Vida das Marionetes, Da

[rating:5]

“Da Vida das Marionetes” (Aus dem Leben der Marionetten, Suécia/Alemanha, 1980) surgiu durante a mais dura fase da vida de Ingmar Bergman. Na época, o cineasta sueco vinha sendo acusado de sonegar impostos no país, tendo que fugir para não ser preso. Bergman se estabeleceu em Munique, na Alemanha, onde passou a dirigir um teatro. Tomava remédios para depressão e para insônia. Péssimo momento para um ser humano comum trabalhar, mas não para Bergman. Durante a carreira prolífica, ele se tornara especialista no ato de sintetizar fantasmas pessoais em poderosas reflexões sobre os dramas da condição humana. Desta forma, transformou o próprio sofrimento em um impressionante e perturbador pesadelo sobre sexo, morte e máscaras sociais.

Por diversas razões, “Da Vida das Marionetes” jamais recebeu a merecida atenção da crítica especializada. Para começar, a própria condição de exilado limitava a participação de Bergman em festivais de lançamento. O filme também repisava temas (o medo da morte, a dor inerente à alma humana, as prisões sociais) e situações dramáticas (um casal em crise) muito comuns à obra do diretor sueco, algo que para muita gente rebaixava a obra. Foi produzido com baixíssimo orçamento, sendo lançado sem badalação. Adotava o formato “quadrado” de imagem (1.33:1), como o de um aparelho de televisão tradicional, o que reduzia as chances de ser exibido em circuito amplo de cinemas. Por fim, o próprio cineasta já acalentava a idéia de aposentadoria, o que lhe levava a ser visto por cinéfilos de todo o mundo como um diretor ultrapassado, um dinossauro que não tinha mais nada de novo a dizer.

Uma pena, porque filmes como “Da Vida das Marionetes” são raros até mesmo na obra de um cineasta prolífico e intenso, como Bergman. Neste longa-metragem radical, o mestre sueco realiza um desejo que já perseguia há décadas: um estudo minucioso sobre um ato de extrema violência, cometido por uma pessoa comum, durante um curto-circuito emocional. O protagonista é Peter (Robert Atzorn), um empresário rico e bem-sucedido, que vive um casamento aparentemente perfeito com a fotógrafa de moda Katarina (Christine Buchegger). Logo no princípio do filme, num extravagante prólogo dominado pela cor vermelha – quem conhece Bergman sabe o quanto esta cor é importante em um filme dele – Peter mata uma prostituta e faz sexo anal com o cadáver.

A partir daí, Bergman subtrai a cor e inicia um poderoso estudo deste ato, em uma narrativa não-linear que salta do passado para o futuro, oferecendo vislumbres da investigação do crime e da vida íntima de Peter, além de uma seqüência de sonho. Ouvimos amigos e parentes de Peter. Vemos flagrantes da intimidade do casal. Aos poucos, as máscaras sociais vão caindo, e descobrimos a verdade sobre Peter e Katarina: um casal emocionalmente impotente, acometido pelo tédio e pela insônia, que nutre uma relação destrutiva de dependência mútua. Algum tempo depois, o próprio diretor diria que “Da Vida das Marionetes” era uma tentativa de estudar as emoções primais de um indivíduo, removendo aos poucos cada camada de proteção que ele ergueu, durante toda a vida, entre ele a sociedade. Ocorre que Bergman faz isso não como um médico-legista, mas como um psiquiatra. Ele não mexe em carne morta, mas em tecido vivo, como se fosse um cirurgião cerebral que opera sem anestesia.

Cada uma das seqüências deste filme, uma mais incrível do que a outra, provoca uma onda de choque genuíno nos espectadores. Desarmados, somos apresentados a Peter e então submetidos a seguidas provas de empatia para com um personagem que, a princípio, julgávamos alguém cruel e desalmado. Mas Peter não é um assassino de filme de suspense. Ele é alguém como eu e você. Uma pessoa comum: inteligente, espirituoso, bem-educado, tímido, calado. Alguém taciturno e dominado por tensões que, devido a uma rara e complexa conjunção de fatores, acaba dobrado pelos traumas da própria psique. Cada uma das cenas deste filme magnífico ajuda a construir um retrato intrincado do movimento interno de Peter, até o perfeito golpe final do cineasta. No epílogo circular, quando Peter mata a prostituta, não apenas o compreendemos, como entendemos e até justificamos o ato assassino. Apreciar “Da Vida das Marionetes” é contemplar, de mãos amarradas, os horrores da nossa própria humanidade.

Entre tantos momentos primorosos do roteiro, um é a chave para desvendar os mistérios do filme. O monólogo proferido pelo amigo Tim (Walter Schmidinger), sobre si mesmo, diz o seguinte: “Há forças que me movem e que não consigo controlar. Médicos, amantes, comprimidos, drogas, álcool, trabalho. Nada ajuda. São forças secretas. Têm nome? Não sei. Talvez seja o processo de envelhecimento. Não tenho controle sobre essas forças. Eu me aproximo do espelho e olho para a minha cara, que se tornou tão familiar. E chego à conclusão de que esta combinação de carne, sangue, nervos e ossos reúne duas pessoas incompatíveis. De um lado, o sonho de intimidade, de ternura, interesses comuns. Do outro a violência, a obscenidade, o horror e a morte. Às vezes penso que têm a mesma origem. Não sei. Como poderia saber?”. Quantos cineastas na história do cinema seriam capaz de escrever algo com tanta força, verdade e poesia?

Pouco conhecido até mesmo pelos fãs do cineasta sueco, “Da Vida das Marionetes” foi lançado no Brasil em DVD pela Versátil. A cópia tem boa qualidade de imagem (fullscreen 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 1.0, em alemão).

– Da Vida das Marionetes (Aus dem Leben der Marionetten, Suécia/Alemanha, 1980)
Direção: Ingmar Bergman
Elenco: Robert Atzorn, Christine Buchegger, Martin Benrath, Walter Schmidinger
Duração: 104 minutos

10 comentários em “Vida das Marionetes, Da

  1. Me encontrei com teu site. Curioso foi saber que no seu TOP 10 tem algo de Bergman; o meu é – quase – Ele. A verdade é que meu cineasta predileto é, ainda, Scorsese. Nem gosto muito das histórias que ele conta (a exceção é para A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO), mas, como ele conta… O prazer estético de assisti-lo é único, sem adjetivos. Mas foi quando conheci Bergman (que foi com O SÉTIMO SELO) que me deixei convencido de que o cinema poderia ‘não dever’ à literatura – sempre achei o contrário. O que quero dizer é que com/em Bergman o cinema pode ser uma arte onde se vai quando buscando sabedoria. Talvez você vá dizer que eu não entenda – dos outros cineastas – a sutileza que há em grandes outros filmes, mas tomando em exemplo o diálogo que você citou, o que tento dizer é que a profundidade que Bergman concebia seus filmes antes eu só consegui encontrar em Shakespeare, Nietzsche, pra citar dois exemplos grandes e conhecidos (se não estou certo assim, pelo menos devo dizer que foi Bergman quem me fez ver algo daquilo que deixa nossas cabeças um tanto maiores também no cinema). E em quesitos técnicos Ele também é admirável, não? Digo: no que toca o cinema enquanto arte. A iluminação em seus filmes… A criação de imagem, enquadramentos primorosos… E pensar que Ele fazia suas sempre obras primas duas num ano (um caso é o de O SÉTIMO SELO e MORANGOS SILVESTRES, apesar de saírem um, um ano depois do outro). Chamá-lo de gênio pode ser lugar comum, mesmo acrescendo como sendo, Ele, dos de primeira grandeza, mas, pra mim, é o único modo de reconhecer esse talento assaz imenso, arrebatador (que até meio me arrebatou de Scorsese!).

    Ah, belo site. Gostei, também, das críticas que li (e uma delas não foi DIGAM O QUE DISSEREM – rs!). Vou tentar encontrar um modo de assistir a TRÊS HOMENS EM CONFLITO. Você pode querer não acreditar – e tem aí suas razões (como aqui tenho as minhas), mas ainda não assisti ao Leoni, a não ser uns trechos/ trailers. Uns em suas aulas (como uma abertura com uma lentidão demais intensa).

    Curtir

  2. Outra palavrinha… Acho que não consegui dizer bem, mas é que a lentidão de Leoni me encantou; mesmo. Ainda não tinha visto uma cena que mesmo tão lenta me prendesse tanto a atenção… Por isso intensa. Bergman talvez seja ainda mais lento, mas se bem entendo está em um outro estágio… O filosofismo existencialista dele me arrebata, acho que por isso percebo menos sua lentidão, mas não que eu não goste de narrativas mais arrastadas… Às vezes as acho ainda mais poéticas… Ou talvez sejam as de hoje aceleradas…

    Curtir

  3. E aí, Rodrigo, como vão as coisas? Então assisti “O Silêncio” de Bergman por esses dias e li a crítica de Roger Ebert pra tentar entender esse filme melhor. Aí procurei uma crítica sua e não achei. Afinal, qual é a sua visão sobre “O Silêncio”?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s