Destino Bate a sua Porta, O

[rating:3]

A história que deu origem a “O Destino Bate a sua Porta” (The Postman Always Ring Twice, EUA, 1981), criada pelo romancista norte-americano James M. Cain, é puro film noir. O terceiro ato, particularmente, está embebido da mais amarga ironia, contendo uma daquelas piadas cósmicas que encerram de maneira quase surreal e inacreditável uma série de eventos extraordinários nas vidas de um casal de pessoas comuns que cometem um assassinato para poderem viver sua paixão livremente. Esse final, presente no livro e na primeira versão cinematográfica, feita em 1946, exerceu influência decisiva em diversos longas-metragens do gênero clássico. Por tudo isso, é curioso que o cineasta Bob Rafelson tenha decidido eliminar justamente este clímax impactante da refilmagem, transformando-a – exatamente por causa disso – em fracasso monumental, com bilheteria de apenas US$ 12 milhões nos EUA.

Dá até para entender a decisão radical de Rafelson, mas para isso é preciso conhecer o contexto de produção e a posição do diretor na indústria cinematográfica. Rafelson foi um dos nomes mais importantes da geração New Hollywood, que derrubou a censura nos EUA e conectou o cinema norte-americano, então em crise, com os jovens dos anos 1960. Ele fez “Cada um Vive como Quer” (1970), um dos melhores filmes do período, e ajudou como produtor a desenvolver as carreiras de gente como Dennis Hopper e Peter Bogdanovich. Parte do motivo pelo qual Rafelson acabou menos famoso do que seus contemporâneos está nos fracassos seguidos que assinou. O maior e mais duro desses fracassos foi justamente “O Destino Bate a sua Porta”.

A turma da New Hollywood, que incluía gente como Coppola e Spielberg, admirava profundamente os filmes franceses feito por diretores da mesma faixa etária deles, como Godard e Truffaut. Esse pessoal entrou na indústria comendo pelas beiradas, e se dedicou a levar para Hollywood a máxima da nouvelle vague francesa: o importante é o personagem. A trama deve vir a reboque das pessoas. Era a inversão total de valores narrativos dentro de um sistema que sempre colocou a história em primeiro lugar. No início, tudo deu certo, e o mundo assistiu a uma enxurrada de obras-primas: “Sem Destino”, “O Poderoso Chefão”, “A Primeira Noite de um Homem”, “Caminhos Perigosos”, “Lua de Papel”. Depois, a turma deixou o sucesso subir às cabeças e tudo desandou.

Em “O Destino Bate a sua Porta”, Rafelson trabalhou com a nata da indústria cinematográfica. Teve Jack Nicholson e Jessica Lange nos papéis principais, trouxe o grande dramaturgo David Mamet para escrever o roteiro, e colocou o mestre sueco Sven Nykvist, colaborador de Ingmar Bergman, para comandar a câmera e as luzes. Cada um contribuiu com o melhor dentro de seu departamento: a química estupenda do par principal faz saltar faíscas nas cenas de sexo (tão pesadas que muita gente acreditou, em 1981, que Nicholson e Lange estava mesmo transando na frente das câmeras), a fotografia magnífica captura com precisão a enlouquecedora atmosfera de solidão árida da vida à beira da estrada, e o roteiro desenvolve os dois personagens com detalhes e nuances.

Frank (Nicholson) é um andarilho que vive de pequenos golpes e gosta de jogatina. Ele só aceita emprego como frentista num pequeno motel/posto de gasolina porque põe olho gordo na mulher (Lange) do grego que administra a espelunca (John Colicos). Ela, por sua vez, se sente sufocada por uma existência sem cor e sem vida, entre um mar de tarefas domésticas e um marido que não lhe dá atenção. O encontro entre essas duas pobres almas anônimas – não poderia deixar de ser diferente – rende uma paixão violenta e sem limites. Logo, eles vão descobrir que a única maneira de se amarem livremente envolve assassinato. Até aí a história é meio previsível, mas os rumos que ela toma a partir do crime (ou da tentativa) são bem diferentes do que se pode a princípio imaginar.

“O Destino Bate a sua Porta” funciona como prova cabal de que um bom diretor funciona como uma espécie de chef gastronômico: os melhores ingredientes não garantem um grande prato, se o comandante tomar as decisões erradas. É precisamente o que ocorre aqui. Rafelson captura de modo correto a existência sem sal dos dois protagonistas, filma com correção o encontro tórrido que enche as vidas de ambos de cor, mas acaba perdendo o rumo a partir do momento em que a história deveria se impor aos personagens. O resultado, porém, está longe de ser uma tragédia absoluta. Trata-se, afinal, de um filme bonito, bem feito, habitado por personagens consistentes, mas que simplesmente não termina.

O DVD nacional saiu com o selo da Warner, que adquiriu os direitos do longa-metragem (feito de forma independente e distribuído nos cinemas pela Paramount) em 1989. O disco é simples e seco, sem extras. O enquadramento original está mutilado (de 1.85:1, mais largo, para 1.33:1) e o áudio tem só um canal (Dolby Digital Mono). Detalhe importante é que a edição norte-americana é idêntica.

– O Destino Bate a sua Porta (The Postman Always Ring Twice, EUA, 1981)
Direção: Bob Rafelson
Elenco: Jack Nicholson, Jessica Lange, John Colicos, Michael Lerner
Duração: 122 minutos

5 comentários em “Destino Bate a sua Porta, O

  1. “O DVD nacional saiu com o selo da Warner, que adquiriu os direitos do longa-metragem (feito de forma independente e distribuído nos cinemas pela Paramount) em 1989. ”
    Esta sua informação tá uma confusão só: o filme foi produzido pela Lorimar, um estúdio independente, que distribuía seus filmes pela FOX (mundialmente). Agonia e Glória, de Samuel Fuller, também foi produzido pela Lorimar e também lançado pela FOX. A Warner comprou a Lorimar (conseqüentemente, detém os direitos de todos para lançamento mundial).

    Outra coisa: quem te disse que esse filme foi fracasso? Também não tô entendendo a falta de final? O final do filme é um soco no estômago, particularmente não lembro outro mais triste. Qualquer coisa que vem depois da cena final é redundante, por isso Rafelson e Mamet fizeram por acabar o filme por ali, sem sentimentalismo. E mais: sua pesquisa tá falha, nem cita Ossessione, que foi adaptado sem autorização por Luchino Visconti.

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  2. Oi Josielson. Vamos lá: 1) Sua explicação está mais completa do que a minha, que não está errada. Afinal, o filme foi mesmo distribuído pela Paramount e lançado pela Warner em DVD. 2) O filme arrecadou US$ 12 milhões nos cinemas dos EUA (IMDB), ou seja, fracasso. 3) Mantenho o comentário sobre a falta de final (até poderia funcionar, mas é muito mal decupado). Desculpe se minha opinião não bate com a sua, mas o Rafelson não soube filmar o acidente. Preste atenção nos planos mais importantes e verá que eles não têm qualquer verossimilhança. 4) Não há nenhuma necessidade de citar o filme do Visconti nesta crítica, já que eu não tinha intenção de fazer um paralelo entre os dois longas. O objetivo desse texto é comentar apenas o filme do Rafelson, não rastrear todas as obras que beberam do livro. Abraços e bons filmes.

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  3. Oi, Rodrigo. Vamos lá: 1) O filme foi lançado pela Fox nos cinemas brasileiros. A sua informação tá correta, mas eu moro no Brasil, né? 2) Bem, fracasso financeiro não tem importância nenhuma, não quer dizer que o filme é ruim. Então, julguei seu “fracasso” por outro ponto de vista, digamos, estético. E arrecadar esta quantia em 1981 não era tão fracasso assim, principalmente para Rafelson, que faz filmes baratíssimos (Nicholson é amigo e não cobra porra nenhuma). 3) Essa é a tua opinião. Pode ficar com ela. Não quero compartilhar, obrigado.
    4) Esquecer de citar o filme de Visconti é uma falta grave, sim. Acho que para comparar os filmes você teria que ter assistido ao de Visconti primeiro. Mas parece que você nunca o viu. Boa sorte e continue vendo os filmes.

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  4. Josielson, não tenho qualquer intenção de polemizar contigo. Não tem nem motivo pra isso. Bom, a informação sobre a Lorimar já faz parte desta página, pois consta do seu comentário e está correta. Concordo contigo que fracasso financeiro não significa absolutamente nada, mas é um fato concreto que eu achei pertinente citar na crítica, já que explica porque Bob Rafelson sumiu depois deste filme (já “fracasso estético” é um conceito 100% subjetivo). Quanto ao filme do Visconti, não poderia discordar de você de maneira mais veemente. Este texto é uma resenha crítica do filme de Bob Rafelson. Não é um apanhado de todas as versões do livro de James Cain.

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  5. Esse aqui é uma grande descoberta, um dos vinte melhores de sempre. Bob Rafelson é gênio, não bastasse Cada Um Vive Como Quer ele realiza esse noir (e outra obra-prima) que deixaria Billy Wilder morrendo de Inveja. Esse é o problema, o nome do incompreendido Bob Rafelson nos créditos…

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