WALL•E

[rating: 4.5]

Nos idos de 1994, a produção do primeiro longa-metragem inteiramente feito através de computação gráfica estava em andamento, nos estúdios da então novata Pixar. Animado com os resultados do que seria o inovador “Toy Story”, o chefe criativo da empresa, John Lasseter, convocou os três principais subordinados para um almoço que se tornaria lendário. Durante uma tarde, o quarteto (Andrew Stanton, Pete Docter e o falecido Joe Ranft) discutiu idéias para futuros filmes. Os argumentos de “Vida de Inseto”(1998), “Monstros S/A” (2001) e “Procurando Nemo” (2003) nasceram naquele almoço. A idéia inicial de “WALL•E” (EUA, 2008) também germinou na mesma ocasião, com uma única imagem: um robô vivendo sozinho numa Terra sem humanos. Aos poucos, Stanton desenvolveu a idéia. A paixão entre dois seres mecânicos, produzidos em um intervalo de 700 anos e tendo um planeta devastado como pano de fundo, demorou longos 14 anos para tomar forma. O resultado, arrebatador, é um triunfo cinematográfico que dispensa palavras e fala para todas as idades.

Neste intervalo de 14 anos, o pequeno e promissor estúdio de animação produziu oito longas-metragens, todos bem sucedidos, e virou um peso-pesado entre os estúdios de cinema dos Estados Unidos. Além de manter a hegemonia no ramo da animação computadorizada, a empresa detém a proeza de só fazer filmes bons, sem jamais ter assinado um fracasso de crítica ou de público. Via de regra, uma película com o selo da Pixar coleciona elogios de especialistas e milhões de dólares. Talvez por isso, o impacto positivo causado por “WALL•E” não chega a ser uma surpresa – ao longo do tempo, as pessoas aprenderam a esperar da Pixar sempre o melhor. “WALL•E” consegue a proeza de saciar as mais altas expectativas e ir além, graças a uma conjunção rara de talentos. O que temos aqui é um trabalho perfeito, absolutamente deslumbrante em estética e narrativa. Um filme cuja direção, impecável, amarra em uma história cheia de graça um grande trabalho de edição de som, iluminação, fotografia e concepção visual.

A história tem como protagonista o pequeno personagem-título. WALL•E é um robô compactador de lixo. Ele fazia parte de uma carga composta por milhões de aparelhos idênticos, deixados na Terra pela humanidade, depois que esta exauriu o planeta, POR VOLTA DO ANO 2100. Atulhado de lixo e tóxico demais para abrigar vida, o planeta acabou abandonado pelos seres humanos, que partiram pelo espaço em naves-colônia gigantescas, pretendendo retornar cinco anos depois, quando os faxineiros eletrônicos terminassem o serviço. Mais de 700 anos depois, o enferrujado WALL•E é o último compactador em atividade – e a quantidade descomunal de lixo continua lá. Ele continua fazendo seu trabalho diariamente, mas desenvolveu uma personalidade quase humana. Mora num velho caminhão-baú, coleciona peças sobressalentes e bugigangas (isqueiros, lâmpadas, garfos), e se diverte assistindo a trechos do musical “Alô, Dolly” (1969), provenientes de uma velha fita VHS que salvou do lixo. O filme lhe desperta sentimentos (sim!) de solidão.

Nesta existência estóica, a única companhia do robozinho é uma barata de estimação. A rotina de centenas de anos do aparelho enferrujado é quebrada com a chegada de uma sonda de tecnologia avançada. EVA (óbvia referência bíblica) vem à Terra com a missão de procurar vestígios de vida em desenvolvimento. Os dois se encontram, e a sonda percebe que um insólito achado de WALL•E pode significar uma revolução para a humanidade. É o início de uma jornada que levará ambos a uma limpíssima espaçonave que passeia preguiçosamente pelo sistema solar, a milhões de quilômetros de distância do planeta. Nesta nave, em que vivem os gordos e flácidos descendentes dos humanos (mudanças corporais são conseqüência da deterioração do esqueleto e da musculatura devido à ausência permanente de gravidade, mas representam uma alfinetada certeira no sedentarismo típico norte-americano), os dois robôs vivem uma mistura de romance, comédia e aventura, cujo único minúsculo porém acontece no clímax, que não chega a emocionar como todo o restante.

Um detalhe importantíssimo é que o roteiro explica tudo disso usando um fantástico design de som, quase sem palavras. Dar informações à platéia através de diálogos é uma técnica útil, mas que empobrece um filme quando usada em excesso. Graças à direção meticulosa, em que cada plano é planejado e decupado para se concatenar com o próximo e produzir um novo significado, e ao desenho de som meticulosamente planejado, a aventura de narrar o avanço da história sem usar palavras torna-se inteiramente bem sucedida. Além disso, o roteiro co-escrito pelo diretor, junto com Jim Reardon, encontra espaço para espremer dezenas de detalhes deliciosos e críticas sutis ao comportamento humano. Observe, por exemplo, como na espaçonave gigante as tarefas mais básicas, como limpar o lixo e cortar cabelos, deixaram de ser efetuadas pelos humanos, tendo sido relegadas aos robôs – que, contraditoriamente, acabam se tornando mais preocupados com a preservação da vida do que os próprios homens. Note como o CEO da empresa responsável pelo cruzeiro espacial usa um púlpito semelhante ao utilizado pelo presidente dos EUA para se comunicar com as pessoas. E delicie-se com as referências sutis a obras como “2001” (HAL 9000) e “Alien” (a “expulsão” da nave).

Mais uma vez, a Pixar foi capaz de criar um visual impressionante, graças à adoção de um organograma diferente pela equipe de criação gráfica. Sob a supervisão do mestre Roger Deakins (“Onde os Fracos Não Têm Vez”), que serviu de consultor visual, os animadores foram comandados por dois diretores de fotografia, um dedicado a comandar a câmera e outro lidando com a luz. Desta forma, eles conseguiram criar dois universos completos, inteiramente diferentes entre si, com enorme profusão de detalhes e texturas. O resultado alcançado é de cair o queixo. Atente como a Terra devastada, em que montanhas de lixo se equilibram entre arranha-céus vazios, é sempre vista através de uma fina névoa, proveniente da poeira acumulada, que deixa a iluminação opaca e difusa – experimente visitar um lixão de verdade e verá que a luz se propaga exatamente desta maneira por lá. O choque entre esta realidade suja e analógica e o ambiente asséptico da nave-mãe, imaculadamente limpa e repleta de superfícies brilhantes, não poderia ser maior. Nos dois casos, o trabalho de iluminação é absolutamente perfeito.

Se os ambientes são impecáveis, o mesmo pode ser dito dos personagens. Todo sujo de óleo e recoberto por pequenos amassões, o robô WALL•E se move através de duas esteiras, possui duas garras e tem, de longe, a aparência de um pequeno trator. Demonstrando ter aprendido bem uma velha lição sobre personagens não-humanos, o time de designers da Pixar complementou o robô com um binóculo cujas lentes, manipuladas com suavidade, dão a impressão de olhos. Os olhos, como Steven Spielberg ensinou em “E.T.” (cuja aparência inspirou o próprio WALL•E), compõem o elemento mais importante de qualquer personagem não-humano. São eles que dão humanidade – alma – ao personagem. O olhar esperto e resignado de WALL•E permite que a platéia se solidarize com ele. Já a robô EVA, pintada com um branco translúcido que permite a visualização das engrenagens eletrônicas, possui as linhas suaves e elegantes de um iPod (de fato, ela foi desenhada pelo mesmo Jonathan Eve que cria o aparelho da Apple, aproveitando a ligação umbilical entre as duas empresas). Ela também tem olhos: um par de luzes azuis no meio do “rosto” de vidro negro. O formato dessas luzes permite que a platéia perceba qual o “sentimento” dominante da robozinha fêmea em cada cena.

Os olhos dos dois robôs são elementos narrativos fundamentais. Eles têm dupla função. Além de garantir a “humanização” das maquinas, permitindo à platéia a identificação com os sentimentos de ambos, ajudam a narrar a progressão dramática da história, graças à decisão arrojada de dispensar as palavras. Sim: durante a maior parte do tempo, “WALL•E” é quase um filme mudo. Os poucos diálogos, tratados como acessórios dispensáveis, ocorrem durante a segunda parte da projeção. A primeira metade do longa-metragem, portanto, foi um desafio cinematográfico de peso, e o sonho de todo diretor de cinema: contar uma história sem palavras. Este desafio não era inédito para a Pixar, que estabeleceu uma tradição de curtas-metragens sem diálogos, mas a expansão deste recurso para a quase totalidade de um longa-metragem foi um empecilho a mais para o filme funcionar – um empecilho que o diretor, Andrew Stanton, dribla de modo brilhante.

A preocupação com os mínimos detalhes e o perfeccionismo visual contribuem decisivamente para a clareza narrativa de “WALL•E”, mas o resultado não seria tão interessante sem a extraordinária concepção de som, deixada a cargo do craque Ben Burtt. O designer sonoro, dono de quatro Oscar, é íntimo dos robôs – ele concebeu o som dos seis “Guerra nas Estrelas” – e por isso foi chamado para o trabalho. Para criar todos os efeitos sonoros e a edição de som meticulosa do longa-metragem, Burtt lançou mão de todo o seu arsenal de truques. Montou uma biblioteca com 2.400 arquivos sonoros e, munido das ferramentas tecnológicas mais avançadas, inventou sons cômicos e dramáticos para cada protagonista, muitas vezes alterando eletronicamente vozes humanas. O trabalho do cineasta Andrew Stanton consistiu, portanto, em combinar os sons com a expressão corporal (?) das máquinas, desenvolvida pelos animadores, pincelando a história com momentos de comédia e romance. E tudo funciona às mil maravilhas.

Eleger o melhor filme da Pixar não é apenas trabalho duro, mas impossível. Filmes, como se sabe, são matéria subjetiva – nunca se sabe quais nervos sensíveis eles irão atingir, quando exibidos para uma platéia (o filme predileto de um leitor dificilmente será o mesmo favorito de outro). De qualquer modo, não parece exagero afirmar que “WALL•E” é o filme mais puramente cinematográfico já feito pela empresa. Durante seus 97 minutos, todos os elementos nele contidos se harmonizam para contar uma história cheia de graça e emoção, em que o clichê das animações contemporâneas – divertidas tanto para crianças quanto para adultos – cai como uma luva. Até mesmo a mensagem ecológica presente no enredo funciona a contento, pois evita o tom panfletário e didático que outros filmes com o mesmo tema (“Fim dos Tempos”) adotam sem pudor. No final, os créditos dão um jeito de resumir a história humana mostrando a evolução da pintura através dos séculos, num banho de criatividade. Em resumo, uma obra-prima.

Como se não fosse suficiente, o curta-metragem que mantém a tradição de iniciar toda sessão de um longa da Pixar nos cinemas é primoroso, uma delícia de comédia alucinada no estilo de Chuck “Pernalonga” Jones. “Presto” conta a história de um coelho faminto que sabota o show do parceiro mágico porque este se recusou a alimentá-lo antes do espetáculo. Trata-se de uma sucessão de gags divertidíssima, que inventa uma “explicação” curiosa para o tradicionalíssimo truque da cartola. Não chega a ser o melhor curta-metragem da incrível coleção de filmetes elaborados pelos animadores da empresa norte-americana, mas certamente é um dos mais engraçados, e funciona muito bem no sentido de preparar o espírito da audiência para a narrativa mais elaborada do prato principal.

“Presto” é um dos extras que integram o DVD simples nacional, lançado pela Buena Vista. Ele chega acompanhado de outro curta (“Burn-e”), de três cenas cortadas e de um pequeno documentário (19 minutos) sobre o desenho de som de Ben Burtt. O longa-metragem aparece com qualidade impecável de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O diretor, Andrew Stanton, comparece num comentário em áudio legendado. Pena que a Buena Vista não lançou por aqui o disco triplo, cheio de documentários extras sobre a produção, que saiu nos EUA. 

– WALL•E (EUA, 2008)
Direção: Andrew Stanton
Animação
Duração: 97 minutos

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7 comentários em “WALL•E

  1. Concordo quando vc diz que é uma tarefa árdua escolher o melhor filme da PIXAR, mas, sem dúvida essa tarefa ficou facilitada com o lançamento de WALL E, o melhor!

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  2. Olá, Rodrigo,
    mais uma vez uma vez me deparo com um texto com o qual concordo em praticamente todas as palavras, só não entendi uma coisa e, talvez, vc mesmo não tenha reparado na injustiça que cometeu:
    Pq Os Incríves, Ratatoule, Monstros e Nemo merecem 5 estrelas e o embasbacantemente PERFEITO WALL-E não merece também??
    Aliás, como vc mesmo disse “é difícil escolher qual o melhor dos filmes da Pixar”….se vc inclui WALL-E nessa lista – e acho impossível não incluir – pq não dar a nota máxima pra ele também e equipara-lo de vez aos demais??

    Tenho a impressão q o 4,5 foi só um erro de digitação, não teria sido?
    😉

    Abraço e obrigado pela resposta à minha pergunta na crítica ao CÃO BRANCO!

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  3. Boa questão, Aldo. Minha resposta talvez lhe pareça contraditória, mas vou tentar explicar. Acho os primeiros 60 minutos do filme tão perfeitos, tão impecáveis, que fico um tanto decepcionado ao perceber que o clímax – a resolução da trama, a “luta” contra o piloto automático – não esteja no mesmo nível. Está longe, mas muito longe de ser ruim; só que simplesmente não me emociona. O final do filme, claro, retoma a perfeição de antes. Mas como existe um pequeno desequilíbrio, pelo menos no meu entender, prefiro não dar a nota máxima. Emocionalmente, continuo colocando “Wall-E” no mesmo nível dos demais. Mas tecnicamente há esse porém.

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  4. Bom, sempre fui fã da Pixar, desde o primeiro Toy Story o estúdio sempre me deixou deslumbrado pelo modo diferente de se contar uma história e dar vida a antigas paixões. A Pixar além de fazer um enorme sucesso com as crianças, sempre cativou os adultos com a belíssima forma com que aborda temas tidos como antiquados, fazendo com que as velhas crianças que ainda existem em nós adultos continuem presentes. Quem nunca se emocionou ao ver e ouvir Paul Newman resgatando a velha paixão dos antigos Carros, quem nunca se emocionou ao ver Tom Hanks se sentir ultrapassado em ToyStory, quem nunca chorou ao ver Billy Cristal com a mão cheia de curativos, entregando ao seu amigo “Sulley” uma chance de voltar a sorrir em Monstros S.A., quem nunca relembrou os velhos hérois dos quadrinhos em Os Incríveis, quem nunca teve vontade de ir a Paris após assistir a Ratatouille, entre tantos outros. Assim como tantos outros ícones, espero que a Pixar tenha longa vida pra continuar nos dando alegria e cultivando bons sentimentos nos corações das novas gerações.

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  5. Como fã das animações da Pixar, WALL-E sem dúvida foi mais um sucesso de bilheterias! Porém sou obrigada a concordar com Rodrigo no quesito 4,5 estrelas. Não entendo nada da parte técnica de nenhum filme, mas sabe quando parece que faltou algo…não sei explicar. Não desmerecendo a animação de maneira nenhuma, muito pelo contrário! Adorei o filme, já assisti várias vezes e inclusive tenho o DVD comprado na semana seguinte de seu lançamento! Vale destacar o curta do coelhinho “Presto” no início do filme (se não me falha a memória) muito bom também!

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  6. cada vez que revejo este filme me impressiono mais. a qualidade gráfica e o grau de dificuldade das panoramicos e riquesas de detalhes sao assustadores! lembrou-se AI, quando era o unico robo que tinha sentimento e podia pensar e amar.
    o documentario no dvd original sobre a historia do som também é bastante interessante. vale a pena ser revisto e ter o original em casa. a pixar merece todas as comissoes por copias vendidas, sao fantasticos!
    concordo com tudo na critica!

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