Corrida Sem Fim

[rating:4.5]

Nenhum personagem tem nome. Nos créditos de abertura de “Corrida Sem Fim” (Two-Lane Blacktop, EUA, 1971), os quatro personagens principais são definidos por expressões iniciadas com letras maiúsculas, como cartas do tarô: O Motorista (James Taylor), O Mecânico (Dennis Wilson), A Garota (Laurie Bird) e G.T.O. (Warren Oates). Esta ausência de nomes próprios, obviamente, não é gratuita. Ela é a chave para compreender o road movie existencialista de Monte Hellman, um filme quase mudo, com enredo mínimo, em que os protagonistas praticamente só falam sobre carros – muitas vezes usando a linguagem cheia de gírias dos especialistas, incompreensível para o resto de nós – e se movem constantemente, mais e mais, sem nunca parar. Eles são como tubarões. Se parassem, morreriam. O movimento é parte fundamental de suas vidas.

A recusa em nomear os protagonistas é a senha para a interpretação correta das intenções de Monte Hellman (o diretor) e de Rudy Wurlitzer (o roteirista). Os dois não conceberam “Corrida Sem Fim” como uma saga de personagens, uma história com começo, meio e fim. A história é uma parábola e os protagonistas, emblemas. Por isso não recebemos nenhum dado sobre os perfis de cada personagem. Não sabemos quem são nem de onde vêem. A estrutura narrativa foi planejada como uma grande metáfora para a geração hippie. O filme, aliás, radiografa com bastante precisão o momento histórico singular em que a ação dramática se localiza – a virada entre as décadas de 1960 e 70, nas estradas norte-americanas. Aquele foi um instante único na história dos Estados Unidos. As drogas, a liberdade sexual, a guerra do Vietnã e a explosão do rock’n’roll aplicaram ao país um choque cultural considerável. Sem lidar diretamente com nenhum desses temas, Monte Hellman realizou uma reflexão pungente sobre o estado de espírito da juventude durante aquele momento.

Em estética, “Corrida Sem Fim” se aproxima bastante dos melhores trabalhos concebidos pelos pirralhos que mudavam a cara de Hollywood naquele mesmo momento. O filme tem parentesco evidente com “Sem Destino” (1969) e “Cada um Vive Como Quer” (1970). As canções na trilha sonora são puro rock’n’roll lisérgico e libertário (The Doors, uma versão riponga do clássico “Madeleine”, de Chuck Berry). As locações consistem de postos de gasolina, lanchonetes e motéis de beira de estrada. Hellman trata com respeito a subcultura dos amantes de carros (os figurinos sujos de óleo, o vocabulário e os veículos garantem o selo de autenticidade), mas não mergulha nela com interesse antropológico. O fio condutor do enredo não é a trama ou a ambientação, mas os protagonistas. A câmera de Hellman segue os quatro sem julgá-los. Apenas acompanha a jornada sem sentido do quarteto.

O Motorista e o Mecânico são amigos sem lar. Eles possuem um Chevy 55 turbinado, e vivem na estrada. Pulam de cidade em cidade, participando de corridas clandestinas e arrecadando o suficiente para ir até a cidade seguinte. Não há intimidade entre ambos. Eles conversam, mas quase sempre sobre carros ou aspectos burocráticos do cotidiano – onde abastecer o veículo, o que comer, para onde ir. Durante uma das paradas para abastecer, A Garota entra no carro vazio e senta no banco traseiro. Ela tem uma mochila, e acaba de ser deixada no posto por um carona. Quando terminam de comer, os dois rapazes voltam para o carro e caem na estrada novamente. Eles percebem que há uma garota no carro, mas nem olham para ela direito, e nem lhe perguntam nada. Todos se reconhecem como integrantes da mesma comunidade de andarilhos. É o bastante.

Mais à frente, o trio encontra G.T.O num posto de gasolina. Este novo personagem é um pouco diferente. Mais velho e falante, o sujeito dirige um Porsche amarelo, usa luvas de motorista e está fazendo o mesmo caminho que eles, já que os dois automóveis vêm se cruzando há dias pelas mesmas estradas. Do encontro casual sugere uma estranha aposta: os dois automóveis devem dirigir até Washington, capital do país. Quem chegar primeiro ganha o outro carro. O que se segue, porém, não é a corrida sem fim que o equivocado título em português sugere, mas uma outra corrida, de natureza bem mais diáfana e ambígua. Uma corrida existencialista, na qual a competição é a última coisa em que os participantes pensam.

Entre paradas para consertos mecânicos e ovos cozidos, cafés e provas de rua para ganhar o pão de cada dia, o quarteto estabelece uma relação a quatro, de teor não-sexual, que funciona sem a necessidade de palavras. Logo, o espectador compartilha com eles a indefinição sobre o futuro da competição original (“ainda estamos disputando a corrida até Washington?”, pergunta um dos personagens, a certo momento). Os mais atentos já terão notado, a essa altura, que o filme de Monte Hellman não é sobre uma corrida, mas sobre toda uma geração sem rumo, para quem nada parece fazer sentido, a não ser o movimento perpétuo, intrínseco à própria vida. “Corrida Sem Fim” amarra este raciocínio com um final ambíguo, metalingüístico e poético, bem ao gosto de Monte Hellman (basta lembrar de “O Tiro Certo”).

A seqüência final de “Corrida Sem Fim” foi, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. Em 1971, o longa-metragem foi enterrado pela Universal porque os executivos da empresa não conseguiam entendê-la. Como Hellman se recusava a mudar a última cena, os chefões do estúdio arremessaram o filme no circuito de drive-ins do Estados Unidos, sem qualquer tipo de publicidade, em uma estratégia que decretou o fracasso comercial da obra. Aos poucos, porém, “Corrida Sem Fim” foi sendo reabilitado por fãs famosos, como os cineastas Richard Linklater e Quentin Tarantino, em grande parte por causa do charme rústico do final obscuro. Acabou se tornando um cult movie. É um prato cheio para amantes dos filmes idiossincráticos sobre gente anônima, influenciados pela Nouvelle Vague francesa, que a turma jovem de Hollywood andou produzindo naquele momento único da história americana.

O filme não foi lançado em DVD no Brasil. A melhor edição disponível no mercado norte-americano carrega o selo da Critério Collection. É um disco duplo, com excelente qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) – a restauração foi supervisionada pelo próprio Hellman. O pacote traz comentários em áudio do diretor e do roteirista, documentário mostrando Hellman visitando as locações após 35 anos (43 minutos), uma conversa entre o diretor e James Taylor (38 minutos), outra com Kris Kristofferson (27 minutos), entrevistas com membros da equipe criativa (23 minutos), testes do elenco (10 minutos), um trailer e um libreto contendo o roteiro completo, três artigos analisando o filme (um deles assinado pelo diretor Richard Linklater) e uma longa matéria sobre os bastidores da produção, publicada originalmente em 1971 pela revista Rolling Stone.

– Corrida Sem Fim (Two-Lane Blacktop, EUA, 1971)
Direção: Monte Hellman
Elenco: Warren Oates, James Taylor, Danny Wilson, Laurie Bird
Duração: 102 minutos

8 comentários em “Corrida Sem Fim

  1. Caro Rodrigo, o motor do Chevy 55´ não é turbinado, trata-se de um Big Block 454(original do Chevelle) com dois carburadores quadrijet e um coletor alongado.

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  2. G.T.O. não é o nome do personagem, refere-se ao nome do carro que ele dirige, um Pontiac GTO laranja e não um Porche amarelo. Sugiro que pesquise mais sobre o filme e época, pois para se escrever sobre é necessario ter conheçimento. E como muitos, acredito que o filme não trata apenas de mostrar uma juventude sem rumo.

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  3. Cleber, não acho que seja necessário lembrar, mas vamos lá: não sou crítico de automóveis, sou crítico de cinema. As pessoas que visitam o Cine Repórter não esperam descrições impecáveis de peças de carro, mas impressões consistentes (e subjetivas, sempre) de filmes. Foi o que fiz neste texto, apesar dos erros factuais que você aponta – e que, como para mim não têm a menor importância, nem farei questão de corrigir.

    Eu sei que o personagem de Warren Oates não tem o nome citado no filme, e que GTO é o modelo do carro. Mas nos créditos de abertura, assim como na página do filme no IMDb, o personagem está listado dessa forma. Simples assim.

    Por fim, um conselho: mostrar conhecimento (com C) sempre causa ótima impressão quando se fala sem arrogância.

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  4. G.T.O. é usado como nome do carro que Warren Oates dirige. Aí chamam ele pelo carro.

    Na verdade o filme é isso tudo que a crítica disse, e mais um pouco. Obra-primíssima!

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  5. Acabei de assistir o filme, lógico que a internet colabora e muito, pois não conhecia esse filme, aliás atualmente sites gringos são minha maior fonte de pesquisa, e o IMDb me dá uma cordenada precisa.

    O filme é fantástico, brilhante, como já foi dito sua crítica reflete grande parte da impressão do filme, uma grande crítica, um grande filme.

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  6. Warren Oates, cartão de visitas do gigante Sam Peckimpah.Que critica fundamentada, obrigado Rodrigo.
    Tenho o privilégio de ainda não ter assistido, será providenciada a aquisição da pelicula.

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