Fim dos Tempos

[rating:3.5]

O fracasso retumbante de “A Dama na Água” (2006) fez um estrago considerável na reputação de M. Night Shyamalan. Um estrago tão grande que nenhum estúdio quis bancar o projeto seguinte do diretor. Para manter o controle criativo da produção, ele foi obrigado a reduzir substancialmente a escala do longa-metragem. Mesmo assim, “Fim dos Tempos” (The Happening, EUA, 2008) só saiu do papel porque Shyamalan usou sua ligação emocional com a Índia – ele é filho de indianos – para convencer um grupo de investidores do país a bancar parte dos custos. Apesar de esbanjar categoria na criação de uma atmosfera tensa, em que os personagens compartilham a sensação de pavor e desorientação com a platéia, Shyamalan fez um filme moralista, com personagens fracos e superficiais, que tenta passar sem sutileza uma mensagem ecológica boba.

Na verdade, “Fim dos Tempos” retoma um dos piores cacoetes do cineasta, um moralista incorrigível. A lição de moral que ele insiste em enfiar guela abaixo do espectador, em um epílogo lamentável, quase estraga a cuidadosa construção de suspense dos dois primeiros atos. Em termos de narrativa, a obra possui o aspecto de colcha de retalhos, parecendo ter sido construída com pedaços de outras produções. Conforme revelou em entrevistas, Shyamalan decidiu realizar um autêntico filme B, aproveitando que teria mesmo que trabalhar com orçamento reduzido. Rodou tudo em 44 dias, em cenários naturais (80% das cenas se passam ao ar livre), com elenco relativamente desconhecido, cuja única exceção é o protagonista, Mark Whalberg. Os efeitos especiais são realizados à moda antiga, com uso abundante de maquiagem, máquinas de produzir vento e truques de câmera. Nada de CGI.

O cenário remete ao segundo maior sucesso da carreira do cineasta (“Sinais”, de 2002): acontecimentos sangrentos, extraordinários e inexplicáveis ameaçam a estabilidade do planeta e o futuro da raça humana. No outro filme, a razão era uma invasão alienígena; aqui, as pessoas simplesmente começam a se suicidar, todas ao mesmo tempo, sem que seja possível descobrir o motivo. Em Nova York, milhares de homens e mulheres se comportam de modo estranho, em bizarra sincronicidade. Todos repetem as mesmas frases seguidas vezes, andam para trás, fitam o infinito por minutos a fio, e entram num padrão recorrente de auto-violência, tirando as próprias vidas com qualquer coisa que estiver a mão, como prendedores de cabelo.

Policiais atiram nas próprias cabeças. Trabalhadores de prédios em construção pulam para a morte certa (a “chuva de suicidas” é um dos mais melhores e mais apavorantes momentos do longa-metragem). O tratador de um zoológico se transforma em comida de leão, em cena distribuída em tempo real por todo o país através de telefones celulares (uma crítica à tecnologia?). Pela primeira vez na carreira, Shyamalan filma os atos de violência de forma explícita, com muito sangue falso e maquiagem, mas sem deixar de primar pela elegância nos enquadramentos. Preste atenção na tomada em que três pessoas diferentes usam o mesmo revólver para se suicidar. Até os jatos de sangue esguichando da testa dos cadáveres são mostrados em close, uma novidade considerável na obra do diretor. A estratégia de manter o espectador desorientado, como os personagens, funciona muito bem.

As primeiras suspeitas indicam a possibilidade de ataque terrorista. Os especialistas acreditam que alguma toxina desconhecida esteja bloqueando o instinto de auto-preservação dos seres humanos (explicação mais “filme B”, impossível). A onda de violência se espalha por toda a costa leste dos EUA, enquanto a população procura sair da área de risco. Novamente como em “Sinais”, Shyamalan opta por filmar este cenário apocalíptico de forma discreta e intimista. Não acompanhamos multidões correndo pelas ruas, nem vemos tomadas panorâmicas espetaculares. Ficamos com quatro personagens que tentam fugir pelo interior do país, primeiro de trem e depois a pé: um professor de Ciências (Whalberg) e outro de Matemática (John Leguizamo), a esposa em crise do primeiro (Zooey Deschanel) e a filha pequena do segundo (Ashlyn Sanchez). Desorientados, sem saber onde e quando a ameaça pode dar as caras, eles não fazem muito além de se unir e torcer para escapar.

Shyamalan usa uma trilha sonora hitchcockiana de James Newton Howard, à base de cordas, e paisagens naturais adornadas por ruídos orgânicos e ventanias fora de hora (“A Vila”, lembram?) para realçar o clima de desorientação e perigo iminente. Na primeira metade, a estratégia narrativa funciona. Estão lá os melhores momentos do filme. Por outro lado, o cineasta falha justamente numa das áreas em que sempre se destacou, que é a construção de personagens. A dinâmica do casal protagonista, que passa por uma crise, é incrivelmente pífia, infantil e sem sentido – qualquer pessoa que já tenha encarado um relacionamento em frangalhos vai dar gargalhadas com as demonstrações pueris de imaturidade do casal.

Além disso, a personagem feminina peca pela frieza excessiva, que faz o espectador se perguntar em diversos momentos se ela está sendo atacada pela toxina assassina. A fraca atuação de Deschanel, que o diretor tenta compensar com inúmeros closes nos enormes olhos azuis da mulher, prejudica ainda mais a química do casal. Marido e mulher em crise, como se sabe, são recorrentes na obra de Shyamalan (“O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado”, “A Vila”), mas neste caso o cineasta não consegue dar peso e gravidade à relação deteriorada. Ambos parecem caricaturas superficiais de seres humanos. Não criam qualquer empatia com a platéia. Ainda por cima, a forma moralista e repentina como o roteiro resolve a situação chega a ser constrangedora.

Infelizmente, os problemas de “Fim dos Tempos” não param nos personagens. A própria trama carece de originalidade, já que o roteiro abusa de referências a filmes anteriores, como “Os Pássaros” (1963, de Alfred Hitchcock, diretor favorito de Shyamalan). Toda a estrutura narrativa, em particular o trecho final, é bastante semelhante ao segundo ato de “Guerra dos Mundos” (2005), de Steven Spielberg, longa-metragem que permite criar uma cadeia de comparações bastante curiosa. Afinal de contas, o trabalho de Spielberg já parecia uma versão épica, em grande escala, de “Sinais”. Produções menores, como o pequeno “O Núcleo” (2003), também surgem como referências importantes.

Por fim, é bem clara a influência do blockbuster ecológico “O Dia Depois do Amanhã” (2004), especialmente no subtexto panfletário e pouco sutil, arremessado ao fim da trama como uma bola de boliche na cabeça do espectador. Há deslizes até mesmo nas soluções dramatúrgicas escolhidas para os momentos de exposição. Observe, especialmente, a maneira anti-cinematográfica e nada original como Shyamalan oferece uma explicação didática, quase imbecil, para os acontecimentos vistos no decorrer da história, que termina de forma diáfana, como se o roteirista-diretor não tivesse encontrado uma maneira de concluir a trama. É um filme autoral, sem dúvida. Pena que o autor cometa tantos pecados.

O DVD nacional leva o selo da Buena Vista e é simples. O enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) é preservado e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem cinco featurettes que cobrem os bastidores da produção, mais trailer e galeria de erros de gravação. 

– Fim dos Tempos (The Happening, EUA/Índia, 2008)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Mark Whalberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez
Duração: 91 minutos

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8 comentários em “Fim dos Tempos

  1. A filmagem no celular não faz a mínima crítica a nada. É so um jeito de mostrar uma cena grotesca. A desculpa de querer fazer um filme B, é porque ele não consegue fazer um filme A. Seja por questões financeiras ou de qualidade na direção e roteiro.

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  2. O roteiro de Mr. Night plagia descaradamente um livro de Arthur Conan Doyle, O Dia em que o Mundo Acabou (The Poison Belt) , publicado em 1913. Até no protagonismo de dois professores, que no livro de Conan Doyle eram o professor Challenger e o professor Summerlee.
    Creio que para 1913 a história tinha relevância e, também, Night não é o primeiro que se apropria do enredo.

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  3. o pior é que eu gosto do shyamalan. o pior é que a história parecia ser ótima. mas ele conseguiu estragar tudo. tudo! e os atores? meu Deus do céu, senti vergonha alheia de todos. o pior filme do ano.

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  4. Gostei do filme, Shyamalan é um mestre na criação de tensão nas cenas do filme, assim como Hitchcock e Spielberg. As cenas de suicídio são as melhores já criadas no cinema, são angustiantes, macabras e violentas. A cena dos trabalhadores pulando dos prédios é a melhor cena do genêro. Só não gostei das atuações e da construção dos personagens, claramente forçados e artificiais. Mas isso na minha opinião é muito pouco para estragar um dos melhores filmes de suspense e terror do ano.

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  5. O que “salvou” o filme foi a atmosfera de tensão constante, mas as explicações bobas, o epílogo bobo tentam estragar todo o resto. Gostei da atuação de Mark Whalberg, da Deschanel não falo pq n prestei atenção na atuação dela só em seus lindo olhos azuis 😛

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  6. Meus Deus! Será que eu estava bêbado quando assisti filme, pois considerei um dos piores filmes ja produzidos, na minha opinião filme D, mas vendo os comentários poderei até assisti-lo novamente.

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  7. CÃEZINHOS DE COLEIRA! Sou arreligioso, portanto, não estou induzido a apresentar um conceito anagógico aos eventos considerados extraodinários. Todavia, reconheço que, ora, a humanidade encontra-se no vértice de uma bifurcação, sem outras escolhas: uma vertente que leva ao niilismos (anarquismo ou anormia total), e outra que nos empurra para uma ditadura logística ou psicossomática (domínio de corpo e mente). Esta última parece mais factível e perseguida. Atualmente, o que há de mais sofisticado no rastreamento individual é o verichip e, no global, pode-se afirmar que seja a constelação de satélites ECHELON/GPS, dos Estados Unidos. União Européia opera o Galileo; China, o Bei Dou e a Rússia o Glonass. No entanto, a eficiência destas parafernálias se restringe a quem deixa dados em operações e/ou comunicações eletrônicas. Leitoras da iris, das impressões digitais e, mais recentemente, os Estados Unidos pretendem instalar sensores capazes de identificar pessoas com base na foronomia (jeito de andar) peculiar de cada pedestre. Nunca os governos investiram tanto nas neurociências: -Pesquisadores da marinha americana conseguiram inspirar pensamentos em seres humanos, sob influência das ondas ELFs (de baixa frequência).- A clarividente, Edna, da extinta União Soviética, seria capaz de enxergar quaisquer pontos na terra. -O cientista brasileiro, Miguel Nicofelis, conseguiu a proeza de fazer um macaco, a partir dos EUA, mover um robô que se achava no Japão, só com a força do pensamento (telecinesia) do símio. Na semana anterior, o experimentador mexicano, José Contreras Vidal, obteve resultados bem mais acurados nesse campo -Máquinas que já tomam decisões conforme o pensar do operador etc. É claro que essa corrida tem um objetivo maior. Você que se julga tão inteligente, será relegado à condição de cachorrinho de cambão. Quem sobreviver, verá!
    OBS: o homem já conseguiu produzir centenas de aparatos capazes de captar e decodificar os mais variados espectros de ondas eletromagnéticas. -Lembre-se e tenha em mente: o pensamento se propaga através de uma forma de onda! Então, fiquem atentos: nada de papa-hóstia ou papa-dízimo, a ameaça maior à humanidade está no uso pandemônico e sagaz das neurociências associadas à eletrônica digital. E o combate ao terrorismo será um ótimo catalisador e pretexto para acelerar as pesquisas nessa direção.
    Em breve, em nome de disciplinar o caos no trânsito, e para combater a criminalidade, as megalópoles terão centrais remotas, objetivando controlar o fluxo e a velocidade dos veículos, bem como monitorar, em tempo real, o momento em que um automóvel trafegou ou trafega em um determinado trecho.
    Já viu, quando os bandidos que governam nosso país se apossarem desse servomecanismo?
    – A CONTRAFACE: em nome da abertura do mercado, e do consumismo como sustentáculo da democracia, a cada dia, conhecimentos e instrumentos mortíferos chegam às mãos de indivíduos com propensão genocida. Por outro lado, a superpolação funciona como um excelente vetor de disseminação de pestilências, inclusive, aquelas plantadas por atentados. A propósito, por que a gripe suina teve como epicentro a Cidade do México, visto ser ela o maior aglomerado humano do planeta, heim?
    Estoques de gêneros de consumo, mananciais d’água potável; tudo está mais vulnerável à sabotagem química ou bacteriológica.
    PS: quando Oton Hahn realizou a primeira fissão nuclear (com urânio), a propaganda nazista vendeu à população alemã a idéia de que o objetivo seria suprir a carência energética daquele país, já que o agente propelente da máquina industrial da Alemanha baseava-se no álcool extraído da beterraba. Mal-intencionados e financiados, Enrico Fermi e Jacob Robert Oppenheimer produziram a bomba atômica do projeto Manhathan.
    Consta que, após o desmatelo da CCCP (em russo: Souz Savietsk Socialitsk Respublik, desculpe-me, meu micro é peba, não consegui inserir os caracteres cirílicos) tornou-se possível contrabandear plutônio. Os principais clientes seriam: Pervez Musharraf, ex-presidente paquistanês e o seu homólogo norte-coreano, Kim Jong II. Ambos as nações já têm a bomba A.
    Porém, sabe-se que estas profecias catastróficas podem ser abortadas ou antecipadas por um hecatombe pior, prestes a acontecer: o avassalamento da agricultura pelo aquecimento da terra. Se 89% dos nossos alimentos são de origem vegetal (os plânctones também), inclusa, a ração dos animais comestíveis. Perceba que o gradiente térmico é crescente e, aparentemente, irreversível, em que pese às oscilações sazonais. Logo, há de chegar o ponto em que o limiar de plantas e micronutrientes do humus serão afetados.
    De que sobreviverão os tuxauas, se não restarão mais índios?

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