Poderoso Chefão, O – Trilogia

[rating:5]

Todo mundo já ouviu falar (bem!) da trilogia “O Poderoso Chefão”. A maioria das pessoas já assistiu a pelo menos um dos três filmes. Se não viu ainda, precisa correr a uma loja ou locadora de DVDs. O trio de filmes está disponível em diversos pacotes, isolados ou reunidos em caixas de luxo, com som e imagem de primeira qualidade. Os dois boxes lançados pela Paramount contendo as obra-primas de Francis Ford Coppola estão, com certeza, entre as melhores edições já vistas em DVD. A trilogia está disponível em vários formatos. Os filmes podem ser adquiridos em separado ou em caixas de três, quatro ou cinco discos.

A importância da saga da família de mafiosos ítalo-americanos na história do cinema é tão grande que as referências visuais a ela se multiplicam em filmes recentes, desde as referências explícitas de comédias como “Máfia no Divã” até a impagável telessérie “Família Soprano”. Todos, absolutamente TODOS os filmes sobre máfia resgatam maneirismos dessa trilogia inesquecível, uma verdadeira ópera estilizada, com todos os ingredientes que uma tragédia moderna poderia exigir: personagens complexos e fascinantes, fotografia deslumbrante das ruas de Nova York, atuações impecáveis (Marlon Brando, Robert De Niro e principalmente Al Pacino) e roteiros espetaculares.

Quem adquirir a trilogia terá nas mãos produtos irrepreensíveis. A caixinha lançada em 2001 (disponível em versões com quatro e cinco discos, essa última contendo um DVD exclusivo de extras, com mais de três horas de documentários) já era maravilhosa, e a restauração realizada em 2008 deixou tudo ainda melhor. Os 543 minutos dos três filmes tiveram o som remixado e restaurado para cinco canais digitais e a imagem ganhou nitidez inédita, através de um processo minucioso de recriação digital do negativo original, danificado pelo tempo e pelo armazenamento em condições inadequadas.

A caixa de 2001 tem um quinto disco (o segundo filme, com 200 minutos, está em dois discos) apenas de extras, dedicado a esmiuçar os bastidores das filmagens num conjunto de dezoito documentários e featurettes (pequenos documentários temáticos) que oferecem uma visão histórica completa do trabalho. Além disso, ainda há 35 cenas cortadas das edições finais, com mais 60 minutos, e pelo menos três extras escondidos, todos deliciosamente engraçados. O disco de extras da edição de 2008 é diferente, e contém um novo conjunto de seis featurettes, comando mais 80 minutos de material extra. É uma pena que, nesta edição, o disco de extras feito em 2001 não tenha sido incluído.

Se você é um daqueles espectadores que acham os documentários de DVDs um tanto quanto burocráticos, todo o material extra sobre “O Poderoso Chefão” foi feito para você. O disco de extras feito em 2001 tem como prato principal um documentário chamado “A Look Inside” (74 minutos). Ele vale, sozinho, o preço da caixinha. O suplemento apresenta uma porção de imagens raras e discute habilmente a produção dos três filmes da série, sem seguir a ordem cronológica dos trabalhos. O melhor de tudo é que esse documentário, produzido durante as filmagens do terceiro capítulo da saga, não hesita em examinar farta e minuciosamente as ferozes brigas entre Coppola e os executivos da Paramount durante as produções. Curiosamente, o mesmo estúdio banca a caixa de DVDs.

Poucas vezes um documentário conseguiu ir tão à fundo nos bastidores da política exercida pelos milionários de Hollywood. É surpreendente que a própria Paramount lance esse produto comercialmente. Além disso, são tantas imagens raras que listá-las aqui inviabilizaria uma reportagem: há diversos testes feitos por atores que não foram escalados, discussões entre Mario Puzo e Coppola sobre os roteiros, seqüências que deram errado, cenas de reuniões na casa do cineasta em várias épocas e, claro, depoimentos francos e reveladores de Al Pacino, Robert De Niro, James Caan, Robert Duvall e do próprio Coppola.

Quem não ficar satisfeito pode ir direto para outros suplementos. Um featurette bacana mostra o desenhista de produção, Dean Tavoularis, voltando às ruas de Nova Iorque onde as gravações aconteceram (outra teimosia do jovem Coppola: ele filmou 90% do primeiro filme em locações reais e dispensou os estúdios); há dois documentários que focalizam as trilhas sonoras, e um terceiro sobre os roteiros; em mais dez minutos, o próprio diretor apresenta o fichário onde ele colava as páginas mais importantes do livro e fazia anotações manuscritas sobre como queria cada cena do primeiro capítulo (“o caderno era mais importante do que o roteiro”, diz Coppola).

O fotógrafo Gordon Willis também ganha um mini-documentário, para explicar a decisão de filmar as cenas com iluminação de cima para baixo – o objetivo era esconder os olhos de Marlon Brando para enfatizar o senso de mistério do personagem, e essa decisão terminou por deixar toda a saga com os tons dourados, carregados de sombras, que a partir dali influenciariam praticamente todos os filmes de época feitos em Hollywood.

O disco de extras das caixinhas lançadas em 2008 trazem um novo documentário em duas partes detalhando as confusões de bastidores que envolveram a produção do capítulo inicial da trilogia. Há ainda um featurette bacana com cineastas (como Steven Spielberg e William Friedkin) tentando explicar as razões para a incrível penetração da série na cultura norte-americana (10 minutos), e outro, extremamente didático e esclarecedor, focalizando o processo de restauração (19 minutos). Outros dois featurettes são meras bobagens – um deles traz os atores de “Cloverfield” falando sobre a trilogia, e o outro consiste de trechos de entrevistas cortadas.

Além dessa viagem aos bastidores das produções, há ainda comentários em áudio de Coppola para os três filmes. Esses comentários aparecem em todas as versões da trilogia, o que é muito bom, já que Coppola sabe o que diz e oferece uma verdadeira aula de narrativa cinematográfica para cinéfilos. São nove horas que cobrem a saga de três gerações da família Corleone, a mais romântica e poderosa da máfia norte-americana na primeira metade do século XX.

Entre os três filmes, é praticamente impossível escolher um. A coerência visual e narrativa do trio de obras dá um novo significado à palavra “trilogia”. O segundo filme, com duas narrativas paralelas, é considerado por muita gente o melhor. O terceiro, que outros tantos consideram fraco, amarra as pontas com uma trama melancólica e corajosa. E o primeiro, que narra a impressionante transformação do jovem Michael Corleone (Pacino), de militar dedicado em mafioso implacável, tem talvez a cena de interpretação mais genial do cinema: Michael Corleone vingando os assassinos do pai, num restaurante novaiorquino. De cair o queixo. Uma dica? Reserve um domingo e veja tudo em seqüência. Programão!

– O Poderoso Chefão (Edição de Colecionador)
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Al Pacino, Marlon Brando, Robert De Niro, Andy Garcia, James Caan
Duração: 543 minutos (três filmes)

13 comentários em “Poderoso Chefão, O – Trilogia

  1. Eu tenho a caixinha com 5 discos de 2001. Realmente os Extras são fantásticos. Quando eu comprei nunca havia visto absolutamente nenhum dos três filmes. Mas como falavam que eram obras-primas, ótimos, fantásticos, blá, blá, blá…peguei uns 70 contos e comprei com seguinte pensamento: se esses filmes forem ruins e eu gastei 70 paus, mato os críticos. Resultado: acho que foram um dos R$70 mais bem gastos da minha vida. Depois que vi o primeiro filme fiquei de queixo caído em quão maravilhoso era. E depois de ver a trilogia fiquei sem palavras. Tudo o que já disseram e mais um pouco era absolutamente verdade. Sem mais.
    p.s.: fiquei curioso em ver essa masterização nova de 2008, será que é muito melhor que a que tenho de 2001(que acho ótima) mesmo?

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  2. Sandoval, tua pergunta é impossível de responder objetivamente. Os extras da edição de 2001 são melhores (embora o novo disco de extras tenha pelo menos três featurettes que achei magníficos – ouvir Walter Murch falando é sempre um prazer). Por outro lado, a restauração do filme ficou inacreditável de tão boa (pois é, Robson, acredite!! É chocante a diferença, e olha que achava a edição de 2001 excelente!!). Como no fim o que importa mesmo são os filmes, eu acabaria comprando a caixa nova. Pena que Paramount vacilou, porque nos EUA esta caixa nova inclui o disco de extras da edição 2001…

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  3. Falaí migão,

    Já havia assistido os chefões nas ocasiões em que eles foram pra telinha, e esses dias aluguei a caixa. Lembro-me de todas as sensações dos tres filmes e lembro-me de, as vezes, não entender muito bem as sacadas que os Dons tinham quando somente através de um gesto ou uma palavra conseguirem desvendar que era o traidor, ou prever as reações de seus amigos/inimigos. Me convenci de que isso era coisa de mafioso mesmo e que não entenderia mesmo.
    Passados os anos e ao reassistí-lo me peguei com meu pai voltando a cena em que o Marlon Brando descobre o verdadeiro traidor naquela reunião com as famílias. O engraçado foi o comentario entre eu e meu pai. “É ..é melhor a gente voltar porque dificilmente teremos força pra assistir a esses filmes”, tamanho é o cansaço e a extenuação de acompanhar essa ópera.
    Me emocionei no momento em que Don Vito deixa rolar uma lágrima na cama do hospital, no momento em que ve Michael ao seu lado dizendo que iria tomar conta dele.
    Me emocionei no momento me que Don Vito chora a morte de Sonni.
    E me emocionei com sua morte. Parecia alí que o filme tinha acabado.

    Mas me emocionei mesmo foi na parte que o filho de Michael pega um violão e canta aquela cancioneta. Naquele momento ví toda obra dos 3 filmes eternizada, realizada. Na verdade eu me senti realizado.
    Momentos como esse vale um filme. Como quando Al dança aquele tango no Perfume de Mulher, ou quando a Noiva executa o golpe dos “5 toques que explodem o coração”, ou quando o Armonica se enfrenta com Frank, ou quando Morfeu diz que Neo finalmente se convense de que é o escolhido, só pra ficar nesses que de me recordo agora.

    Aliás, sobre a cancioneta, quando assisti o primeiro chefão, há muitos anos atrás, e que a música não saia de minha cabeça, uma prima mais velha minha me disse que a versão da música era; “Chore baixinho só o céu pode escurar…”, não sei se isso procede mas para mim não existirá uma outra, pra mim casa perfeitamente com a solidão dos Dons.

    Senti muita a falta do Tom e gostaria de saber porque ele não participou do último filme.

    Agora um pedido; quase todas as críticas são feitas para pessoas que não assistiram aos fimes, e gotaria de críticas, pelo menos dos fimes mais antigos falassem também para aqueles que já assistiram. Quase nunca leio uma crítica antes de assistir ao filme. Sempre que leio uma crítica leio para ver se o crítico sentiu o que senti se bateu do mesmo jeito que bateu em mim e para saber detalhes de algumas cenas, o que está nas entrelinhas ou o que que ela remete e para poder “entrar” mais no filme, coisa que dificilmente acontece para não perder o elemento surpresa do filme.

    No mais filme eternizado, antológico. Nesse momento “Chore baixinho..” ressona por todo o quarto.

    Abraço,
    Marcelo.

    Ah, mesmo revendo a cena da reunião não fiquei completamente convencido de que entendi como que Don Vito descobre o traidor naquela conversa, hehe.

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  4. Tchelo, muito legal seu comentário. Você perguntou porque Robert Duvall não participou do terceiro filme; a resposta é simples: não chegou a um acordo financeiro com o estúdio (o mesmo ocorreu com muitos personagens menores no capítulo 2). Quanto às críticas feitas para pessoas que já assistiram ao film,e vou tentar pensar numa maneira de fazer isso com eficiência. É complicado. Já tentei antes escrever coisas como ATENÇÃO, SPOILER À FRENTE, NÃO LEIA SE NÃO VIU O FILME AINDA, mas as pessoas lêem de todo jeito. E depois reclamam. 😉

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  5. Por que Robert Duvall não trabalhou em O Poderoso Chefão 3 e se existe alguma chance de ter uma refilmagem com novos atores e para terminar se vai ter um dia O Poderoso Chefão 4 com uma atuação de gala de Andy Garcia iniciando uma nova etapa da família Corleone?

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  6. Já respondi sobre Robert Duvall no comentário anterior (motivos financeiros). Acho que não existe nenhuma chance de refilmarem essa obra-prima (ainda bem!!). E parece improvável que exista algum dia uma Parte 4, já que Mario Puzo – roteirista e criador dos personagens – passou desta para melhor há alguns anos. Coppola jamais faria mais uma continuação sem a aprovação dele.

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  7. Olá Rodrigo. Assisti toda a trilogia O Poderoso Chefão outro dia, na maratona do Telecine, cujo acervo de clássicos é excelente. O que dizer sobre ela de novo? Talvez, nada. É uma obra que ao longo do tempo assumiu uma dimensão mítica e configura uma das maiores dentro de um gênero, o qual deve sua fama a Copola: o filme de gansters. No entanto, vale ressaltar que o principal tema de O Poderoso Chefão é a família e tentativa (fracassada) de preservá-la, talvez pelo fato dela estar fadada a extinção deste o início (essa impressão parece se confinar na cena final na Michael lembra da família Corleone no passado, com uma expressão enigmática e pensativa). Se Brando é a alma do primeiro filme, Pacino é o motor que o move, com sua interpretação que combina controle, frieza, mas que em alguns momentos demonstrar uma emoção furiosa. Sobre a polemica sobre os dois primeiros filmes, acredito que ambos se complementam, pois mostram que tanto Vito como Michael são produto do “meio” e inevitalmente estavam destinados a trilhar um caminho violento, sem volta e trágico. É justamente o elemento trágico o principal atrativo da parte três, que embora bem realizada é a mais fraca. Talvez isso tenha ocorrido porque trata-se do filme que fecha a trilogia, ou seja, parece que tudo acontece com um único propósito: mostrar a decadência (que é enfatizada nas primeiras imagens da casa abandonada de Nevada) e talvez o fim da famíla Corleone. Também a falta de talento dramático de Sofia Coppola, que posteriormente se revelaria uma diretora talentosa ( por que Coppola sendo um diretor experiente escolheu sua filha para um papel importante que concretiza o pathos trágico de Michael Corleone?) enfraquece o elenco formado por bons atores (Talia Share, Andy Garcia, Joe Mategna), embora não prejudique o final operístico e trágico (é interessante o modo como o diretor o antecede por meio do diálogo com a ópera Cavalaria Rusticana), que consegue dar um desfecho a saga do Corleone que lembra e muito a de outra família que também é mencionada neste filme: os Bórgias, que voltaram à moda. De qualquer forma, a trilogia O Poderoso Chefão constitui uma das grandes obras de Coppola, um dos diretores mais ousados, interessantes e competentes que Hollywood já produziu e, sem dúvida, merece ser vista na íntregra pelo menos uma vez na vida. É isso.

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