por pouco Sean Penn não dá a estatueta para Mickey Rourke. O Oscar de Danny Boyle é melhor aceito como uma espécie de “homenagem ao conjunto da obra”. Slumdog tinha tudo, mas… Vc tem razão sobre O Lutador e O Casamento de Rachel terem sido injustiçados (tirando meia hora daquele jantar do ensaio do casamento, o filme é perfeito; e ainda tem Anne Hathaway começando a assumir os papéis que, dez anos atrás, seriam de Wynona Ryder).

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  12. Bem, eu teria esperado mais uns 30 anos antes de dar um Oscar pelo conjunto da obra ao Danny Boyle. Scorsese esperou quatro décadas. Quanto ao “jantar de ensaio”, tem toda razão. E Anne Hathaway, embora me pareça um pouquinho histriônica demais no papel, é bem melhor atriz do que a doida da vida real.

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  13. Ah, quase ia esquecendo do mais importante: no meu entender, “Wall-E” foi o melhor filme de 2008 (no meu Top 10, ficou atrás somente de “Jogo de Cena” e do vencedor do Oscar 2008, que foi lançado em 2007).

    Eu sei que a Academia de Hollywood tem preconceito com animações, documentários e comédias. Mas não posso compactuar com isso. “Wall-E” é uma obra-prima, como “Milionário” ou “Benjamin Button” ou “O Casamento de Rachel” ou “O Lutador”, por melhores que sejam, jamais serão.

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