Nevoeiro, O

[rating:4]

A primeira cena de “O Nevoeiro” (The Mist, EUA, 2007) mostra o protagonista da história trabalhando num estúdio de desenho, dentro da própria casa, enquanto uma tempestade faz barulho lá fora. David (Thomas Jane) cria pôsteres de filmes. Uma das pinturas mais destacadas que decoram o recinto é uma ilustração gigante de “O Enigma de Outro Mundo” (1982), de John Carpenter. Trata-se ao mesmo tempo de uma pista e de uma pequena homenagem, feita pelo diretor Frank Darabont, ao cineasta que inspirou o conto original de Stephen King. “O Nevoeiro” marca a terceira incursão de Darabont no universo macabro/fantástico do escritor. Uma marca especialmente significativa, se considerarmos que ele dirigiu uma única obra (“Cine Majestic”, de 2002) sem conexão com o trabalho de King.

Antes de funcionar como homenagem, porém, o pôster pretende sinalizar, aos espectadores que conhecem cinema, aquilo que está por vir. Sim, uma pista: a trama de “O Nevoeiro” é uma variação eficiente dos chamados “filmes de cerco”, aquelas claustrofóbicas narrativas cinematográficas que focalizam um grupo de pessoas preso dentro de um recinto e ameaçado por algo (ou alguém) mais poderoso, que está do lado de fora. O gênero foi criado pelo lendário diretor Howard Hawks, no faroeste “Onde Começa o Inferno” (1959). Mais tarde, John Carpenter se tornou o maior de todos os especialistas neste tipo de filme, criando sucessivas variações deste tipo de narrativa. “O Nevoeiro” paga justo tributo ao cineasta norte-americano.

Não por acaso, o trabalho de Frank Darabont lembra bastante um outro filme de Carpenter: “A Névoa” (1980). Naquela película, uma misteriosa neblina espessa invadia uma pequena cidade de pescadores, trazendo junto a ela uma série de ocorrências inexplicáveis. A ação dramática de “O Nevoeiro” é mais simples, e acontece quase toda dentro de um supermercado, mas a idéia central é a mesma. Uma pequena e bucólica cidade rural do Maine (EUA) é invadida, após a já citada tempestade, por uma grossa neblina. A névoa não vem sozinha. Algo grande, barulhento e violento se esconde dentro dela. Isto acontece nos 10 primeiros minutos de projeção. Nas duas horas seguintes, passamos a acompanhar a tensão vivida por um grupo de moradores que foi apanhado pelo fenômeno meteorológico dentro do supermercado local.

Embora seja veterano em adaptar Stephen King, Darabont é neófito em filmes de horror (ele escolheu para filmar antes os contos dramáticos “Um Sonho de Liberdade” e “À Espera de um Milagre”), e isso fica evidente para qualquer um que acompanhe o gênero com atenção. Ele consegue injetar tensão à trama com eficiência, e faz isso através de um roteiro inteligente, sem precisar recorrer a clichês (como, por exemplo, escolher um par de personagens para protagonizar e deixar os demais em segundo plano). Ao invés disso, o diretor e roteirista cria grupos distintos de pessoas, cujas diferenças são amplificadas pouco a pouco pelo medo e pela tensão, de forma que os atritos vão se tornando maiores, chegando às raias da insanidade quando a situação realmente fica preta. O diretor dispensa a composição cuidadosa de personagens e se concentra na dinâmica que surge da interação entre eles. É uma maneira esperta e original de abordar uma velha situação dramática.

Darabont também consegue driblar com eficácia um problema trazido exatamente por essa abordagem. O problema é que, como quase toda a ação acontece dentro de um mesmo local, ela consiste basicamente de diálogos – conversas e mais conversas e mais conversas. Cineasta de estilo clássico e polido, Darabont filma tudo em grandes close ups (planos fechados aumentam a sensação de claustrofobia), usa a névoa e a escuridão de certos trechos para causar tensão, e tenta dar ritmo ao filme usando muitas tomadas com câmera móvel e cortes rápidos. Consegue um bom resultado, embora as tomadas em profundidade de foco falhem ao permitir que o espectador respire, algo que não condiz com o estado emocional dos personagens. Na primeira metade, o cineasta acerta em cheio ao esconder aquilo que se esconde na neblina. Quando o perigo ganha uma face, porém, a equipe de efeitos digitais não consegue ser 100% eficiente, de forma que algumas cenas parecem meio artificiais.

Outro dado positivo é que Darabont não cai na tentação de criar personagens típicos deste tipo do filme, fazendo com que os “heróis” (aspas são bem-vindas aqui, já que nenhum deles se encaixa realmente no conceito) sejam pessoas bem incomuns. Dois dos mais atuantes integrantes do grupo cercado, por exemplo, são o caixa nerd de meia idade do supermercado (Toby Jones) e uma agitada senhora na faixa dos 80 anos de idade (Francis Sternhagen). Em outros filmes, eles seriam coadjuvantes inofensivos, prontos para servirem de refeição para aquilo que há dentro do nevoeiro. Os três jovens soldados dentro do mercado, candidatos mais evidentes a heróis, acabam não virando nada disso. Como na vida real, os verdadeiros líderes são aqueles que surgem nas horas mais dramáticas, e nem sempre eles são aqueles de quem esperamos ações contundentes.

De resto, as virtudes de “O Nevoeiro” superam de longe os defeitos. O elenco não compromete – Thomas Jane é ator limitado, mas convence como pai pacato e cuidadoso – e tem pelo menos um grande destaque em Marcia Gay Harden. A vencedora do Oscar (“Pollock”) calibra uma performance cuidadosamente histriônica na pele da monstruosa Sra. Carmody, uma fanática religiosa que vê no incidente uma ocasião perfeita para pregar sua versão violenta, estilo “Velho Testamento”, da Bíblia. O diretor ainda teve tempo para alterar substancialmente o final escrito por Stephen King. Se o original já era forte, a versão para cinema transforma-o em uma espécie de piada cósmica inacreditavelmente sombria, que alguns poderão considerar de mau gosto. Um final corajoso e muito, muito original, com certeza.

O DVD de locação, da Paris Filmes, é bem interessante. O filme aparece com enquadramento original (widescreen anamórfico) preservado, e a trilha de áudio eficiente tem seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem um making of (22 minutos), a radiografia de uma cena completa desde a pós-produção até a finalização (12 minutos) e mais três featurettes (13, 16 e 10 minutos), focalizando principalmente os efeitos visuais. Tudo legendado.

– O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2007)
Direção: Frank Darabont
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Nathan Gamble
Duração: 124 minutos

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7 comentários em “Nevoeiro, O

  1. O filme é pesado! “B” em alguns momentos, mas pesado no geral. Muito bom!

    Não há sustos babacas, mas uma sensação de angústia e pessimismo crescente!

    Para mim, Darabont já havia se revelado um ótimo diretor para filmes com climas nostálgicos, como se o passado de Darabont fosse legal até nas adversidades. É curioso como um filme tão pesado é obra de um diretor que conseguiu extrair leveza e otimismo mesmo ao retratar dramas carcerários.

    O melhor de “Um sonho de liberdade” é que o filme é conduzido de maneira otimista até explodir em um final comovente mesmo sem ser alienado, não deixando de retratar as agruras da prisão. O filme retrata bem o espírito de sua personagem principal: apesar de tudo, mantenha-se otimista. Tim Robins(? – Não sei como se escreve) faz amigos na prisão mesmo enquanto é regularmente violentado por outros prisioneiros. Ponto para Frank, que demonstra ter o domínio sob sentimento da platéia mesmo quando tudo poderia desbancar para um dramalhão apelativo.

    por outro lado, O Nevoeiro é um filme inserido em um clima extremamente pessimista, totalmente diferente da “leveza” demonstrada nas outras obras do diretor. Em momento algum Darabont sugere uma saída para seu grupo de confinados. Tudo parece ficar cada vez pior.

    O “herói” jamais demonstra uma força sobrenatural capaz de acender uma fagulha de esperança no espectador. Ele simplesmente não está no controle da situação e, como os demais, não sabe bem o que fazer. Ponto para Thomas Jane, que consegue camuflar bem sua cara de “O Justiceiro” na insegurança de um pai que somente pensa em ajudar seu filho, mais nada.

    Aliás, o diretor desnuda o seu protagonista logo no primeiro dilema surgido no filme: alguém vai acompanhar a mulher que pretende sair do supermercado para ficar com seus 2 filhos pequenos?

    Essa cena, logo no início, aclarou o que esperar dos minutos seguintes

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  2. Muito bom. Acho um dos melhores de terror dos anos 2000. Supreendente eu diria, principalmente o final. Para quem costuma dizer que “não se fazem mais filmes [de terror] como antigamente” esse filme é uma honrosa exceção.

    Alguém notou a crítica ao fundamentalismo cristão ao longo do filme?

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  3. Olá Rodrigo. O Nevoeiro é sem dúvida um dos melhores filmes de horror deste ano e também uma boa adaptação de um conto de Sthepen King. Frank Darabont prova mais uma vez que é um diretor talentoso. Em um um dos making offs do DVD, o próprio King elogia sua adaptação, e com certeza virão outras por aí ( o poster do personagem principal da Torre Negra, a última saga do escritor é uma pista que o diretor vai adapta-la para o cinema). Apesar dos elementos convencionais deste tipo de produção ( monstros, cenas de morte e violência) Darabont privilegia os personagens, e as situações de tensão ( e isso é grande mérito do filme).Vale ressaltar, que os”monstros fantásticos” estão em segundo plano dentro da narrativa. Como já disseram alguns críticos, “os monstros humanos” de King são muito mais assustadores,que suas criaturas fantásticas e neste filme nada supera a fanática religiosa “Velho Testamento”, muito bem interpretada por Marcia Gay Harden. No entanto, é o final polêmico, a grande sacada do filme. Ao investir nele, o diretor renova o gênero, e torna a fantasia mais próxima do real,e por isso assustadora. Desta forma, O Nevoeiro pode ser visto como uma metáfora sobre a América fragilizada pós onze de setembro e guerra do Iraque.Uma espécie de espelho invertido, mas que conserva a imagem de uma América intolerante, sem fé ou com uma religiosidade de “fachada”, incapaz de lidar com situações de crise. Belo filme.
    PS: Você ainda está devendo os posts. Abraço.

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  4. Acho muito interessantes suas críticas Rodrigo e bem elaboradas de uma forma bastante inteligente. O melhor deste filme é sem dúvida o final. Muitos não acreditavam que aquilo iria acontecer, mas aconteceu… O diretor saiu totalmente do clichês dentro do filme em geral e principalmente no final. Me lembou um pouco o clássico de George A. Romero em Despertar dos Mortos, naquelas cenas dentro do supermercado…sendo que o outro é num shopping. Vale a pena assistir e tenho este DVD em minha coleção.

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