Estranhos, Os

[rating:3.5]

O casal chega à luxuosa e isolada casa de campo dos pais dele, após uma festa, na maior tristeza. O plano original de James (Scott Speedman) era proporcionar a Kristen (Liv Tyler) a madrugada mais romântica da vida dela. Ao recusar o pedido de casamento feito pelo namorado, porém, ela estragou tudo. Não demora muito, porém, para que os dois se vejam obrigados a enxugar as lágrimas para enfrentar uma estranhíssima e apavorante tentativa de invasão, feita por desconhecidos que usam máscaras sinistras. Com esta premissa enxuta, “Os Estranhos” (The Strangers, EUA, 2008) não tem pretensão maior do que simplesmente manter o espectador com os nervos em frangalhos, em estado de tensão absoluta, durante toda a projeção. E o objetivo é alcançado com louvor.

Para a estréia cinematográfica, o diretor e roteirista Bryan Bertino escreveu uma história baseada num episódio ocorrido durante a infância. Certa vez, durante a noite, a família dele foi surpreendida com batidas à porta de um estranho, que perguntava sobre uma pessoa que não morava lá. No dia seguinte, os Bertino descobriram que outra casa na vizinhança havia sido invadida e assaltada. Tomando como ponto de partida apenas as batidas inesperadas na porta de casa, Bryan escreveu um roteiro inteiramente ficcional (sim, os letreiros que abrem o filme são mentirosos) para um filme pequeno em todos os sentidos. A história se passa quase toda numa só locação (a mansão luxuosa de campo de uma família de classe média), e o elenco tem apenas dois atores e um punhado de figurantes.

“Os Estranhos” se propõe apenas a contar apenas a história de um casal assediado de madrugada por estranhos que usam sinistras máscaras. Não há nenhum subtexto, o diretor não tenta passar nenhuma mensagem, nada disso. Nem mesmo a composição consistente dos personagens é importante. Se Bryan Bertino dedica o primeiro ato a apresentar o casal em situação de conflito, isso ocorre apenas para permitir maior empatia do público com os dois. Afinal, eles são pessoas comuns, igualzinho ao pessoal do lado de cá da tela. Ele não passa de um cara apaixonado que acaba de sofrer a pior desilusão de sua vida. E o pior é que ela gosta dele. Apenas está confusa. Acha que é jovem demais para dar um passo tão importante quanto casar.

A partir da primeira pancada na porta da casa de campo, porém, o que se vê na tela é uma história simples, quase corriqueira, mas contada de uma forma que garante tensão permanente. A maior virtude do longa-metragem é a decupagem (a escolha dos ângulos de câmera), criteriosa planejada pelo diretor. Seguindo à risca a definição de suspense dada pelo mestre Alfred Hitchcock, o cineasta estreante trata de posicionar a câmera sempre numa posição que permita à platéia saber um pouco mais do que os dois personagens principais. Este é o segredo da tensão que faz o espectador fincar os dedos na poltrona e não largar nunca. Nós sabemos coisas que eles – o casal – não sabem. Hitchcock dizia que esta era a maneira mais eficiente de criar suspense, pois quando a platéia fica na mesma posição dos personagens, apenas toma sustos, um recurso que perde força quando utilizado em excesso.

Outra técnica utilizada pelo diretor para causar desconforto na platéia é a mobilidade da câmera. Ela nunca está fixa. Move-se sem parar, de modo lento, praticamente imperceptível, quase sempre lateralmente. Não é uma técnica utilizada de modo gratuito. O movimento incessante contribui para que a platéia permaneça com a sensação de quebra de estabilidade. Nós percebemos inconscientemente que algo está errado, ainda que não saibamos nomear o que é. Além disso, o uso de música diegética (ou seja, cuja fonte de origem está dentro do quadro) é criativa, embora crie emoções distintas para os personagens e para a platéia – enquanto desorienta e assusta os primeiros, agrega ainda mais tensão e angústia para os últimos, por causa da expectativa do susto.

Numa época em que o gênero de horror está dominado por imagens de violência explícita e por clichês narrativos que se propagam como erva daninha, o surgimento de um filme como “Os Estranhos”, que investe todos os recursos na criação de uma atmosfera e a sustenta com o uso inteligente de recursos simples e eficientes, deve sempre ser saudado como dado positivo. Infelizmente, o sucesso alcançado nas bilheterias norte-americanas, onde o filme fez surpreendentes US$ 52 milhões, depois de gastar o magro orçamento de U$ 9 milhões, acabou dando sinal verde para a produção de uma desnecessária continuação. Mas essa já é outra história.

O DVD nacional, da Paris Filmes, é simples. O enquadramento original foi preservado (widescreen letterboxed) e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). Cenas cortadas, um trailer e um featurette completam o pacote.

– Os Estranhos (The Strangers, EUA, 2008)
Direção: Bryan Bertino
Elenco: Liv Tyler, Scott Speedman, Glenn Howerton
Duração: 85 minutos

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25 comentários em “Estranhos, Os

  1. Bom…. fui esperando um filmaço…e encontrei um suspense realmente arrepiante mas sem história alguma…quem está esperando um desfeche no filme….sugiro ficar em casa…. pois fui na expectativa…sim lógico de ficar presa até o final do filme…e levar alguns sempre presentes sustos….mas a maneira que o filme acabou foi horrível…vc não sabe o porque que aquilo tudo acontece…. não sabe de quem é a ligação para a polícia no início do fim…. o que é dito no início do filme não tem relação nenhuma com o contexto…… fiquei decepcionada…. seria um bom “tela quente”…mas só

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  2. Vi hoje. Achei a premissa bem interessante. Eu estava gostando do filme, sentindo medo e ficando tensa, até que na metade me cansei daquela situação. Comecei a me perguntar até quando os estranhos iriam ficar brincando de dar sustos. Senti falta de algo mais, uma história talvez. Mas gostei de todos essas técnicas utilizadas pelo diretor que você citou. Com exceção da cena final, que achei ridícula. Aliás, acho ridícula em qualquer filme do gênero. Só gostaria mesmo que a atmosfera de medo tivesse durado até o fim. E isso não aconteceu comigo. Perdi o interesse ou “saí do clima” cedo demais.

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  3. Os Estranhos é realmente um filmaço. Aquele clima me prendeu até o fim. Durante 90 minutos meus nervos ficaram a flor da pele. Quanto ao roteiro também achei ótimo. Discordo completamente da nossa amiga Thalita aí em cima. O filme em nenhum momento deixou pontas soltas. Aquela ligação do começo do filme ficou bem clara de quem tinha sido. Outra coisa que me incomoda é sempre tentar arrumar motivos para tudo. Tenho a impresão de que as pessoas ficariam bem mais satisfeitas se tivesse uma trama mirabolante envolvendo seguro de vida, ou mesmo uma surpresa que não tinha nada a ver com o enredo ou que fosse uma história de fantasmas.Parece que o fato de vivermos em uma sociedade ultra- violenta, não incomoda tanto. Uma juventude que mata alunos na escola, namoradas a tiros), que estupra e outras coisas também, pode muito bem brincar de assassinato pelo simples prazer. Será que um dia iremos abrir os olhos para o óbvio? O fato de que a violência é pior do que pensávamos?

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  4. É, Danilo. Realmente a tal da ligação ficou clara de quem era. Mas querer um enredo mais consistente ou simlesmente não considerar esse filme tão bom quanto vcs, não tem nada a ver com abrir os olhos para a violência. Afinal, mesmo sem motivos aparentes, os psicopatas da vida real rendem muita história. Basta saber contar.

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  5. Hmmm.. tô afim de ver. Achei o trailer bem instigante!
    Mas segundo relatos em fóruns da net. “Os Estranhos” seria um remake, pra não dizer cópia, de um filme fime frances, chamado ELES (FRANÇA / 2006), Lançado pela distribuidora Europa Filmes.
    Vi o DVD de ELES, ontem, na Americans da 7 de Setembro.
    E a sinopsie é muito parecida:

    “Clémentine e Lucas são franceses que vivem em Bucareste, na Romênia. Ela dá aula de francês, ele é escritor. O casal mora numa enorme e velha casa afastada do centro da cidade.Um local calmo e tranqüilo, até que certa noite Clémentine ouve um barulho no andar de baixo da casa. Assustada, ela acorda o marido. Eles estão atacando furiosamente e querem apenas brincar e apavorar.”

    Link: http://www.videolar.com/ProdutoDVD.asp?productid=120141

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  6. Vi muita gente falando mal do final do filme, da ultima cena… concordo que foi desnecessaria 😛

    mas o que poucos entenderam é que: não saber a identidade dos assasinos, deixa todos com a sensação de que nada pôde ser feito e nem poderá!

    Laranja Mecanica já mostrava a violência gratúita e o que é mais angustiante, SEM MOTIVO ALGUM, assim como mostra esse filme, psicopatas não precisam de um motivo pra matar e sim da situação…

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  7. Eu assisti ao filme ontem e acho que o diretor estreante se mostra bem promissor. Ele acerta – e muito – no retrato dos seus vilões, mas erra feio no desenho dos mocinhos. Alguns atos cometidos por eles chegam a ser estúpidos!!!!

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  8. quando estamos com muito medo não somos igualmente estúpidos? Prefiro acreditar nisso do que aceitar a idéia de que , mesmo com muito medo, conseguimos ter nosso raciocínio inalterado e conseguir planejar algo genial

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  9. Vi “os estranhos” uma semana depois de ver “Funny Games”. A comparação é inevitável! Os dois filmes tem um história enxuta, como falou o rodrigo. Os dois filmes falam sobre violência e deixam uma mesagem. Uma reflexão sobre a violência real que nos cerca e a violência na mídia, que não cansamos em consumir. Cada um de sua forma é claro. Os estranho é bom em criar um clima de suspense. Funny games é uma aula de cinema. Nas duas seções ouvi criticas bem parecidas. As pessoas reclamavam do final. Faz tempo que o cinema deixou de trazer filmes com final feliz. O filme não precisa ser só o desfecho, a conclusão. Em “O nevoeiro” o final não é nada bonzinho. E por que tem que ser? Quem se diverte no cinema vendo Jogos Mortais 15 ou Pânico 22, se nós já sabemos o que vai acontecer. Os três filmes citado me fizeram sair da sala de cinema pensando: “O que foi isso? O que esse cara quis dizer?”. Acho que as pesoas não tão muito acostumadas em refletir sobre o que consomem. É como escutar música em inglês sem entender uma palavra. Pode ser legal, mas se você entende o que o cantor está dizendo, eu garanto, fica muito melhor. Não estou dizendo que não é legal ir a o cinema ver uma históia com começo, meio e fim. É legal sim, e muito!

    Desculpem a viajem!!
    😀

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  10. Muito bom o filme, a crítica esta ótima Rodrigo, principalmente qdo vc falou da movimentação da câmera, tive a sensação desconfortável e não havia percebido a intenção do diretor.

    Qto ao final achei inteligentemente vago! Um acerto! plausível e inesperado, muito bom.

    Qto as atitudes dos mocinhos, alguém aí que os chamaram de estúpidos já esteve em uma situação ao menos parecida??? Eu enfrento situações de alta tensão e posso dizer, de cada 10 decisões que tomamos ao menos nove poderiam ser bem melhores após 1 hora do ocorrido…

    E pessoal… pq esse desejo tão grande de ter o filme sempre explicado por uma reviravolta (as vezes bem idiota) no final? A coisas desconhecidas no mundo sabiam…

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  11. só eu odiei esse filme? que não existe história alguma, acho que todos concordam. os atores são muito limitados, é um clichê atrás do outro. um surdo não se assustaria nem com 30% do filme.

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  12. Não odiei o filme…. muito menos fiz pouco caso da violência que foi demonstrada, mas convenhamos que um desfecho seria ideal, não estava esperando fantasmas, ou até mesmo uma coisa casual, mas que ficasse pelo menos explicado o porque que eles matam, já que no final mostra os assassinos. Não entendi, queriam encurtar o filme, como fizeram com os infiltrados… que todo mundo vai morrendo no final. Gostaria apenas de um enredo que fechasse ou ao menos ficasse subentendido, mas não acontece… o filme simplesmente acaba e pronto, o pior ainda é o clichê final do sustinho….
    Filme bom de suspense… a chave mestra, a escuridão, Os outros, e vários outros que tem um contexto e não simplesmente assuta quem assite.

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  13. Decepcionante…
    Quando vi o trailer do filme, achei-o muito interessante e o começo do filme mostra-se realmente promissor. Mas para tudo aí, infelizmente… O roteiro trilha pelos clichês mais terríveis que me fizeram sair da trama e não mais entrar no clima de tensão, passando a achar tudo risível. E talvez seja mesmo…
    Os mocinhos são estúpidos e cometem os erros mais triviais. Os vilões são quase deuses, com dons de onisciência e onipresença! Não era para serem deliquentes “normais”?
    Destaque para a parte sonora do filme que consegue se utilizar de recursos simples, como uma vitrola “engasgada”, para fazer os nervos fritarem de tensão.

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  14. Quanto à parte técnica, como movimentos de câmera, não posso dizer nada, pois não prestei atenção, a não ser no fato que o Rodrigo citou, sobre a platéia saber mais que os mocinhos.

    Quanto aos erros cometidos pelos mocinhos, quem, em sã consciência, abre uma porta às 4 da manhã para um desconhecido? 2- Quem, apesar disso, vai comprar cigarro, deixando a mulher sozinha? 3- O amigo (que amigo!) entra numa casa, vendo um carro destruído, a porta arrombada, com sinais de vandalismo, não chama a polícia e nem entra chamando pelos amigos. 4- Depois da negligência do amigo, ficam nervosos e esquecem de pegar o celular dele, ou até de verificar se ele tinha um. A moça só foi ver depois. 5- No meio da confusão, quem teria a idéia de sair da casa, deixando de novo a mulher sozinha, sem saber onde estavam os mascarados?

    Ou seja, pra manter o suspense, tiveram que cometer vários erros de lógica, tipo o estupro de “O ensaio sobre a cegueira”.

    Milhões de técnicas não justificam a falta de lógica e insulta o público ao dizer que o filme é baseado em fatos reais.

    Nota zero pra esse filme.

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  15. Cristiane, suas observações realmente têm lógica, mas são a SUA lógica. Nem sempre os personagens têm a mesma lógica que você, na platéia. Aplicar nossos princípios lógicos aos personagens de todos os filmes não é uma boa idéia. Em todos os exemplos que você citou (com exceção do primeiro), você parte da suposição de que o casal está raciocinando com a mesma tranqüilidade que você, o que nem de longe é verdade. Quando a gente está em pânico, comete os piores erros de julgamento.

    E eu nem estou levando em consideração diferenças culturais, como o fato de que nos EUA as pessoas nem sempre fecham a porta de casa com a chave. Ou seja, o que no Brasil parece uma estupidez, lá é comum (já fiquei hospedado numa casa em Los Angeles que vivia com a porta destrancada, mesmo de madrugada).

    O mesmo princípio vale para “Ensaio Sobre a Cegueira”. Nesse último caso, lembre-se que houve mulheres que se negaram a ir fazer sexo, enquanto outras foram. Cada uma tinha sua própria lógica. Não se pode exigir que TODAS tenham a mesma lógica que você, concorda?

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  16. Rodrigo, você entraria numa casa cuja porta estivesse arrombada, sem dizer nada? E ainda por cima, com um carro na frente, todo depredado? Com um celular na mão, o raciocínio lógico de qualquer pessoa no mundo é ligar para a polícia. Agora, claro, uma trama fraca, sem sustentação, precisava que esses erros sucessivos fossem cometidos para que o filme existisse, com esse suspense. O tiro na cabeça foi um clímax forçado. Por isso, continuo mantendo esta opinião.

    Respeito a opinião dos outros, e aqueles que me lêem e assistiram ou assistirão vão dar suas opiniões… com suas lógicas.

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  17. Eu não entraria não. Ou melhor, dependendo da casa – se fosse dos meus pais, ou de uma filha, com certeza entraria. Mas isso não importa. Importa que o filme não precisa necessariamente concordar com a sua lógica para ser bom.

    Vamos entrar num acordo?

    Você não gostou do filme porque ele desrespeita a sua lógica. OK. Mas isso não significa que o filme seja ruim. Significa apenas que você não gostou dele.

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  18. Há muito tempo não via um suspense tão bom… acho que o diretor conseguiu o objetivo, pois eu não consigo sentir medo se não for de coisas reais, portanto os filmes de fantasmas me dão sustos, é claro, mas não medo. A mentirinha de “baseado numa história real” ajudou e agora estou atenta, nem sempre isto é verdade.

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