Experiência emocional

Gostaria de compartilhar com vocês uma experiência emocional inesperada e violenta, vivida hoje, durante a cabine para a imprensa de “O Curioso Caso de Benjamin Button”. No entanto, recomendo a todos os que ainda não viram o filme, e gostariam de assisti-lo sabendo o mínimo possível, que parassem por aqui e só retornassem a este post após vê-lo.

Digo isso porque vou contar alguns detalhes do enredo. Embora não sejam muito importantes para a narrativa, seu conhecimento prévio pode incomodar alguns leitores. Portanto, estejam avisados. A partir do próximo parágrafo, vem spoiler por aí.

Ainda aqui? OK, vamos em frente. Tudo corria normalmente durante o filme quando, lá pelo meio do terceiro ato, uma determinada personagem recebe um monte de cartões postais antigos, escritos para ela pelo verdadeiro pai biológico, a quem nunca pôde conhecer.

Ela começa a ler alguns. O cartão enviado na data do aniversário de dois anos: “Gostaria de poder beijá-la e dizer boa noite”. Aos cinco anos: “Adoraria poder tê-la levado ao primeiro dia de aula”. Aos 13 anos: “Queria poder abraçá-la quando estivesse de coração partido por causa de algum rapaz”.

A essa altura, sem que nada me houvesse preparado para tanto, meus olhos se encheram de lágrimas e a garganta fechou. Perdi a respiração por um instante. Fiquei sem fôlego.

Durou uma fração de segundo. Não fiz nenhum ruído, não mexi um músculo, e no instante seguinte já tentava racionalizar: o que havia se passado? Qual o motivo de tamanha reação emocional, algo que não experimentava de modo tão súbito dentro de um cinema há tanto tempo?

(A propósito: “Jogo de Cena” não conta, pois nesse caso eu sentia as lágrimas chegando muito antes de elas efetivamente aparecerem).

A ficha caiu rapidamente. Eu havia experimentado um momento de completa e esmagadora sintonia com os sentimentos do personagem-narrador (o autor dos cartões postais, que sequer estava em cena!).

Como vocês devem saber, tenho duas filhas. Acompanhar o crescimento delas é uma delícia, mas uma pequena parte de mim (que tento, ou tentava, manter bem abafada) morre um pouquinho a cada dia por saber que, alguns anos à frente (espero que muitos), não estarei mais aqui para vê-las.

Enfim, foi uma epifania. Passou logo. Pude me recompor e ver o resto do filme (que não é uma obra-prima, mas é ótimo).

Depois, continuei pensando naquele breve momento de pura emoção que me atingiu como o raio que cai sete vezes na cabeça do mesmo personagem.

E foi aí que me dei conta de uma das particularidades que fazem do cinema uma arte tão singular.

Via de regra, um crítico não se permite sentir esse tipo de emoção. Somos treinados para desconstruir a narrativa ao mesmo tempo em que ela se desenrola. Nosso olhar é técnico; às vezes percebemos onde está a emoção de determinada cena, mas não a sentimos – apenas a reconhecemos.

Qualquer um que compareça a uma cabine de imprensa, algum dia, vai perceber claramente o que estou falando. É raro ouvir risadas quando estamos sentados entre críticos. Choro? Acho que nunca vi, em 10 anos de profissão. Alguns de nós até escrevem em bloquinhos com canetas luminosas.

Vejam bem: não é que todo crítico escolhe conscientemente não sentir emoções. É que muita coisa está passando pela cabeça, durante uma projeção, para que essas emoções possam vir à tona. Eu mesmo nunca havia pensado sobre isso, até hoje.

Aí é que vem o poder do cinema. Hoje, eu não escolhi verter lágrimas. Elas me escolheram. Simplesmente não pude evitá-las. E tenho certeza de que fui o único, dentre as 20 e poucas pessoas que estavam dentro da sala 8 do Multiplex Recife, que teve esta experiência naquele exato instante.

Porque um filme, afinal de contas, nunca é o mesmo filme para duas pessoas diferentes. Cada membro da platéia faz a sua própria leitura do que vê na tela grande. As leituras podem ser parecidas, mas nunca idênticas. São como impressões digitais.

Ademais, somente uma arte inscrita no tempo (caso do cinema, e também da música) é capaz de oferecer uma experiência emocional tão poderosa, que atinja um espectador sem passar por qualquer tipo de filtro intelectual.

Prestem atenção: não estou dizendo que a literatura (e demais artes não inscritas no tempo) é inferior ao cinema, no que toca à capacidade de provocar emoções adormecidas. Um bom texto também consegue fazer qualquer um chorar. Mas as lágrimas literárias, porém, são sempre intermediadas por um filtro intelectual. Você lê, processa a informação em algum canto do cérebro, e chora.

Minha experiência de hoje não foi assim. Só consegui processar o que havia acontecido depois do evento em si. Nunca passei por nada parecido lendo um livro.

Tirei duas lições do episódio. A primeira: são detalhes assim me fazem amar o cinema como expressão artística única e insubstituível.

A segunda: minhas filhas são meu tesouro mais precioso, e por mais que os filmes possam ser grandes companheiros, só conseguirão – como no caso de hoje – roçar levemente no tamanho da resposta emocional que qualquer evento relacionado a elas provoca em mim.

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12 comentários em “Experiência emocional

  1. Que relato interesante!!
    Comecei a ler ontem, como voce alerta pra o spoiler, parei de ler, fui ao cinema pra ver o filme e a primeira coisa que fiz quando voltei foi continuar a leitura sobre sua experiencia emocional. great!
    Well, como não sou critica, choro sempre.
    Amo o cinema

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  2. Quer dizer que vcs são treinados pra sentir com à “razão” e não com o “coração”?
    Existi filmes que são feitos pra se sentir mais com o coração, esses vcs não dão muito valor?
    Será talvez o” porque” do melodrama não fazer parte do gosto pessoal de Rodrigo?
    O que pode ser “apelativo” para críticos pode não ser para meros expectadores?
    Talvez essa seja à resposta às críticas negativas do filme de Gibson ” A paixão de Cristo” que pra mim foi ” um ” para se sentir com o coração.

    Rodrigo, seu texto foi sensacional. Parabéns!
    O filme apenas conseguiu mostrar um pouco do sentimento que existi dentro de vc: O amor pelas suas filhas.

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  3. Fernando, obrigado pelo elogio. Mas acho que você entendeu mal minha argumentação a respeito da dualidade razão X emoção. Não existe isso de filme feito para “se sentir com o coração”. TODOS os filmes são feitos para se sentir com o coração. O que interessa ao crítico, porém, é analisar a eficácia/criatividade/originalidade do método escolhido para isso por cada cineasta. Um filme ruim é um filme mal feito, ponto.

    Ademais, o melodrama faz parte, sim, do meu gosto pessoal. Todos os filmes de Hitchcock são melodrama, e ele é um dos meus cineastas favoritos. É importante ressaltar que o conceito de “melodrama” não tem nada a ver com o de “dramalhão” (que é o melodrama ruim e apelativo).

    Abraços

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  4. Valeu pelo comentário, Fernando.

    Você tocou em um ponto (a dicotomia crítico/público) que é muito mais complexo do que se pode imaginar, e que rende muito pano pra manga… minha dissertação inteira de mestrado foi sobre isso. Espero escrever mais sobre o tema aqui no blog no futuro, mas esse assunto não estava realmente na minha cabeça enquanto escrevia esse post. 🙂

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  5. Eu que agradeço, Rodrigo.

    Outro dia vi o filme “Réquiem para um sonho” que ainda não tinha visto ( Filmaço ) e fiquei meio sem norte no final, com um sentimento esquisito que nunca tinha tido antes em filme algum.
    Logo percebi que à sacada do diretor era gênial . Acho que ele queria que um pouco do filme nos acompanhace depois da sessão. Acho que à edição do filme serve exatamente pra provocar esse tipo de sentimento quase nauseante. ( O cérebro leva um tempo pra processar o que se ver na tela, como os cortes são hiper-rápidos nos causa um certo desconforto visual, e de alguma forma nós ficamos tontos ).
    Quando falo de ” alguma forma ” é que nem todo mundo está suscetível à tonteiras. Uma pessoa hiper-tensa por exemplo, pode chegar a vomitar com esse filme, não acha?

    Daí entra em pauta o nosso assunto: Será que todo o mundo que vê o filme senti à mesma coisa? Você sentiu à mesma coisa, Rodrigo? É o poder subjetivo/emocional do cinema.

    Abração

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  6. Tem uma entrevista legal de Spielberg sobre isso no DVD de “Encurralado”. Ele fala como os críticos franceses elogiaram e interpretaram o filme como uma metáfora para a luta de classes nos EUA (o caminhão sendo a velha aristocracia rural, e o carro como a nova burguesia urbana). Além de garantir que jamais pensou nisso, Spielberg acaba dizendo que o episódio deixou pra ele uma lição: nunca tentar controlar o modo como as pessoas vão ler o filme, porque cada uma terá sempre uma leitura diferente do outro.

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  7. Rodrigo,

    Tudo bem? Só hoje, passado mais de um ano após você escrever o artigo, é que o li e o achei, simplesmente, brilhante. E isso porque ele resume a quintassência do que vem a ser o Objetivo do Cinema (pelo menos essa é minha opiniao): narrar histórias que mexam com o público, não só o façam PENSAR, mas o façam SENTIR.

    Particularmente, não gostei muito do filme “O Curioso Caso de Benjamim Button” (à despeito de ser pai de uma linda garotinha de 1 ano e 3 meses…). O achei um filme extremamente bem feito, mas frio. Sabe aquele filme que não “te convence”? Pois é… Mas, entendo perfeitamente, o que você sentiu pois tive uma reação parecida com a sua em vários momentos de “A Estrada”. Acho que não preciso dizer o porquê, né?

    Enfim… De qualquer forma, bom saber quando um crítico admite e se posiciona de forma tão tranquila em relação aos aspectos subjetivos inerentes e incontornáveis de um filme.

    Abraço!

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