Sicko – $O$ Saúde

[rating:3]

O pôster promocional de “Sicko – $O$ Saúde” (EUA, 2007) encapsula, com perfeição, todas as facetas contraditórias que adornam o trabalho do cineasta Michael Moore. A fotografia mostra o documentarista calçando uma luva cirúrgica, enquanto olha para a câmera com expressão sacana. A associação mental que a imagem provoca é bastante clara: Moore está se preparando para fazer uma espécie de equivalente cinematográfico do exame de próstata no sistema de saúde pública dos Estados Unidos – uma tarefa dolorosa e pouco confortável, mas etapa obrigatória para a correção do problema. Este é objetivo auto-proclamado do longa-metragem.

Assim como os filmes do diretor, o pôster é eficiente como comédia e como peça de denúncia, mas também exibe claramente os pecados mais comuns cometidos por Moore: peca por manipular dados ao gosto do cineasta e não hesita em colocá-lo como protagonista do caso que narra, uma decisão moralmente duvidosa para qualquer documentarista preocupado com a honestidade das informações com que trabalha. “SOS Saúde”, portanto, é um filme típico de Michael Moore. Dispara contra o sistema de saúde pública dos EUA uma carga pesada de denúncias, sempre apresentadas com sarcasmo e bom-humor, da mesma forma que o diretor havia feito antes com a guerra do Iraque (“Fahrenheit 11 de Setembro”) e com a mania norte-americana por armas de fogo (“Tiros em Columbine”).

Como todo trabalho de Michael Moore, “Sicko” tem virtudes e defeitos em proporções mais ou menos iguais, ao gosto do freguês. Partindo da premissa de que o sistema de saúde adotado pelo Governo dos EUA favorece os mais ricos, o filme não se preocupa em construir um painel abrangente, que reflita a complexidade do tema de forma séria e isenta. A tarefa a que Moore se dedica é reunir estatísticas, dados e personagens jornalisticamente interessantes, justapondo-os de maneira a provar que sua premissa é verdadeira – e descartando, no processo, toda e qualquer informação que venha de encontro ao raciocínio que utiliza como fio condutor. O cineasta realiza este trabalho com a perícia habitual. Usa montagem ágil, ótimas piadas e uma postura “sou Davi lutando contra Golias” infalível em provocar empatia com a platéia.

Do ponto de vista exclusivamente cinematográfico, portanto, o resultado de “Sicko” é bom. A pesquisa realizada por Moore, especialmente no que se refere aos personagens, é bem lega. Quantos jornalistas não dariam um dedo (trocadilho infame) para conseguir um personagem como o sujeito que cortou dois dedos da própria mão, por acidente, e só quando chegou ao hospital descobriu que não tinha o dinheiro necessário para pagar o implante de ambos, tendo que escolher qual deles gostaria de ter de volta à mão? E o que dizer do francês que, após trabalhar 13 anos seguidos nos EUA, teve negado o direito ao tratamento gratuito de câncer, sendo obrigado a retornar ao país de origem, que voluntariamente tinha abandonado na adolescência, para poder se tratar?

Há montes de personagens assim em “Sicko”, e eles não apenas fornecem um apoio aparentemente sólido à narrativa, mas também reforçam a credibilidade do projeto. Infelizmente, é uma credibilidade forjada, já que o diretor premiado em Cannes por “Fahrenheit 11 de Setembro” não hesita em manipular dados para ajustar a narrativa à mensagem que quer passar. Observe, por exemplo, a desonestidade com que Moore seleciona os personagens, na hora de comparar casos ocorridos nos Estados Unidos com outros acontecidos no Canadá, na França, na Inglaterra e em Cuba – quase todos os personagens americanos vêm de camadas pobres da sociedade, enquanto os estrangeiros são sempre pinçados da classe média.

Perto do fim de “Sicko”, aparece talvez aquele que é o episódio mais esclarecedor da produção. Durante as filmagens, Moore descobriu que o editor do site mais anti-Michael Moore da Internet estava afogado em dívidas financeiras, provocadas por um problema de saúde ocorrido com a esposa. De forma anônima, o cineasta enviou um cheque de US$ 12 mil ao sujeito, permitindo que ele saísse do sufoco e publicasse um agradecimento formal, no site, ao “anjo da guarda” que lhe enviara o cheque. No filme, Moore não hesita em se identificar como o benfeitor misterioso, dando um verdadeiro tapa na cara do adversário e, ao mesmo tempo, angariando mais um personagem sólido à extensa galeria exibida durante a projeção.

O problema com o procedimento é de ordem ética. Não há dúvida de que Michael Moore realizou uma boa ação. Só que parece claro que ele o fez não com espírito altruísta, mas de maneira a tirar vantagem profissional da situação. Não há nada de mal em ajudar um homem em dificuldades financeiras, mas utilizar a situação em benefício próprio, e ainda por cima sem o consentimento da outra parte, é uma atitude no mínimo contraditória. Uma atitude que diz muito a respeito de Michael Moore, e funciona como exemplo azeitado do misto de cinema agradável, mas eticamente comprometido, que o cineasta pratica.

O DVD da Europa Filmes é duplo e contém, no disco 1, o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O segundo disco traz making of e o longa-metragem no formato mp4, para ver em aparelhos portáteis.

– Sicko – $O$ Saúde (EUA, 2007)
Direção: Michael Moore
Documentário
Duração: 113 minutos

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2 comentários em “Sicko – $O$ Saúde

  1. Olha, eu acho eticamente comprometido o documentário que se arvora em ser “objetivo”, sem poder sê-lo. Todo documentário defende uma tese, e o melhor que o autor pode fazer é admitir a tese que quer defender, e deixar claro que está argumentando em defesa dela. Procedendo assim, o documentário se assume argumentativo, ou seja, assume seu compromisso com uma posição (e não se diz um filme preocupado apenas com os fatos), e isso faz com que o espectador, ao assistir, sinta-se no direito de discordar, consiga responder “eu não concordo” ao que vê. A postura de Moore me parece completamente ética. Ele se coloca no filme e, por isso, dá ao espectador o direito de discordar. E por isso é que tanta gente discorda, porque seu filme é claramente sua visão dos fatos, ao contrário do que há em outros documentários, muito manipuladores, mas que mantêm a aparência de sérios.

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  2. Sua colocação é perfeitamente válida, Palomino. Em princípio, concordo com tudo o que você falou. Estamos aqui em terreno pantanoso, muito subjetivo e às vezes mesmo abstrato. Isso posto, não acho que o fato de botar a cara no vídeo seja suficiente para explicitar o caráter subjetivo da argumentação. Continuo com minha opinião. Acho a seleção de personagens completamente tendenciosa, bem como o uso do caso do cheque de US$ 12 mil me parece um completo absurdo ético.

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