Matou a Família e Foi ao Cinema

[rating:3.5]

Júlio Bressane tinha 23 anos quando surgiu como um meteoro no cinema nacional, lançando dois longas-metragens praticamente consecutivos e propondo uma estética que radicalizava ainda mais a ruptura pregada pelo Cinema Novo. “Matou a Família e Foi ao Cinema” (Brasil, 1969), concebido e filmado em apenas 12 dias, foi o primeiro dos dois. Lançado de forma atabalhoada, o filme ficou em cartaz durante uma semana, em onze salas do país, e acabou retirado de circulação pela censura oficial graças às cenas de violência, consideradas fortes demais para a época. Acabou eternizando-se como um dos primogênitos do chamado “cinema marginal”, espécie de movimento não-oficial de índole niilista, que queria partir do zero para impor um projeto estético de cinema completamente novo.

Bressane e Rogério Sganzerla, amigo e sócio numa produtora de baixo orçamento, praticavam o lendário “cinema imperfeito” – o Santo Graal da esquerda cinematográfica latino-americana durante a década de 1960 – com um grau de sujeira inédito até então. Eles filmavam com câmeras de 16mm e quebravam todas as convenções narrativas possíveis e imagináveis. O som direto, captado nos sets de filmagem, tinha ficado horrível e não dava para entender o que os atores diziam? Eles deixavam assim mesmo. O operador de câmera perdeu o foco? Besteira. Não havia um roteiro completo para filmar? Improvisavam de qualquer maneira. O importante era a iconoclastia absoluta. Derrubar todas as regras e convenções narrativas, uma por uma.

Sganzerla, que no mesmo ano dirigiu um primo bastado bem mais famoso (“O Bandido da Luz Vermelha”), era mais irônico. Bressane apostava num estilo mais agressivo e metalingüístico, freqüentemente questionando o próprio filme. É o que acontece em “Matou a Família e Foi ao Cinema”, que consiste em uma série de episódios desconectados em tempo e lugar. O único elo que liga todos os esquetes é o assassinato, como o que ocorre logo na abertura, quando um rapaz (Antero de Oliveira) cansa das discussões ríspidas e diárias dos pais, num apertado apartamento de classe média em São Paulo. Ele mata os dois a navalhadas e vai ao cinema assistir ao filme “Perdidas de Amor”, sobre duas garotas (Márcia Rodrigues e Renata Sorrah) que se apaixonam enquanto curtem dias de férias numa granja isolada.

Logo, a narrativa se concentra no filme dentro do filme (e chega a criar um filme dentro do filme dentro do filme, quando as duas meninas comentam terem assistido a “Perdidas de Amor” e notado a semelhança entre as personagens ficcionais e elas próprias). É material para deixar espectadores desavisados sem entender nada. De qualquer forma, o trabalho de Bressane chama a atenção pela inteligência e pela coerência interna. Ele usa com criatividade, por exemplo, os enquadramentos, muitas vezes fazendo os personagens dialogarem com pessoas que estão fora do campo de visão. Essa atitude estimula o espectador a construir o espaço cênico dentro da própria imaginação, transformando-o de certa forma em co-construtor da narrativa. Às vezes, o próprio acontecimento que está sendo filmado acontece longe da tela, fazendo o espectador ter que usar o som (de péssima qualidade técnica) e a memória para acompanhar o desenvolvimento da ação dramática.

A valorização do espaço off-screen, inédito para a época, demorou vários anos para ser incorporado pelo cinema independente – o diretor austríaco Michael Haneke utiliza o expediente com precisão em “Violência Gratuita” (1997), outro trabalho metalingüístico ousado que, como o longa-metragem de Bressane, critica as representações midiáticas da violência enquanto chama a atenção para uma estética diferente e inovadora. Apesar do evidente caráter amador, “Matou a Família e Foi ao Cinema” cumpre bem o papel de fazer o público refletir sobre os próprios caminhos do cinema narrativo. Além disso, o final – com a lendária cena do disco de Roberto Carlos arranhado de um ponto crucial – é de uma beleza excruciante.

O filme de Bressane nunca foi lançado em DVD ou em qualquer formato para o mercado doméstico. A cópia mais conhecida circula na internet e foi gravada da TV italiana, tendo legendas fixas naquela língua. A qualidade de imagem é sofrível (1.33:1, preto-e-branco) e o áudio (Dolby Digital 1.0) também não tem qualidade profissional.

– Matou a Família e Foi ao Cinema (Brasil, 1969)
Direção: Júlio Bressane
Elenco: Márcia Rodrigues, Renata Sorrah, Antero de Oliveira, Vanda Lacerda
Duração: 78 minutos

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6 comentários em “Matou a Família e Foi ao Cinema

  1. O filme é bem interessante, em especial os enquadramentos e a própria estrutura narrativa, mesclando cenas que parecem desconectadas da realidade específica da época com cenas bem realistas de tortura e assassinato a balas. Bela metáfora, em uma época na qual a repressão se encarregava de encarcerar, torturar e matar os que tentavam reagir ao sistema.

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  2. Possuo o VHS ORIGINAL comprado em 1992, e muitas outras raridades em VHS e DVD,
    pois chegamos a ter mais de 20.000 títulos em VHS contando todos os gêneros e ainda
    temos muitos títulos para a Venda e Locação. Tivemos quatro lojas até 2008, hoje temos duas,
    uma em Leopoldina-MG e a outra em Recreio-MG. telefone para contato: 32 – 3441-4143
    quanto ao filme ele é muito bom.
    antoniocwf.blogspot.com.br (STYLLU’S VÍDEO)

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  3. meus amigos, desculpem a minha falha, não falei os atores do filme “MATOU A FAMÍLIA E FOI
    AO CINEMA”, a Versão que temos, é com a Cláudia Raia, Alexandre Frota, Louise Cardoso,
    e grande elenco, de Neville D’Almeida 1990. Quanto a Versão de 1969 eu ainda não assisti.
    Muito grato pela atenção
    antoniocwf.blogspot.com.br (STYLLU’S VÍDEO)

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