Fuga de Nova York

[rating:3]

Embora não seja o melhor, “Fuga de Nova York” (Escape from New York, EUA, 1981) certamente carrega o título de mais conhecido filme dirigido por John Carpenter. Na ocasião do lançamento original, o longa-metragem alcançou a maior bilheteria de uma produção com a assinatura do diretor. Além disso, logrou ganhar prestígio cult nos anos posteriores, gerando até mesmo uma seqüência boba (“Fuga de Los Angeles”, de 1996). É um dos filmes de cabeceira de bons diretores de ação, como Quentin Tarantino (que escalou o ator Kurt Russell em “À Prova de Morte” como homenagem) e James Cameron. Este último chegou até mesmo a trabalhar na produção, integrando o time responsável pelos inéditos efeitos digitais.

Esses efeitos, que surgem em uma seqüência-chave no início do segundo ato, estão entre os principais méritos de “Fuga de Nova York”. A obra conta, como a maior parte dos trabalhos de John Carpenter, com um fiapo de trama ambientada num cenário futurista e sombrio, em que a guerra fria entre EUA e URSS recrudesceu, ao mesmo tempo em que os índices de criminalidade subiram à estratosfera no mundo ocidental. Dentro deste panorama, em 1997, a ilha de Manhattan foi transformada numa prisão federal. Quem entra no local, um amontoado de prédios semi-abandonados, cheios de lixo e gangues de desordeiros, e cercada por um muro de concreto de 12 metros, não pode sair nunca mais.

Pois acontece de o avião presidencial dos EUA cair dentro da ilha, e com o presidente (Donald Pleasance) dentro. Desesperado, o diretor da penitenciária (Lee Van Cleef) chantageia o mercenário Snake Plissken (Russell), obrigando-o a voar para dentro de Manhattan em um planador. Ele tem 24 horas para retirar o político de lá em segurança. “Fuga de Nova York” é um filme de ação, no mais restrito sentido do termo. Aqui, a ambientação distópica e sombria – obtida graças aos cenários espetaculares de Joe Alves, que flagram uma metrópole agonizante – é o elemento mais importante, acertadamente valorizado pela fotografia pesada e quase expressionista. A seqüência do vôo de entrada de Plissken na ilha, obtida com a ajuda de computação gráfica primitiva, é sensacional. A personalidade debochada do protagonista completa o espetáculo cinematográfico.

Graças ao senso de humor cínico de Kurt Russell, o mercenário se tornaria fonte inesgotável de inspiração para roteiristas de longas de ação. “Fuga de Nova York” só não atinge a perfeição porque nenhum dos encarcerados com quem o marginal convertido em salvador contracena tem um décimo do carisma dele próprio. O taxista (Ernest Borgnine) é apenas engraçadinho, o misto de filósofo com contrabandista (Harry Dean Stanton) parece mais um bêbado inofensivo, e o líder dos vilões da cidade (o cantor Isaac Hayes) não consegue passar a sensação de perigo e demência necessárias para dar credibilidade à ação dramática. Por outro lado, o clímax vibrante, a piadinha infame no final e a presença do ídolo dos faroestes italianos, Lee Van Cleef, num papel pequeno e saboroso, dão um molho extra à aventura B. Para curtir sem maiores exigências.

O DVD brasileiro, da Universal, é simples e bem fraco. A qualidade do filme em si, tanto em imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) quanto em som (Dolby Digital 5.1), não é ruim, mas o disco não contém nenhum extra. Nos EUA, a MGM lançou uma versão dupla, com dois comentários em áudio, documentário e uma longa cena introdutória (Snake Plissken roubando um banco), de 10 minutos, cortada pelo cineasta.

– Fuga de Nova York (Escape from New York, EUA, 1981)
Direção: John Carpenter
Elenco: Kurt Russell, Lee Van Cleef, Ernest Borgnine, Donald Pleasance
Duração: 94 minutos

9 comentários em “Fuga de Nova York

  1. Olá, Rodrigo!

    Discordo de você ao dizer que o filme é “Para curtir sem maiores exigências”. De fato, o John Carpenter é um cineasta B, talvez longe de cineastas cerebrais de vanguardas. Porém, ele consegue, assim como George A Romero, fazer alegorias sociais a partir de tramas aparentemente bobas e infantis. Em “Fuga de Nova York”, há uma clara crítica ao modelo político neo-liberal americano, pois assim como nos filmes de zumbis de Romero, é mostrado como uma sociedade sem Estado tranforma-se em um lugar sem regras e o ser humano fica reduzido a animais irracionais movidos por instinto. Carpenter faz outras críticas sociais em outros filmes como aos meios de comunicação em “Eles Vivem” e ao consumismo em “Cristine – O Carro Assassino”. E a maior qualidade de Carpenter é justamente essa: fazer filmes B que não subestimam a inteligência do espectador, e é isso que o torna tão cultuado entre cinéfilos que não se cansam de rever filmes como “Halloween” e “A Bruma Assassina”.

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  2. Concordo com tudo o que você falou, Leandro. Talvez precise rever o Carpenter com mais calma. Apenas acho que as alegorias sociais que ele trabalha (o mesmo raciocínio vale para o Romero) são um tanto quanto simplistas. Longe da visão de mundo mais ambivalente e complexa, por exemplo, de um Cronenberg. Mas isso, claro, é somente minha opinião.

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  3. Verdade! O Cronenberg consegue realmente fazer isso de maneira mais profunda que Carpenter e Romero: “Videodrome” é uma grande prova disso! Mas o cinema de Carpenter e Romero ainda me surpreendem pela baixa produção e pela capacidade de criar símbolos para o espectador. Acho que dentro do gênero terror, tão subestimado (culpa da própria indústria de Hollywood), os dois podem ser considerados pequenos gênios.

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  4. Ah! Só uma coisa que esqueci: fico inclusive triste em perceber que os últimos filmes de John Carpenter não tem a mesma qualidade das obras dos anos 70 e 80. Não sei se você assistiu “Fantasmas de Marte”, em que ele tenta fazer uma espécie de crítica ao imperialismo americano, mas que não funcionou. É uma pena! Gostaria de ver o Carpenter de volta ao grande estilo. Aliás, Rodrigo! Não sei se você concorda, mas você não acha que cineastas como Carpenter, Romero, Cronenberg, De Palma, Argento e Verhoeven poderiam ter um maior destaque? As vezes, sinto falta de poder ler trabalhos mais especificos sobre eles, já que a maioria das análises e pesquisas – é o normal – sejam sobre cineastas de vanguardas… Talvez seja só surto megalomaniaco de cinéfilo sobre “cineastas menores”, mas – você talvez deva concordar – os filmes produzidos por eles são embriagantes! Falou, Rodrigo! 😉

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  5. Lá vou eu de novo, sobre o mesmo assunto: só voltando ao gênero terror, seria fantástico se hoje podessem existir filmes de conteúdo mais crítico, utilizando essa temática. Sem querer comparar o Carpenter ou Romero a Wiene e a Murnau, mas o expressionismo alemão conseguiu unir o terror a profundidade de falar sobre o horror do período entre-guerras. Meu desejo era que o terror não fosse um gênero considerado estúpido e menor, como é hoje.

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  6. Leandro, novamente concordo com tudo. Carpenter deu uma bela caída nos últimos filmes (já Cronenberg saiu um pouco do horror e hoje é bem mais reconhecido). A crítica hegemônica de fato coloca o horror um pouco no segundo escalão. Mas acho que tem um pessoal jovem e talentoso escrevendo sobre filmes de horror na Internet com a maior seriedade e competência. Procura coisas como Zingu, Boca do Inferno (às vezes) e mesmo a Contracampo que você encontra boas críticas.

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  7. Caramba, esse filme é muito ruim! É tão pateta, desde as interpretações e o “roteiro” até os (de)feitos especiais, que ás vezes chega a ser engraçado. Muito tosco! Pra ver uma vez só e olhe lá! Credo!

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