Duas Faces da Lei, As

[rating: 2.5]

Peça a qualquer cinéfilo que faça uma lista com os nomes dos cinco atores mais talentosos dos últimos 50 anos. Nove entre dez respostas incluirão, na lista, os nomes de Robert De Niro e Al Pacino. Apesar de terem se tornado gigantes do cinema na mesma época (anos 1970), trabalhando com diretores da mesma turma (Coppola, Scorsese), os dois só tiveram uma chance tardia de contracenar juntos, no intenso “Fogo Contra Fogo” (1995). De lá para cá, talvez por causa da idade avançada, ambos passaram a se repetir, escolhendo roteiros fracos ou auto-indulgentes, e embarcando em projetos que não ofereciam desafios a atores do porte deles. Infelizmente, “As Duas Faces da Lei” (Righteous Kill, EUA, 2008) repete o cacoete. A única diferença é que dessa vez eles fizeram bomba juntos.

O longa-metragem de Jon Avnet (“Armadilha”) trilha um caminho já muito explorado pelos grandes estúdios: é um “whodunit”, um trabalho na linha “descubra-quem-é-o-assassino”, que consiste basicamente em uma série de truques elaborados com o intuito de criar e dissipar, sucessivamente, suspeitas sobre determinados personagens. A presença dos dois grandes atores funciona como estratégia de marketing e ímã de audiência – as fotos de ambos ilustram cartazes com slogans do tipo “não perca a segunda colaboração entre os dois maiores astros de todos os tempos”. Ao contrário do que havia ocorrido em “Fogo Contra Fogo”, porém, este é um filme em que os personagens não importam. Qualquer ator medíocre poderia tomar o lugar de De Niro ou Pacino. O trabalho não ganha um milímetro de consistência ou qualidade por causa da presença da dupla.

Muito ocupado em tentar desviar de buracos de lógica e criar novas suspeitas para enganar o público, o roteiro de Russell Gerwitz não tem tempo de trabalhar na composição de personagens. A platéia não fica sabendo nada sobre Rooster (Pacino), o tranqüilo e esperto parceiro do esquentado Turk (De Niro). Sobre este último, somos informados de que é viúvo e a filha mora em outro estado, mas esta informação não ajuda em nada a defini-lo. Ambos são ocos, vazios, meros invólucros de carne e osso para personagens de um videogame ruim. Parte do truque bolado por Avnet e Gerwitz consiste em fazer a platéia acreditar que o segundo é um serial killer que vem atuando em Nova York. O criminoso mata malfeitores que escaparam das garras da Justiça. Na cena do crime, sempre deixa a arma utilizada e um poema. Ele já matou mais de 30 pessoas. As suspeitas indicam que se trata de um policial. A influência da série “Dexter” sobre o argumento é explícita – o seriado de TV, porém, mostra-se muito superior.

A edição, intencionalmente tendenciosa, intercala a ação dramática com fragmentos de um vídeo-diário em que Turk confessa esses crimes. Por algum tempo, Avnet deixa a impressão de que “As Duas Faces da Lei” vai lidar com questões éticas relacionadas ao trabalho policial. Afinal de contas, o misterioso assassino em série vem prestando um favor aos agentes, por estar tirando das ruas criminosos que eles próprios não conseguiram, ainda que de forma violenta e ilegal. Seguindo essa tendência, caso fosse confirmada a autoria dos assassinatos, Turk sofreria de remorsos, enquanto Rooster estaria em dúvida sobre denunciar ou não o colega aos outros dois agentes (John Leguizamo e Donnie Whalberg) que investigam o assassino. Apesar das insinuações dramáticas, Avnet opta por passar ao largo dessa discussão ética, que poderia render um drama interessante, e criar um elaborado jogo de fumaça que desperdiça o potencial dos dois atores – e dos coadjuvantes de talento – com soluções dramatúrgicas repletas de clichês.

Observe a trilha sonora chata e repetitiva, que parece ter sido remixada de um dos milhares de thrillers feitos todos os anos para exibição na TV a cabo norte-americana. Reflita sobre os inúmeros diálogos metidos a besta, mas sem conteúdo consistente, que De Niro e Pacino trocam durante todo o filme, mal disfarçando o ar de enfado. Analise a cena que mostra a entrada de uma pessoa, dentro do quarto de hospital onde se recupera a única testemunha que viu o assassino, em cena filmada com câmera subjetiva apenas para provocar uma falsa impressão sobre o que vai acontecer. E repare na absoluta falta de criatividade do terceiro ato. Primeiro, ao mostrar um encontro entre o mocinho e o bandido, em que o segundo recusa a chance de matar o primeiro apenas para explicar a trama, em um longo e dispensável monólogo. Depois, finalmente, ao filmar o clímax dentro do mais batido de todos os cenários – uma fábrica abandonada. Sim, é verdade. Você já viu tudo isso antes. Uma montanha de clichês.

A edição nacional do DVD, da Califórnia, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e nenhum extra.

– As Duas Faces da Lei (Righteous Kill, EUA, 2008)
Direção: Jon Avnet
Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Carla Gugino, John  Leguizamo
Duração: 101 minutos

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9 comentários em “Duas Faces da Lei, As

  1. DEvo ver quarta-feira mas dá pena pelo que estão falando. Acho que o último filme realemnte bom do Pacino foi Advogado do Diabo, já do Deniro….nem lembro agora.
    Merecem coisas melhores. Mas culpa deles também que não escolhem direito.
    O que eu realmente queria antes que eles parassem de vez era ver um novo Martin Scorcese realmente bom com DeNiro(novamente) e o Pacino em um baita roteiro e com a direção fantástica do Scorcese e uma ponta pelo menos do Joe Pesci pra completar o saudocismo. Queria muito ver esse filme um dia.

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  2. Esses caras devem ter dívida de jogo para pagar, ou muita pensão alimentícia. Pense numa dupla que pega qualquer roteiro.
    Tão parecendo Samuel L. Jackson e Michael Kane (que já foi vilão de filme de Steven Segal)

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  3. Essa pergunta não faz sentido pra mim, Ricardo. Não se trata de uma competição esportiva. Há personagens que o De Niro faz melhor, outros em que Pacino dá show. Ambos são excelentes. Isso sem falar de muitos outros atores do mesmo nível, mas que as pessoas não valorizam pro razões diversas (apenas para citar dois da mesma geração, os geniais Warren Oates e John Cazale).

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  4. John Cazale não é muito citado talvez pelo fato de ter morrido prematuramente. Que eu me lembre, só fez O Poderoso Chefão, A Conversação, O Poderoso Chefão – Parte II, Um Dia de Cão e O Franco-Atirador. Nesse último, ele já estava bem debilitado. Mas é, sem dúvidas, um grande ator que merece ser redescoberto.

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  5. Finalmente vi o filme. Tem cliches sim, etc. Mas achei melhor do que esperava. Um bom trailer policial pra passar o tempo (não é mais do que isso é verdade) mas um trailer muito eficiente. E DeNiro e Pacino estão ótimos como sempre. Mas é claro que todos nós sabemos que podem muito, muito e muito mais. Mas que foi melhor do que pensei isso foi. Me diverti bastante em 100min. de filme.

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