Marcelino Pão e Vinho

[rating:2]

No Recife da década de 1970, onde passei minha infância, era normal os cinemas organizarem mostras retrospectivas temáticas durante feriados católicos. Na semana da Páscoa, particularmente, quase todas as salas de projeção recuperavam antigos clássicos religiosos e exibiam para famílias inteiras. Era um daqueles raros momentos em que pais e filhos, de todas as idades e classes sociais, iam juntos ao cinema – um panorama bem diferente do circuito exibidos asséptico e chique que temos hoje.

“Marcelino Pão e Vinho” (Marcelino Pan y Vino, Espanha, 1954) era um dos longas-metragens que faziam mais sucesso durante essas exibições especiais. Invariavelmente, o melodrama sobre o pequeno órfão criado por doze frades em um convento, que aplacava sua solidão criando uma amizade improvável com uma estátua de madeira de Jesus Cristo localizada no sótão, deixava a multidão de espectadores às lágrimas no final.

Eram tempos diferentes. Uma revisão crítica feita em pleno século XXI, quando as platéias são muito mais cínicas e mais refratárias a histórias de índole religiosa, ressalta os defeitos de “Marcelino Pão e Vinho” de maneira mais evidente do que suas qualidades. Do ponto de vista estritamente cinematográfico, é até difícil acreditar que o filme do húngaro Ladislao Vadja recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim e conquistou menção honrosa em Cannes.

Trata-se de um filme pobre. O design de som, por exemplo, quase não abre espaço para ruídos e efeitos sonoros, privilegiando as vozes e uma trilha sonora genérica onipresente. A cinematografia é trivial, com as câmeras limitando-se a seguir os personagens, sem maiores preocupações com composição visual, à exceção das cenas no terceiro ato em que Marcelino e Jesus conversam – a criatividade foi necessária para driblar a falta de recursos para efeitos especiais.

O ritmo é outro problema, já que o primeiro ato se estende em demasia e torna o filme arrastado, demorando um tempão para desenvolver a história propriamente dita. Além do mais, o elenco – que tem a presença do veterano Fernando Rey, de “Operação França” (1971) – também não ajuda. Pablito Calvo, garoto que interpreta o protagonista, tem um sorriso contagiante, mas nenhuma presença cênica.

Para completar, como se pode imaginar, os efeitos especiais em 1954 não eram exatamente uma especialidade do cinema espanhol, e resultam menos convincentes do que os engenhosos trabalhos do pioneiro Georges Mèliés, cinco décadas antes. Sobreposições e fusões de má qualidade tomam a tela nos momentos mais dramáticos, impedindo a platéia de “comprar” a realidade da história.

O maior problema do longa, contudo, não está nas características cinematográficas do filme em si, mas no caráter inegável de propaganda católica que ele carrega. Por tudo isso, é bastante curioso perceber que, visto em casa, “Marcelino Pão e Vinho” ainda exerce curioso fascínio sobre boa parte dos espectadores – e não me refiro às crianças, que são naturalmente o público mais suscetível à mensagem do filme, por causa da empatia imediata gerada pelo protagonista-menino.

Há, evidentemente, o aspecto da nostalgia, que ajuda muitos adultos a relevarem defeitos técnicos evidentes por causa das lembranças de infância que o filme lhes traz. De qualquer forma, a mensagem religiosa é forte o suficiente para garantir sobrevida considerável ao único trabalho de destaque da filmografia do diretor, especialmente no maior país católico do mundo.

O DVD nacional carrega o selo da Versátil. Não há extras, mas pelo menos a qualidade de imagem (standard 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0) é decente.

– Marcelino Pão e Vinho (Marcelino Pan y Vino, Espanha, 1954)
Direção: Ladislao Vadja
Elenco: Pablito Calvo, Rafael Rivelles, Juan Calvo, Fernando Rey
Duração: 91 minutos

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5 comentários em “Marcelino Pão e Vinho

  1. O filme é rotulado de “pobre” pelo editor, mas considero realmente pobre essa crítica, subjetiva e tendenciosa.
    O filme é muito bom, e olha que tem mais de meio século!!!
    É afirmado: “O maior problema do longa, contudo, não está nas características cinematográficas do filme em si, mas no caráter inegável de propaganda católica que ele carrega.”. Sou agnóstico, mas não é por isso que posso concordar com tamanha sandice. Para o nosso crítico, então, depois de desancar o filme por supostos defeitos nas características cinematográficas, a temática do filme serve de pá de cal para poder enterrar definitivamente o mesmo. Assim sendo, filme de temática religiosa jamais será um bom filme para o nosso mestre!?!?!?
    No site “cineplayers.com” existe uma excelente crítica do Sr. “Conde Fouá Anderaos”, postada em 06/04/2009, no seguinte link: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=16487
    Vale a pena a leitura, pela imparcialidade, claraza de argumentos, e sensibilidade do autor.
    09/04/2009.

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  2. Algumas considerações, Roberto:

    1) Toda critica é subjetiva. Todo texto – qualquer texto – sempre reflete e refletirá a ideologia (o conjunto de códigos e valores morais) de quem o escreveu. Dizer que uma crítica é subjetiva, portanto, é uma maneira canhestra e inadequada de rebaixá-la.

    2) O fato de ter mais de meio século não interfere em nada na qualidade do filme. “Cidadão Kane” foi feito quase 15 anos antes, e continua sendo considerado o maior filme de todos os tempos.

    3) Não é a temática do filme que me incomoda – inclusive porque sou católico, olha só! – mas o tratamento panfletário dado a ela. É minha opinião, pelo menos. Você está livre para discordar disso.

    4) O texto que você indicou tem qualidade. Apenas reflete um conjunto de valores diferente do meu.

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  3. Curioso como quando estamos tendenciosos nos munimos de argumentos para criticar uma obra (quer bem ou mal) . Só a vi agora, apesar de ter nascido em 1958. Achei o comentário “moderninho demais”. Gostei demais do comentário indicado pelo Roberto Passos. Ele coaduna mais com a minha visão do filme. O que não quer dizer que o escrito por Roberto Ribeiro seja ruim. Um mesmo objeto, duas visões distintas. Fico com a do Sr. Conde Fouá Anderaos.

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  4. Mesmo com as limitações tecnicas achei o filme comovente e arrebatador e olhe que também não sou católico. Acho que o que transcende a religiosidade é justamente a bela ingenuidade e solidariedade do menino para com a imagem no sotão. O ritmo lento da narrativa causa estranhamento no começo, acostumado que estamos a produções de Hollywood, mas logo nos habituamos a ela e nos deixamos levar pelo ambiente bucólico do filme

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