Speed Racer

[rating:3]

Durante pouco mais de 30 anos, a Warner manteve Stanley Kubrick sob contrato, dando-lhe liberdade criativa e dinheiro para que ele pudesse construir a reputação de gênio do cinema. Depois que o nova-iorquino morreu, em março de 1999, o estúdio não demorou a eleger os irmãos Larry e Andy Wachowski como sucessores. A dupla, então louvada tanto por doutores em Física Quântica quanto por nerds fãs de quadrinhos, aceitou de bom grado a nova posição, adotando comportamento idêntico ao do diretor de “Laranja Mecânica”: projetos cujos desenvolvimentos levam anos a fio, raríssimas aparições públicas ou entrevistas. Ambicioso em técnica e oco em densidade dramática, “Speed Racer” (EUA, 2008) falha na tarefa de estabelecer os dois irmãos como a versão 2.0 de Kubrick. Apesar das aparências, Larry e Andy conseguem ser, no máximo, uma versão infantilizada, espalhafatosa e com a cuca cheia de ácido lisérgico do grande realizador.

A versão em carne, osso e CGI do lendário desenho animado japonês foi cuidadosamente concebida para, entre outras coisas, consolidar a posição de renovadores da linguagem cinematográfica dos Wachowski, conseguida com a trilogia “Matrix” (1999-2003). Larry e Andy levaram cinco anos para desenvolver o projeto, temporada interrompida apenas por correções anônimas em scripts alheios (“Os Invasores”) e para a confecção do roteiro da distopia futurista “V de Vingança” (2005). Nesta temporada de reclusão, os Wachowski não deram nenhuma declaração pública. Eles foram menos lembrados na mídia por seus dotes cinematográficos do que pelos rumores cada vez mais insistentes de que Larry, outrora o mais falante dos dois, teria feito cirurgia para mudança de sexo (a Warner nega, mas as fotos das raras aparições do cineasta não deixam dúvida quanto ao aspecto feminino do rapaz).

Se o comportamento recluso de ambos lembra Stanley Kubrick, o trabalho permanece muito distante da altíssima e uniforme qualidade apresentada pelo diretor de “2001” em toda a carreira. “Speed Racer” deixa de lado o subtexto filosófico-religioso da ambiciosa trilogia cibernética e assume, sem constrangimento, a pecha de diversão escapista do século XXI para toda a família. Os dois projetos não poderiam ser visualmente mais distintos. “Matrix” tinha preocupação com o realismo e imaginava um futuro sombrio, negro, para a humanidade. “Speed Racer” aposta na estilização extravagante da realidade, criando um universo multicolorido e extravagante, que tem as cores chapadas e sem profundidade de um gibi impresso em gráfica vagabunda. Larry e Andy Wachowski dizem que a intenção era criar uma espécie de desenho animado com atores de carne e osso, e isso foi cumprido. O problema é que o cartoon de carne e osso dos Wachowski é brega e kitsch até o último fio de cabelo.

O ponto em comum entre a obra pregressa da dupla e “Speed Racer” parece ser a inovação tecnológica. Desde o primeiro “Matrix” (1999), os Wachowski ganharam fama de sempre elevar a tecnologia de CGI, a cada nova obra, até um novo patamar. Para “Speed Racer”, eles investiram na criação de um sistema de foco em camadas, nos cenários digitais, que emulasse a ausência de profundidade de um desenho animado tradicional – a preferência por cores básicas e chapadas, flat, enfatiza essa aparência 2D. O bom elenco reunido por eles gravou todas as cenas em estúdio forrado de paredes azuis, e todos os sets e objetos cênicos foram criados em computador, técnica usada em filmes como “Capitão Sky” e “Sin City”. A diferença para estes filmes é que os Wachowski investiram na criação de um universo psicodélico, com profusão de cores berrantes (púrpura, vermelho, azul, amarelo) e luzes fluorescentes.

Aliada à montagem hiper-veloz e aos efeitos sonoros bombásticos, esta técnica deixa o espectador com a impressão de estar preso dentro de uma máquina de pinball. As extensas cenas de corrida de carros, que também desprezam o realismo (os veículos pulam como sapos, escalam paredes como aranhas e giram em torno do próprio eixo, como robôs desgovernados), são bem produzidas, mas não prezam pela clareza narrativa, de modo que a platéia quase sempre fica desorientada em relação à ação dramática – os corredores sabem, mas nós nunca sabemos direito quem está na frente e qual a posição de um corredor em relação aos demais, de modo que só nos resta esbugalhar os olhos e torcer para não ter um ataque de epilepsia, enquanto as luzes estroboscópicas giram em velocidade estonteante à nossa frente. Frequentemente, a reação acaba sendo algo como “Nossa, que troço colorido! O que diabos estou vendo mesmo?”.

A estética do filme, apesar dos exageros, é um ponto forte, porque original. O enredo, por outro lado, deixa muito a desejar. A história mantém fidelidade às tramas do desenho dos anos 1970, e consegue abrir espaço para temas importantes da obra de Larry e Andy Wachowski – a questão do excesso de imagens do mundo contemporâneo, as múltiplas identidades do sujeito pós-moderno, a ganância das corporações – mas não subtexto emocional nenhum. É um filme sem alma, oco e chapado, assim como o visual. Os irmãos Wachowski até tentam, mas não conseguem explorar o potencial dramático da história, em que Speed Racer (Emile Hirsch) é um promissor piloto de corridas que hesita em assinar contrato com uma grande fábrica de automóveis, e prefere participar de corridas perigosas com um carro construído pelo próprio pai (John Goodman). A trama inclui um misterioso corredor mascarado (Matthew Fox), que pode (ou não) ter ligação com um trauma familiar do passado.

Embora seja certinho e simpático, o personagem principal jamais consegue criar laços fortes de empatia com a audiência. Como o filme privilegia as longas cenas de ação, os conflitos emocionais experimentados pelo corredor não são bem elaborados, e não chegam a cativar. A culpa pode ser debitada ao roteiro frágil e sem substância dramática, pois o elenco se sai muito bem, apesar da conhecida e compreensível dificuldade que os atores têm para contracenar com paredes azuis. Hirsch e Goodman, ao lado de Christina Ricci (que faz a namorada do herói) parecem bem naturais, e se beneficiam do fato de terem mais tempo em cena, algo que prejudica Susan Sarandon (mãe do clã Racer). Há ainda o irmão gorduchinho do protagonista e o macaco de estimação da família, uma subtrama claramente inserida para atrair a garotada jovem ao cinema, mas que repete um clichê insuportável das aventuras infanto-juvenis de Hollywood: crianças pequenas e animais de estimação são sempre utilizados como contraponto cômico para as cenas de voltagem mais elevada. Com US$ 100 milhões, os Wachowski podiam ter feito muito melhor.

A edição nacional do DVD, da Warner, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e dois featurettes enfocando os bastidores da produção.

– Speed Racer (EUA, 2008)
Direção: Larry e Andy Wachowski
Elenco: Emile Hirsch, Matthew Fox, Susan Sarandon, John Goodman
Duração: 129 minutos

7 comentários em “Speed Racer

  1. corcordo com sua crítica Rodrigo, mas sou mais generoso com os W.brothers por alguns motivos:
    -O filme é autoral;
    -mais uma vez eles ousaram, muitas cores;
    -os efeitos surpreendem novamente;
    -sou fã do desenho… kkk!
    creio que o grande erro foi ter infantilizado demais o filme p ganhar público, o tiro saiu pela culatra!
    mas, se tivesse a meia estrela eu teria ficado com 3,5 mesmo…

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  2. Sou fã do site, é uma das minhas principais fontes de informação sobre filmes.
    Porém tenho uma critica, o mecanismo de busca esta mto aquem da qualidade dos textos e do tamanho do acervo. Eu gostaria de ler a critica sobre o filme “Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio”. E não sei nem ao menos se vcs a fizeram, uma vez q o mecamismo de busca do site é realmente bastante deficitário.
    Bem amigos, espero que vcs acertem esse detalhe, se possivel me mandem link desta critica.
    Abraços!

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  3. Iaete, não escrevi sobre esse filme não. Nunca o vi (só vi mesmo o primeiro filme da série).

    Vamos trabalhar no sistema de busca nas próximas semanas. É importante observar que o sistema de buscas é um dos maiores (talvez o maior) problemas do WordPress. Já experimentamos todos os sistemas disponíveis e estamos usando o mais eficiente.

    Vou escrever sobre isso no blog mais tarde. Obrigado pelas observações.

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  4. Ta otimo cara! Brigado.
    realmente o sistema de buscas é problemático, recorre sempre aos teus textos quando qero informação sobre algum filme, e mtos filmes eu descobri lendo os textos daqui.
    Por isso uso bastante o mecanismo de busca.
    Ah… já ia me esquecendo, o layout do site ta mto bacana, bem mais clean e gostoso de ler. Parabéns!

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  5. Em primeiro lugar, parabéns pela sua grande retórica ao falar dos filmes. Pela bagagem que carrega ao falar sobre diretores e atores dá a impressão que já nasceste antes mesmo do cinema existir.
    1 – Para Rodrigo Carreiro eu marco 5 estrelas. 2 – para o novo layout do site dou 4 porque sinto falta das imagens, embora para muitos que ainda usam internet discada pode ser que tenha otimizado o carregamento das páginas. Acrescento ainda que, minha net é 4Mb e eu particularmente acho que as páginas estão mais demoradas de carregar. 3 – E por fim, dou 1 estrela para o sistema de busca. Como o sistema de busca do site sempre deixou a desejar (exemplo: se meio do nome do filme que estamos pesquisando tiver uma preposição “DE”, o sistema lista todos os filmes que tenha a dita cuja, não só nos títulos, como também nos comentários. É LAMENTÁVEL!). Sendo assim achei péssima a decisão do Web Designer de prescindir da relação em ordem alfabética, onde acharía-mos com muito mais facilidade o que procuráva-mos, pois no novo sistema de busca por ordem alfabética, lista mais de 100 páginas. Em qual página está os filmes que começam com a letra “L”. É uma via dolorosa navegar um monte de páginas para podermos encontrar os filmes com a tal letra.
    CONCLUSÃO: É possível melhorar.

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  6. Will, obrigado pelo elogio e pela crítica construtiva. Com certeza vamos utilizar essas informações para ir melhorando o site aos poucos. Tenho alguns pontos a observar: 1) A ausência de imagens é culpa da minha falta de tempo para tratar e publicar imagens. O site permite a publicação de quantas fotos eu quiser em cada matéria. Não faço isso porque prefiro usar o pouco tempo disponível escrevendo mais textos. 2) Falei bastante sobre os testes com sistemas de buscas no blog, mas estamos usando o melhor sistema disponível atualmente no WordPress. O próprio Google se mostrou uma opção menos eficiente para o site. 3) A ordem alfabética está disponível (veja no final da página de cada categoria). O que não existe mais é a opção de escolher uma letra específica do alfabeto para navegar. Vou tentar descobrir uma solução para esse problema.

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