Caçadores de Emoção

[rating:3]

Kathryn Bigelow seria uma diretora ao mesmo tempo abençoada e injustiçada, se tal condição fosse possível. Abençoada porque poderia ter passado a vida inteira dirigindo videoclipes se não tivesse casado com um peso-pesado de Hollywood – ela foi mulher de James Cameron (“Titanic”) entre 1989 e 1991. Por outro lado, mesmo tendo conduzido projetos interessantes quando escudada pelo ex-marido e parceiro criativo, jamais ascendeu ao primeiro escalão dos cineastas especializados em filmes de ação. E filmar aventuras é algo que Bigelow sabe fazer com perícia, como prova o eficiente “Caçadores de Emoção” (Point Break, EUA, 1991).

O longa-metragem foi o primeiro fruto da parceria entre a diretora e Cameron. O cineasta, já respeitado graças à série “O Exterminador do Futuro”, criou o argumento e produziu a aventura para a então esposa. O roteiro consegue a proeza de unir dois temas aparentemente inconciliáveis – esportes radicais e assaltos a banco – ao imaginar a existência de uma quadrilha de assaltantes profissionais que pratica delitos criminosos para sustentar o caríssimo hobby esportivo de seus integrantes: viajar ao redor do mundo em busca de ondas perfeitas. A profusão de seqüências enfocando práticas esportivas, bem filmadas e bem editadas, gera um elemento a mais de interesse para cinéfilos que gostem de surf e pára-quedismo.

A história em si é bem interessante. A narrativa segue a investigação promovida por Johnny Utah (Keanu Reeves), agente novato do FBI, encarregado de se infiltrar na comunidade de surfistas da Califórnia (EUA), após cresceram as suspeitas de que os criminosos pegam onda. O rapaz sofre um bocado para se adaptar às gírias e ao jeito agressivo dos surfistas, mas tem o trabalho facilitado depois de conhecer uma garçonete (Lori Petty) que lhe ensina as manhas do oceano. De quebra, ela o apresenta a Bodhi (Patrick Swayze), espécie de guru espiritual dos surfistas da região e craque das pranchas. A filosofia libertária do galego faz Johnny questionar se sentir atraído pelas idéias, e o policial começa a questionar seu próprio estilo de vida.

A diretora faz um excelente trabalho nas seqüências de ação. Há pelo menos duas delas, ambas longas, bem editadas e eletrizantes. A primeira, mais ou menos na metade do filme, mostra uma perseguição a pé, e está pelo menos 10 ou 15 anos à frente do que se fazia em 1991. Bigelow filma toda a perseguição em ângulo subjetivo, com câmera na mão, e a edição frenética do material obtido garante uma cena extremamente tensa e empolgante, antecipando o que Paul Greengrass faria, uma década depois, na série “Bourne”. Na outra seqüência de destaque, que é convencional mas bem feita, Utah pula de um avião sem pára-quedas para capturar um bandido. As seqüências de surf também dão para o gasto, embora qualquer um que surfe de verdade possa perceber que as tomadas obtidas dentro d’água são utilizadas com abundância para esconder o fato de que não são os atores quem estão no mar, nos dias de ondas realmente grandes.

Pode-se argumentar, com razão, que a trama é pouco original e facilmente antecipável – qualquer cinéfilo com alguma quilometragem vai sacar em poucos minutos a identidade dos assaltantes e o destino da conturbada relação entre Utah e a garçonete bonitinha. Porém, na verdade, a história importa menos do que a interessante relação de amor e ódio que se estabelece entre os personagens principais. A diretora sugere que os dois são yin e yang, dois lados de uma mesma moeda. Aliás, o espectador mais atento não pode deixar de notar a enorme semelhança entre o esqueleto narrativo de “Caçadores de Emoção” e o roteiro final de “Fogo Contra Fogo”, o excelente policial/estudo de personagem feito por Michael Mann, quatro anos depois.

A diferença crucial está no público-alvo que os dois filmes pretendiam atingir. A platéia do longa de 1991 é mais jovem, e por isso Kathryn Bigelow prioriza a ação física à psicológica, deixando de explorar as nuances emocionais da relação complexa entre os dois homens e preferindo se concentrar em tiroteios e correria. “Caçadores de Emoção” também conta com trilha sonora recheada de bandas de glam rock, e o astro Anthony Kiedis (vocalista do Red Hot Chili Peppers) faz uma ponta. A subestimada atriz Lori Petty, bonita como nunca, ilustra o tipo predileto de personagem feminina dos filmes da diretora: atlética, birrenta e um tantinho masculina. Para registro, é importante observar que o filme representou, para Keanu Reeves, o início da ascensão para o mega-estrelato.

“Caçadores de Emoção” está disponível em DVD numa edição regular. Não há nenhum extra além do filme, que conta com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio razoável (Dolby Digital 2.0). A edição norte-americana traz oito cenas cortadas, quatro featurettes sobre aspectos da produção e uma galeria de imagens, além de áudio em seis canais (DD 5.1).

– Caçadores de Emoção (Point Break, EUA, 1991)
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Keanu Reeves, Patrick Swayze, Gary Busey, Lori Petty
Duração: 120 minutos

5 comentários em “Caçadores de Emoção

  1. Sem discordar, de uma maneira geral, de sua critica, Rodrigo, afirmo, no entanto, que o filme foi por você subestimado. Apesar das suas limitações, decorrentes de ter sido um filme produzido voltado especificamente para o publico jovem (limitações que você assinala com propriedade em sua critica), o filme de Bigelow tem um vigor, criatividade e frescor (no sentido de transpirar juventude) que o elevam ao patamar de um dos melhores filmes americanos do final do século passado. De quebra possui uma dose de adrenalina até então raríssima no cinema (e hoje vulgarizada e usada de maneira exagerada e de forma geralmente mediocre) e mistura de forma curiosa uma versão simplificada (bem surfista) da filosofia contemplativa oriental com um existencialismo nihilista de ação e emoção na fruição do momento presente (principalmente na figura do surfista / assaltante bem interpretado pelo recentemente falecido Patrick Swayze).
    Você esqueceu de assinalar que, apesar de ser tremendamente adequado para o papel, Keenu Reeves mesmo assim conseguiu as vezes tropeçar em suas grandes limitações como ator, prejudicando um pouquinho o todo do filme.
    Acredito que Bigelow é uma sólida cineasta muito injustiçada pela indústria hollywoodiana (opino que Mary Harron e Mimi Leder, entre outras cineastas mulheres no mínimo competentes, são também injustiçadas). O refugio delas para terem trabalho são as produtoras de seriados para a televisão, conseguindo trabalhar no cinema apenas esporádicamente.

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  2. Esqueci de comentar que as cenas de surf criticadas como apenas corretas são, para os recursos técnicos da época, bastante boas. Com os recursos técnicos de hoje (inclusive computação gráfica) Bigelow realisaria certamente sequências espetacurlamente eletrizantes.

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  3. Gosto do filme, Fernando, mas “um dos melhores filmes americanos do final do século passado” é, para mim, um enorme exagero. Enorme. O filme é legal, divertido, bem filmado e antecipa algumas técnicas que depois se tornariam muito comuns. Isso tudo está dito na crítica. Mas realmente não acho que vá muito além disso. Quanto às cenas de surf, te digo que nunca vi um filme de ficção com cenas de surf bem editadas até hoje. Este filme não é exceção. Embora faça sete anos que não pegue uma prancha, eu surfei durante 15 anos e sei do que estou falando. Botar computação gráfica nessas cenas seria um desastre, pode acreditar.

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  4. Considero este filme um dos melhores da década de 90. Já vi várias vezes e em todas elas ele me transmite uma sensação de novidade e prazer nas cenas de surf e de ação. Parece que é real. Realmente a atriz Lory Petty merecia maior destaque na carreira, já que não a vi mais em outros filmes. Devo informar, também, que este filme sempre salva as tardes modorrentas desta TV a cabo cara e ridícula do Brasil.

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