1001 Filmes para Ver Antes de Morrer

Quanto tempo você leva para ver um total de 1001 filmes? A maioria dos mortais comuns provavelmente passará a vida inteira sem ver tantas obras de arte audiovisuais, mesmo incluindo aquelas sessões despretensiosas em que a televisão está ligada e você espia de vez em quando, com o rabo do olho, enquanto cochila no sofá ou faz qualquer outra coisa na sala de sua casa. Um cálculo rápido confirma o raciocínio: se vir um filme por dia, religiosamente (número que raríssimos cinéfilos conseguem cumprir), você vai precisar de três anos e três meses para completar todas as indicações sugeridas por “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”, a compilação de 960 páginas coordenada por Stephen Jay Schneider. Trata-se de um sucesso editorial traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos pelo mundo.

É difícil imaginar uma razão objetiva e sensata que leve um pesquisador a coordenar um grupo internacional e multidisciplinar de trabalho, composto por 75 críticos e estudiosos de cinema de nove diferentes países, na tarefa hercúlea de selecionar os títulos e escrever pequenas resenhas críticas sobre cada um deles. No prefácio da luxuosa edição brasileira, toda impressa em papel couché, Schneider confessa: não há argumento capaz de sustentar a consistência ou a lógica do projeto. Ao concebê-lo, ele simplesmente queria juntar um grupo de apaixonados por cinema e incentivá-los a compartilhar esse amor com outras pessoas, com qualquer grau de conhecimento técnico-teórico sobre filmes, que também gostassem de se embriagar com filmes. A arte, afinal, não é objetiva. E nem precisa ser sensata.

Para a seleção final, houve apenas um critério de escolha: cada título precisava ter algum grau de importância na história da Sétima Arte, fosse esse critério técnico, narrativo, estético, social, econômico, político. O sucesso de público, tanto quanto as qualidades formais, também foi levado em consideração. Schneider diz que o ecletismo pesou na lista final – ele e os colegas queriam oferecer ao leitor um panorama completo do cinema, dos pequenos faroestes e comédias mudos da primeira década do século XX aos grandes musicais da Golden Age de Hollywood (1935-50), do impressionismo francês (década de 1930) ao neo-realismo italiano (1940-50), da emergência dos blockbusters nos EUA (1975-80) aos pequenos e obscuros filmes dinamarqueses e iranianos que sacudiram o mundo dos cinéfilos na década de 1990. Está tudo lá.

Cinéfilos mais radicais podem reclamar do tamanho dos textos. Durante a fase final da seleção, Schneider dividiu os filmes em três blocos principais. O autor do texto sobre cada obra tinha que escrever 150, 250 ou 500 palavras, conforme o grau de importância dado ao filme na lista definitiva. Todos os autores foram orientados a incluir elementos de contextualização histórica, pequenas descrições e uma breve análise estético-narrativa. Tudo muito sucinto. Sim, é um livro de críticas ligeiras, mas isso não quer dizer que os textos sejam superficiais ou descartáveis. Num trabalho desse porte, é natural que o nível varie de texto para texto. As críticas vão do trivial ao brilhante. Há alguns erros factuais (“Todos os Homens do Presidente” não ganhou o Oscar de melhor filme), mas no geral a maior parte dos textos cumpre perfeitamente a função primária desse tipo de trabalho: despertar a atenção do leitor, fazê-lo sentir vontade de ver certos títulos que, de outro modo, ele jamais se sentiria tentado a procurar na locadora.

Além disso, a apresentação gráfica é impecável. A seleção de fotos e cartazes das produções – de excelente qualidade, com muito material raro – é de dar água na boca até de cinéfilos mais experientes. E o Brasil sai bem na fita. Além de emplacar um representante entre os críticos que escreveram para a publicação (Jaime Biaggio, do jornal O Globo, contribuiu com alguns textos), o país tem diversos filmes na lista, inclusive trabalhos de Glauber Rocha e Hector Babenco, além do quase onipresente “Cidade de Deus” (o filme de Fernando Meirelles tem lugar cativo na lista dos 20 melhores filmes da história do cinema, no banco de dados mais completo do mundo, o IMDb).

Para um cinéfilo, mesmo experiente, é sempre um prazer folhear um livro como “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. É preciso, porém, não perder de vista o caráter panorâmico da publicação, além de considerar também algumas observações importantes – em grande parte dos textos, por exemplo, os autores não hesitam em entregar toda a trama do filme, inclusive o final, o que pode desagradar muitos leitores. Essa característica, aliás, mostra que o editor tinha total consciência do papel da publicação no tímido mercado editorial sobre cinema. No fundo, a compilação presta-se mais ao papel de volume de consultas, quase como uma enciclopédia ou dicionário, do que ao de tomo definitivo sobre os grandes filmes da história do cinema. Tendo isso em mente, é só deixar a memória viajar sobre alguns clássicos (e outros nem tanto) da Sétima Arte.

– 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, de Stephen Jay Schneider
Editora Contexto, 960 páginas

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29 comentários em “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer

  1. Há anos que eu esperava que o livro fosse lançado no Brasil. Cheguei a pensar em comprar a edição em inglês, ou mesmo português de Portugal. Mas a espera valeu a pena, o livro acaba de ser entregue e eu mal consigo tirar os olhos dele enquanto escrevo esse post. Sempre fui um fã de listas e livros do gênero. Aliás elaboro as minhas próprias listas com certa frequência, mas com a mesma frequência eu as mudo. Listas reduzidas a 100 filmes como é mais comum acabam levando a algumas omissões sérias. Nessa de 1001 é bem mais difícil encontrar injustiças. Já recomendei anteriormente e volto a recomendar para os cinéfilos que lêem o cine repórter o Guia Ilustrado Zahar de Cinema. O livro foi escrito pelo crítico do jornal inglês “The Guardian”. Esses dois livros formam uma bela dupla na estante dos fãs de cinema. O segundo possui além de uma seleção sucinta de 100 filmes breves biografias com os principais filmes de 200 cineastas. O guia dá uma geral na história do cinema e explica as várias etapas no processo para fazer um filme. Aliás fica a dica Rodrigo, já que você criou esse espaço no site comente o Guia Ilustrado. Agora deixe eu voltar para a mais recente aquisição da minha incipiente biblioteca de cinema. Por último uma pergunta Rodrigo: você conseguiu comprar o livro as obras primas cinema que eu te recomendei? Abraço e continue escrevendo não só sobre filmes mas também sobre livros.

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  2. Consegui não, Sandoval. Na verdade ando gastando tanta grana comprando livros para as aulas na UFPE que dei um tempo nas minhas preferências pessoais.

    Quanto às “injustiças”, isso é tão subjetivo que preferi nem comentar no texto. Mas lá não tem “Os Inocentes”… 😉

    Também gosto do Guia Ilustrado Zahar. De repente é um texto bom pra escrever em janeiro. Tenho muitas críticas pendentes por finalizar, mas pretendo fazê-lo.

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  3. Mais uma grande dica, Rodrigo ! Vou procurar para me dar de presente de Natal atrasado (rsrsrsrs). Aproveitando o ensejo e enquanto ainda é tempo, desejo um Natal com muita paz e saúde a você e todos os seus. Abração !

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  4. Realmente, eu também senti a falta de “As Invasões Bárbaras”. Vi que lá havia “O Declínio do Império Americano” e fui procurar IB mas não encontrei, infelizmente. No mais, a lista é muito bem atualizada, com inclusão dos filmes até 2007 e que concorreram ao oscar este ano. Eu só queria ter conseguido comprar a edição portuguesa pra ver quais filmes foram retirados para a inclusão desses novos filmes de 2007.

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  5. Acho que a ausência do “Invasões Barbaras” deve-se mais a costumeira omissão no livro de sequências. Pela folheada que dei, há a citação de apenas duas continuações, Poderoso Chefão e Guerra nas Estrelas. Ainda não fui além de 1991, mas imagino que fique por aí ou cite, no máximo, o Senhor dos Anéis.

    Uma opção, acredito, para trazer a memória grandes séries cinematográficas, sem “gastar fichas” com suas continuações.

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  6. Não sou muito fã de livros que catalogam filmes e muito menos com a sua observação sobre contar o final do filme, aí que fico uma fera mesmo! Mas vou dar uma olhada na Submarino através do link do seu site, claro!
    Bjos e feliz ano novo!!

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  7. Rodrigo, uma coisinha: dos guias que trazem o suposto “conjunto de filmes indispensáveis da história do cinema”, esse “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” é o melhor do nosso mercado editorial, ou há algum outro (do mesmo gênero ou similar) superior a este? Sinceramente, você aconselha a compra desse volume, ou muita coisa presente lá a gente consegue por aqui mesmo, pela internet (vide a última lista divulgada pela Cahiers Du Cinéma, que elegia 100 filmes obrigatórios)? Vale mesmo a pena comprar?

    Abraço!

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  8. Vinícius, na Internet você consegue muita coisa boa sobre cinema. Resenhas, estudos, críticas, listas, o escambau. Mas os textos específico desse volume só existem nele. Gosto bastante da qualidade geral, do projeto gráfico, das imagens… isso você não vai conseguir na Internet.

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  9. Vi que a grande maioria tem a capa com o Harrison Ford.
    Mas também há outras capas, não?
    Por exemplo a com a cena do chuveiro em Psicose. Sabem onde comprá-lo?

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  10. “Desculpe o erro de gramática acima,foi um descuido,mas este comentário agora,é bem mais sucedido do que o anterior,sem nenhum eroo,ops!!!brinncadeira,este texto é uma amostra de um elogio feito por mim,entre muitos outros,assim espero,deste livro,boa sorte”!!!

    Ass:Ren@n B.!!!

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  11. Comprei o livro na esperança de um guia pelos melhores filmes de todos os tempos. Não posso dizer que me decepcionei, mas conforme fui avançando na lista, e explorando os filmes mais complexos, devo admitir que começo a questionar algumas coisas. Como “a Vida é Bela” não está na lista? Como um crítico pode entregar a graça da história, como fazem com “Psiciose”?? Algumas resenhas são tão subjetivas que é quase impossível não ver o filme como o autor viu.

    Como o prefácio diz, o livro não se pretende como guia universal e definitivo, mas como isca para cinéfilos de longas datas, e aqueles que querem se aprofundar no cinema. Também amo listas, mas esta – e todas- são sempre falhas e pessoais. Mas apesar disso, o livro é extremamente interessante, válido e hiper-recomendável!

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  12. Isabela, como todos sabemos e você mesma escreveu, listas são subjetivas. Eu não colocaria “A Vida é Bela” na minha lista dos 1001 filmes, mas certamente colocaria o horror inglês “Os Inocentes”, e num lugar bem alto, mas esse filme de Jack Clayton não consta do livro. Paciência, né? Quanto aos spoilers, tomei o cuidado de colocar essa informação no meu texto, e repito mais uma vez aqui: melhor faz o leitor que deixa para ler a crítica DEPOIS de ver o filme, porque em muitos casos os redatores descrevem a trama completa, inclusive o final.

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  13. EU AMEI O LIVRO,POR 37 REAIS EU COMPREI OUTRO LIVRO DO AUTOR STEVEN JAY SCHENEIDER , 101 HORROR MOVIES YOU MUST SEE BEFORE YOU DIE SO COM FILMES DE TERROR E SUSPENSE , IMPORTADO NA LIVRARIA SARAIVA, AQUI EM PORTO ALEGRE, UM DOS FILMES QUE ESTA NA LISTA OS INOCENTES DE 1961 APARECE ,A LISTA VAI DO CABINETE DO DR CALIGARI DE 1919 ATE O ORFANATO DE 2007,

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  14. Alô, Rodrigo,
    Busquei “Ladrão de Casaca” pelo Google e acabei conhecendo o CR, um acaso absolutamente feliz. Estou certo de que vou virar freguês. Voltarei muitas vezes, pois há muito a ser lido no site, e é coisa para se fazer com vagar. Parabéns, belo trabalho. Eliezer Moreira.

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  15. Ola Rodrigo, tudo bem?
    Adorei o seu comentário sobre o livro, eu pensei que tinha feito algo errado, comprei o livro antes de pesquisar sobre ele, de fato, não é algo muito sensato de se fazer, porém me deu muita confiança de que fiz a coisa certa, afinal, eu já tenho “501 MOVIE STARS” e “501 MOVIE DIRECTORS”, mas o +que me preocupou, foi o que no seu texto, você escreveu que o livro apresentava erros. Você achou mais de um erro? É comum um livro apresentar erros? No meu outro livro 501 MOVIE STARS, eu achei um erro bom, não tenho certeza se é um erro, mas no livro estava escrito algo sobre o ator Mickey Rourke mas, estava escrito “Mickey Rourk” sem a letra E no final do sobrenome do ator, será que eu preciso mesmo me preocupar com esse erros?
    Beijos, obrigada

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  16. Oi de novo Robrigo
    Obrigada pela atenção, mas acho que quem deveria se importar mais são as pessoas que lerão o livro e o utilizarão como um guia do cinema ou até para fazer pesquisas para algum trabalho, e ás vezes não é nem isso, eu gosto muito de cinema não sei tanto quanto você mas eu gosto, e ganharei o livro de aniversário porque eu namorava o livro desde que o vi na Saraiva. Você poderia por favor informar qual foi o outro erro?
    Ai que droga, eu não peguei o selo de troca na loja, vou ter que ficar com o livro. Ei, eu posso processar esse cara? (O autor). É brincadeira, afinal, errar é ser humano.
    Obrigada e prometo que não vou mais incomodar, ou até você comentar sobre outro livro bacana. Você leu ” Vocês ainda não ouvirão nada – A barulhenta história do cinema mudo”?

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  17. Sinceramente, não lembro dos outros erros, Amanda. Mas tem uma regrinha de ouro pra quem trabalha com pesquisa jornalística (tenho certeza de que em História as regras devem ser até mais rigorosas): jamais tome como verdadeira uma informação conseguida com uma única fonte. Cruze essa informação com outras (vale IMDb, Wikipedia, etc.) para minimizar a possibilidade de erros.Ah, e o livro que você citou é do Celso Sabadin. Abs.

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  18. Olá Rodrigo, venho acompanhando algumas obras como 1001 discos para ouvir antes de morrer, e a pouco tempo descobri esse, 1001 filmes para ver antes de morrer, esse ainda não li, mas você ja ouviu falar ou ja leu 1001 livros para ler antes de morrer?

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  19. Adqueri recentemente o livro atualizado e estou começando a ler, notei que lá diz que “Apocalypse Now” ganhou o oscar de melhor filme o que nao é verdade. Tirando essas pequenas falhas, é indispensavel para quem gosta de cinema.

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  20. Entrei nesse site justamente procurando críticas sobre a “entregra dos finais” dos filmes no livro. O primeiro que me agrediu foi “O Gato Preto”, com Vicent Price; depois, vieram outros. Agora, quando começo a ler o artigo e vejo que o filme me interessa, paro de ler para assisti-lo primeiro e ler sobre ele depois.

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