Homem Sem Passado, O

[rating: 4,5]

A cena mais importante de “O Homem Sem Passado” (Mies vailla menneisyyttä , Finlândia, 2002) acontece logo no princípio. Depois de ser severamente espancado por ladrões, o personagem principal (Markku Peltola) está em coma, num hospital finlandês. Ele é observado por médicos. De repente, os batimentos cardíacos cessam. Os homens de branco logo saem do quarto e deixam o cadáver sozinho. Sem qualquer explicação científica, o sujeito se levanta e arranca os eletrodos do corpo. Desorientado, veste as roupas e deixa o hospital. Trata-se de um momento bastante singular, porque é o único instante de toda a história em que o diretor Aki Kaurismäki elimina, de forma explícita e deliberada, o realismo. Afinal, o homem de rosto coberto por bandagens estava clinicamente morto. O que poderia explicar a ressurreição?

A resposta é a chave para que se possa compreender as intenções do diretor. A cena, de certa forma, vai além – encapsula o ponto nevrálgico de toda a obra do finlandês, dono de uma filmografia farta e pouco conhecida além das fronteiras da Europa. Os protagonistas de Kaurismäki são sempre rejeitados pela sociedade, gente que vive à margem da civilização. Em “O Homem Sem Passado”, o diretor propõe a mais radical projeção ficcional desta marginalidade, desta invisibilidade social. Do ponto de vista legal, seu protagonista não existe. Ele não tem documentos e nem memória. A imagem do rosto coberto por bandagens não lembra “O Homem Invisível”, de James Whale, por acaso. Ao acordar no hospital, o “homem sem passado” está literalmente afastado da vida em sociedade. O resto do filme vai mostrar o que a obra de Kaurismäki sempre mostra: a tentativa deste homem de retornar à convivência social.

Em um melodrama normal, o seguimento da história mostraria o sujeito desmemoriado lutando para recuperar sua individualidade. Não em um filme de Kaurismäki. O diretor não está interessado em melodrama. Por isso, seu personagem não demonstra qualquer curiosidade em saber quem era, antes do episódio. O passado não significa nada. Ele olha para a frente. Tudo o que lhe resta é a possibilidade de construir uma nova vida. Como não tem dinheiro, roupas ou documentos, ele ruma para o submundo. Aluga um velho container a um vigia corrupto, consegue roupas e comida no Exército da Salvação, arranja um subemprego na organização não-governamental, e inicia um relacionamento romântico com uma mulher de meia-idade que trabalha lá (Kati Outinen). Aos poucos, vai construindo para si uma nova vida, inteiramente alheio a quem era antes do espancamento. Quando finalmente consegue um emprego como soldador, é obrigado a abrir uma conta num banco. Aí… bom, aí é melhor você conferir por si mesmo.

“O Homem Sem Passado” é o mais importante filme de Aki Kaurismäki. Além de ser o que melhor expressa o tema de interesse do diretor – a vida dos marginais, dos invisíveis sociais – é, ainda, o que conquistou mais notoriedade entre os cinéfilos, por ter ganhado o Prêmio do Júri em Cannes (a atriz Kati Outinen também venceu na França). A história simples, honesta e direta do homem desmemoriado é contada no estilo ascético que marcou a carreira do cineasta. Ele mantém a câmera fixa, à distância, filmando tudo em longos planos gerais, o que sugere um distanciamento moral da situação dramática proposta. Não há música ambiente e os diálogos são curtos, enxutos, resumindo-se ao mínimo necessário para que a platéia entenda a trama.

A estética impassível também é repetida no tratamento visual, com as cores azul e branco predominando, junto a texturas ásperas de concreto e cimento. Tudo isso aproxima a obra de Kaurismäki do trabalho de diretores reconhecidamente frios, como Robert Bresson e Yazujiro Ozu. O estilo, repleto de longos silêncios, pode incomodar espectadores mais acostumados ao cinema mainstream dos Estados Unidos e da Europa, mas favorece a reflexão sobre o tema e as situações dramáticas sugeridas pelo diretor. O senso de humor levemente surreal, característico do finlandês, também marca presença. Kaurismäki arremata tudo com um final caloroso e singelo, como bem pouco coisa que já filmou. Belo filme.

O longa-metragem foi lançado no Brasil em DVD pela Imagem Filmes, mas é bastante raro. O disco simples mantém o enquadramento original preservado (widescreen 1.85:1 letterboxed) e possui áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0).

– O Homem Sem Passado (Mies vailla menneisyyttä , Finlândia, 2002)
Direção: Aki Kaurismäki
Elenco: Markku Peltola, Kati Outinen, Juhani Niemelä, Kaija Pakarinen
Duração: 97 minutos

2 comentários em “Homem Sem Passado, O

  1. Olá Rodrigo, tudo bem?
    Já faz algum tempo que acompanho seu trabalho, e geralmente, aprovo suas resenhas. Sobre o filme acima, você está enganado. Ele pode ser encontrado nas locadoras ( não sei se este está disponível para venda direta, foi distribuído pela Imagem Filmes). Aproveito esta oportunidade para pedir que você escreva uma resenha sobre Gothic de Ken Russel, Sangue de Pantera, Monstros de Tod Browing, A Maldição de Frankenstein de Terence Fisher, Malpertius com Orson Welles e Escravas do desejo (do mesmo diretor do filme anterior)Madre Joana dos Anjos e O Vampiro de Dryer. Abraço.

    Curtir

  2. Obrigado pela dica, Alessandro. Pesquisei e você tem razão. Infelizmente o DVD está fora de catálogo e é super-difícil achá-lo. Anotei suas sugestões todas (alguns eu até tenho em casa, como os do Torneur e Browning, mas ainda não vi).

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s