Paixão Selvagem

[rating:2.5]

A seqüência de abertura de “Paixão Selvagem” (Je T’Aime… Moi Non Plus, França, 1976) causa surpresa por conter uma das metáforas mais óbvias e esparrentas do cinema francês, normalmente bem mais sutil. A cena em questão mostra dois rapazes obviamente gays, que usam calças jeans coladas e camisetas coloridas, dirigindo um caminhão-caçamba em direção a um depósito de lixo. A câmera observa tudo lá do alto (ângulo conhecido no jargão cinematográfico como “bird’s eye”, ou “olho de pássaro”). Quando chega ao destino, o motorista do veículo dá ré e pára à beira dos entulhos, erguendo a caçamba para lá despejar mais dejetos. Há um corte, e o novo ângulo de câmera (baixa) enfatiza o eixo de metal do caminhão se erguendo, impávido, enquanto um pianinho de boteco emoldura os olhares cúmplices dos dois amantes. Talvez seja a cena mais gay de toda a história do cinema.

É difícil entender o motivo que levou o compositor boêmio Serge Gainsbourg, garanhão conhecido no meio artístico de Paris por papar divas como Brigitte Bardot, a estrear na direção com um longa-metragem repleto de sugestões anais implícitas e explícitas, a maioria delas bastante vulgares. Há quem tente fazer uma leitura diferente do filme, argumentando que se trata de uma investigação do desejo carnal à moda de longas como “O Último Tango em Paris” ou “Império dos Sentidos”, ambos muito populares na época. É até possível que assim seja. Pena que Gainsbourg não tenha sutileza no uso da linguagem cinematográfica, e a psicologia que rege o personagem principal, Krassky (Joe Dalessandro), seja tão rasteira e banal.

O sexo é o signo sob a qual habitam os três personagens cujas vidas se cruzam. O caminhoneiro Krassky, loiro com cara de mau e tremenda fixação anal, vive há meses com Padovan (Hugues Quester) uma paixão fulminante. Bem, fulminante até o momento em que ele entra num boteco de beira de estrada e dá de cara com Johnny (Jane Birkin), garota de olhos azuis com aparência masculinizada, graças aos cabelos curtos e à quase absoluta ausência de seios e bunda. A expressão simultânea de surpresa e excitação que o rapaz não consegue conter quando descobre que o atendente do bar é ela, e não ele, deixa evidente o interesse sexual imediato que a menina desperta. Logo os dois estarão transando furiosamente, para desespero de Padovan. O problema é que Krassky só consegue fazer sexo anal, por razões absolutamente óbvias.

Verdade seja dita: “Paixão Selvagem” não funciona como investigação do desejo, nem é sobre preconceito. A história acompanha de perto a turbulenta relação carnal que se desenvolve entre o caminhoneiro e a garçonete, fazendo referências anais a cada cinco ou dez minutos de projeção (o personagem flatulento do dono do bar, o caminhão cheio de vasos sanitários, as inúmeras cenas de sexo violento que invariavelmente terminam com a expulsão dos amantes de todos os motéis da região), mas jamais tenta desvendar os mistérios que movem os personagens. Ademais, o clássico pop-cafajeste que dá título ao filme, aqui apresentado em versão instrumental tocada por um órgão de churrascaria, é mais fuleira e grudenta do que refrão do Bon Jovi.

O longa-metragem foi exibido nos cinemas brasileiros, mas não ganhou ainda lançamento para o mercado caseiro. A melhor edição disponível em DVD é francesa. O disco simples tem imagens com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), áudio mono restaurado (Dolby Digital 1.0) e traz entrevistas com produtores como bônus, incluindo ainda um CD com quatro canções da trilha sonora.

– Paixão Selvagem (Je T’aime… Moi Non Plus, França, 1976)
Direção: Serge Gainsbourg
Elenco: Joe Dalessandro, Jane Birkin, Hugues Quester, Reinhard Kolldehoff
Duração: 89 minutos

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3 comentários em “Paixão Selvagem

  1. Olá,estava procurando informações sobre esse filme, e muito pouco encontrei, até achar esse seu bendito blog para expressar-me, eu assisti o filme há pelo menos 8 anos atras no canal por assinatura eurochannel, e fiquei fissurado pela obsessão anal, e pela simplicidade dos filmes europeus, sobretudo franceses, sem aquela frescura do cinema hollywoodano de sempre, talves muitos brasileiros que assistiram, devem ter mudado de canal e visto vandame, stalones da voda, mas eu como amante de cinema underground, fiquei na duvida, onde obter um dvd desse filme, por favor me informe, obrigado até mas…, e do tipo livro de cabeceira, outra perola…

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  2. Olá Carlos,
    na livraria cultura voce encontra.
    Acabei de comprar lá.
    Não sei em qual cidade voce esta,
    mas em São Paulo tem.
    Há alguns meses vi na saraiva tambem.
    Entre no site e se informe.

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