Mosconautas no Mundo da Lua, Os

[rating:3]

Uma das principais respostas dos estúdios para a crise em que o cinema mergulhou após o ano 2000, com arrecadações de bilheteria despencando ano a ano, foi o investimento maciço em novas tecnologias de projeção. Para investir grana nisso, cineastas e executivos se basearam no seguinte raciocínio: se o espectador prefere ver filmes em casa, é preciso dar a ele uma experiência inteiramente nova, impossível de reproduzir no conforto do lar, quando ele entrar em uma sala de exibição. Só então ele vai se animar a voltar. A animação belga “Os Mosconautas no Mundo da Lua” (Fly me To the Moon, Bélgica, 2008) está inserida no esforço multinacional para evitar o colapso do cinema como experiência coletiva. O filme foi um dos primeiros a apostar na tecnologia de projeção digital em três dimensões.

O diretor responsável, Ben Stassien, é um veterano egresso de filmes feitos para IMAX, outra tecnologia que busca uma experiência de fruição de filmes que esteja próxima da imersão total do espectador dentro do mundo ficcional. Ele desenvolveu todo o projeto com a tecnologia de projeção 3D em mente. Do ponto de vista tecnológico, este é o grande mérito de “Os Mosconautas no Mundo da Lua”. A animação infanto-juvenil foi o primeiro longa-metragem concebido para explorar toda a potencialidade do sistema, ao contrário de outros filmes, imaginados como produções normais e posteriormente adaptados para 3D. Talvez por conta do desafio tecnológico, Stassien deixou meio de lado aspectos estritamente cinematográficos do projeto, de forma que o filme tem narrativa frágil e qualidade de animação computadorizada bastante sofrível.

De certa forma, não é difícil explicar os problemas com a animação. Além de estarem lidando com uma tecnologia ainda incipiente, os artistas gráficos envolvidos no projeto tiveram que lidar com um orçamento bem inferior às maiores produções do gênero. Uma animação computadorizada tradicional, como aquelas desenvolvidas pela Pixar, ultrapassa facilmente a barreira de US$ 100 milhões. Bancada pelo estúdio belga nView, porém, “Os Mosconautas no Mundo da Lua” teve que ser inteiramente finalizado com US$ 25 milhões. É por isso que a animação apresenta falhas de execução. As texturas são pobres e o nível de detalhes dos personagens decepciona.

Deste problema fica especialmente visível quando os artistas precisam animar situações que envolvam água, fogo e gelo, reconhecidamente um desafio para longas-metragens do gênero. Observe, por exemplo, as cenas noturnas no primeiro ato, em que os personagens principais conversam, sob a luz do luar, diante do pântano onde moram. Os raios de luz refletem na água e fazem o leve movimento do vento, batendo na superfície do lago, parecer falso e artificial. A mistura de fogo e gelo que envolve o lançamento de um foguete espacial também não soa crível. Além disso, quando os personagens se movimentam de forma perpendicular em relação à câmera – um movimento que envolve a operação do foco do equipamento – os animadores têm dificuldades em manter as proporções corretas deles em relação aos objetos cênicos.

Estes problemas são consideravelmente minimizados se você assistir ao filme da forma em que ele foi concebido. Em uma sala equipada com projeção digital 3D, espectadores mais animados poderão experimentar uma sensação de imersão na história bastante convincente. Além disso, são observações técnicas que em nada interessam ao público-alvo, formado por crianças pequenas. Só que “Os Mosconautas no Mundo da Lua” deu o azar de ganhar lançamento na mesma temporada de outra animação que envolve viagens espaciais: a obra-prima “WALL-E”, da Pixar. Contrapor os dois filmes faz a obra belga empalidecer em todos os aspectos. Os personagens são mais rasos e batidos, provocando muito menos empatia do que os robôs de Andrew Stanton. A história contém problemas de lógica e recorre com freqüência a clichês narrativos, e a qualidade técnica deixa muito a desejar.

De qualquer forma, o enredo guarda alguns encantos para a criançada. Ele se passa em 1961 e tem como pano de fundo um dos momentos históricos mais importantes do século XX: a viagem da nave Apolo 11 à Lua, onde o ser humano pisou pela primeira vez. Incomodadas com as gracinhas soltadas por amigos mais velhos, três moscas adolescentes decidem embarcar na nave espacial, para viver uma grande aventura, o que provoca a ira das moscas russas, do outro lado do mundo. A viagem espacial, em si, contém os melhores momentos, inclusive uma cômica valsa em gravidade zero das moscas, ao som de Strauss (referência óbvia a “2001 – Uma Odisséia no Espaço”), e a divertida seqüência em que as moscas corrigem um defeito técnico da nave que poderia ter impedido Neil Armstrong de pisar em solo lunar. Já a subtrama envolvendo a sabotagem russa destoa no tom geral e apenas desvia a atenção dos pequenos espectadores daquilo que eles realmente estão a fim de ver: as mosquinhas aventureiras.

O DVD nacional carrega o selo PlayArte. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Os Mosconautas no Mundo da Lua (Fly me To the Moon, Bélgica, 2008)
Direção: Ben Stassien
Animação (vozes de Tim Curry, Christopher Lloyd, Adrienne Barbeau)
Duração: 84 minutos

7 comentários em “Mosconautas no Mundo da Lua, Os

  1. Rodrigo,

    Sou fã das tuas críticas mas me permita discordar inteiramente dessa.

    O filme é um espetáculo visual exatamente por propor uma experiência sensorial inteiramente nova. A sensação do 3D, com toda aquela percepção de profundidade e textura afoga qualquer pecadilho técnico. E a meu ver, vc deve ter ido ao cinema só pensando nisso pra observar tanta coisa insignificante e que em nada altera o principal: participar de uma sensação inebriante na sala escura.

    Sei que faz parte da condição de crítico ser cri-cri com coisas que o espectador comum nem xongas mas, peralá, comparar com WALLE é um pouco demais. São duas propostas totalmente diferentes. E, aqui pra nós, apesar de visualmente arrebatador, a história do robozinho é meio sem ritmo. Minha filha e mais um monte de amiguinhos sairam reclamando do cinema e teve gente que dormiu. A Pixar é competente mas também dá suas escorregadas. Pra mim foi o mais fraquinho deles. Animação dez mas com uma historinha adulta demais, pretensiosa demais e com um ritmo de tartaruga.

    Amei o filme das mosquinhas e esperava uma crítica menos mal-humorada. Acho que vc não tava num dia bom. Cinema também tem disso. Odiei “O Jardineiro Fiel” na telona e ví com outros olhos em dvd. Aí lembrei que o assisti no cinema num final de semana daqueles! É a vida. Ainda assim o considero (ao lado do KMF) o cara que mais entende de cinema na terrinha e o que melhor escreve sobre. Alia conhecimento tecnico e texto porreta. Mas, como todo ser humano, não é perfeito. Pegou pesado com as mosquinhas!

    Torço pra que chegue logo “A Era do Gelo 3” e “Transformers” em 3D. Aliás, vou virar cativo da sala 5 do Box. A 5 minutos de meu prédio, não tem como ser de outra forma.

    Um grande abraço.

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  2. Jeziel, obrigado pelo elogios. Respeito a sua opinião, mas não acho que falei de coisas insignificantes. Roteiro, narrativa, personagens nunca são insignificantes. Pelo que você escreveu – e li com atenção – o fato de ter se encantado com o 3D foi determinante para sua opinião sobre o filme. Como crítico, não posso me deixar levar por esse tipo de encantamento. O fato de ter efeitos 3D bem feitos não transforma filme algum em obra-prima. Em relação a “WALL-E”, posso entender a sua observação (filmes quase sem diálogos geralmente causam essa sensação de lentidão), mas discordo 100% dela. Inclusive tenho duas filhas (de 4 e 2 anos), e as duas adoram o filme. Como eu. Voltamos três vezes ao cinema e até hoje elas reencenam trechos dele durante as brincadeiras em casa. Mal posso esperar pelo DVD. Abraços.

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  3. Novidades sempre são bem vindas, e essa que recebemos com sala 3D do Box para mim foi mais que isso, foi ver que há uma luz no fim do túnel para as salas de projeção! Ver crianças sair da sala dizendo que querem voltar soou como música, e acredito que num futuro próximo até mesmo filmes de drama serão realizados em 3D.

    Com relação ao filme não dá pra chamar de obra-prima pois realmente tem um roteiro fraco com personagens esteriotipados e superficiais (as larvinhas foram o destaque!) , mas tem um detalhe Rodrigo, creio que o personagem principal seja a ação 3D, todo o esforço do filme se concentrou nisso, as cenas da Apolo11 impressionam e provavelmente consumiram a grande fatia do dinheiro da produção!

    Com relação a comparação com Wall.e, realmente é covardia! Wall.e foi realizado com estrondosos 180milhões de dólares!!! Metade do dinheiro utilizado em toda a trilogia do Senhor dos anéis… arte conceitual, fotografia, trilha sonora, tudo que foi utilizado no filme foi feito com a nata que o dinheiro pode comprar… é realmente uma obra-prima, contudo se fosse em 3D ai sim seria um entretenimento estrondoso tanto quanto o orçamento.

    Por fim, cinema é entretenimento e isso as mosquinhas proporcionam. E que venha o novo de James Cameron, AVATAR, 3D em live-acition que só a pós produção esta levando 2anos! Vem mais uma revolução do mestre da tecnologia moderna!

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  4. A minha opinião pode ser diferente ou demasiada “rude”, mas vou ser sinsera, estou bastante desiludida com esta animação!!
    Foi a primeira animação pela qual sai sem ela terminar. Estou chatiada pelo dinheiro que dei, porque sinseramente não vale mesmo a pena!!
    Compreendo tudo o que disseram e também que esta animação teve menos dinheiro investido que por exemplo o Wallie, mas isso não é desculpa para muita coisa!! Na minha opiniao algumas partes eram desinteressantes, chatas, aborrecidas e as personagens femininas demasiado “porno”! Desculpem mas estou mesmo a ser sinsera!! Adoro animação e estou no 2 ano e tenciono seguir e é a ver erros destes e porcarias destas que prende-se bastante.

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