Southland Tales – O Fim do Mundo

[rating:3]

Diretor e roteirista, Richard Kelly virou objeto de culto com apenas um filme no currículo, o freak show adolescente “Donnie Darko” (2001). Mostrando ter sensibilidade afinada com milhões de jovens adultos saudosos de uma adolescência perdida em algum lugar de década de 1980, Kelly alcançou fama suficiente para atrair a atenção de bons atores. Como se sabe, atores são peça fundamental na engrenagem que move Hollywood. Graças ao interesse que “Donnie Darko” despertou em gente como Sarah Michelle Gellar (a vampira Buffy da TV) e Seann William Scott (“American Pie”), Kelly conseguiu financiamento para uma ambiciosa experiência interativa que misturaria Internet, quadrinhos e cinema. Em tese, o ponto culminante da experiência deveria ser o longa-metragem “Southland Tales – O Fim do Mundo” (EUA/Alemanha/França, 2007).

Deveria. A desastrosa première mundial do filme, exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes de 2006, provocou uma reestruturação completa do projeto. A trama original previa uma história em nove partes, das quais as seis primeiras seriam lançadas como revistas em quadrinhos, com roteiro escrito pelo cineasta. Um website interativo de proporções gigantescas ampliaria ainda mais o escopo do projeto. Seria algo como uma versão turbinada do universo de “Matrix”. O fracasso inicial, porém, pôs um freio nas ambições de Kelly. A trama dos seis gibis foi desbastada até sobrarem apenas três revistas de 100 páginas cada – elas acabaram lançadas entre maio de 2006 e janeiro de 2007. Depois, o cineasta voltou para a mesa de edição, onde ficou por mais um ano e meio, retirando os excessos do longa-metragem. Ele eliminou 25 minutos da montagem original, tirou do filme meia dúzia de personagens e algumas subtramas paralelas.

Todas as alterações foram feitas para tornar a história menos confusa, mais inteligível, mais coerente, mas a estratégia não funcionou muito bem. No enorme caldeirão de influências erigido por Richard Kelly, o que mais se sobressai é o tamanho descomunal da ambição narrativa do cineasta. Ele tenta alinhavar, na mesma história, um sem-número de temas: aquecimento global, crise energética, geopolítica do petróleo, terrorismo, perda de direitos civis, reality shows de TV, teorias conspiratórias, viagens no tempo e muito mais. O todo caótico funciona como uma espécie de panorama apocalíptico da situação política internacional do mundo contemporâneo, só que filtrado pela ótica pop juvenil de um autor que certamente tem algo a dizer, mas não sabe direito como fazê-lo.

Na tentativa de dar coerência ao longa, Kelly procurou aglutinar todas as subtramas paralelas em torno de três personagens, cujos destinos se entrelaçam durante dois dias de muito calor em Los Angeles. Um desses personagens é Boxer Santaros (Dwayne Johnson), ator de filmes de ação que tem laços familiares com políticos republicanos (qualquer referência a Arnold Schwarzenegger não é mera coincidência) e sumiu misteriosamente por alguns dias, reaparecendo com amnésia. Sem lembrar de nada do próprio passado, o sujeito inicia uma relação sentimental e profissional com a atriz pornô Krysta Now (Gellar). Os dois namoram e, nas horas de folga, escrevem juntos o roteiro de um filme. O terceiro vértice do triângulo inclui, na verdade, também o quarto – eles são Ronald e Roland Taverner (Scott), gêmeos idênticos na aparência e opostos em ideologia, já que um é policial e o outro, militante neo-marxista. Uma série de outros personagens excêntricos e sem profundidade, como lésbicas esquerdistas enfurecidas e um bizarro cientista alemão (“Dr. Fantástico”?), gravitam em torno dessas três histórias.

Em entrevistas dadas para promover o longa-metragem, Richard Kelly descreve-o como um híbrido de Philip K. Dick com Andy Warhol. Acerta na atmosfera, mas erra na escala da ambição. De fato, o trabalho preserva o senso de paranóia, a preocupação com as liberdades individuais e até mesmo os flertes de Dick com rasgões espaço-temporais (característica também presente em “Donnie Darko”). Agrega a essas características o visual extravagante, as liberdades narrativas e a sexualidade andrógina do trabalho de Warhol (o bizarro número musical com Justin Timberlake confirma o parentesco). Nada disso ajuda a platéia a entender a trama. Os efeitos visuais pobres – em uma das cenas, o diretor chega a usar storyboards animados como substitutos de efeitos digitais decentes – apenas acentuam a sensação de desorientação que se tem ao assistir a “Southland Tales”.

O filme não chega a ser completamente inútil, mas demonstra claramente que o diretor ainda tem muita estrada a percorrer, antes de virar um bom contador de histórias. Mesmo tendo cortado boa parte dos elementos narrativos presentes na montagem original, o resultado soa confuso e excessivamente ambicioso. Kelly simplesmente não consegue equilibrar toda a informação produzida – quilos e quilos dela – numa narrativa minimamente coerente. E em termos puramente cinematográficos, o filme deixa muito a desejar. Um exemplo? O filme recorre a um recurso gasto e ultrapassado – as reportagens exibidas na TV e vistas também pelos personagens – para metralhar na platéia informações que tentam contextualizar o enredo, política e historicamente. É palpável a sensação de que Kelly desejava discutir, através de uma única história, um grande número de assuntos. Por causa da inexperiência, ele se excedeu na tarefa.

Há, ainda, uma tentativa evidente – e igualmente ambiciosa – de inovar a estética cinematográfica, agregando elementos das linguagens dos games e da Internet ao filme propriamente dito. Talvez por causa do longo período de gestação, “Southland Tales” acabou ultrapassado por outros filmes neste quesito (até mesmo “300”), e o resultado final acaba soando apenas confuso. Ao final das quase duas horas e meia de projeção, a platéia até que consegue ter uma vaga idéia da história como um todo, mas não consegue processar a maior parte da incrível quantidade de informação atirada na cara pelo filme. Bons contadores de história usam com freqüência um ditado frugal que anuncia: “menos é mais”. Apesar das boas idéias, Richard Kelly precisa aprendê-lo. Se conseguir dosar um pouco a nítida (e positiva) vontade de comentar sobre assuntos relevantes de forma pop e engraçada, ele poderá evoluir bastante como cineasta.

O DVD lançado no Brasil pela Universal preserva o enquadramento original (widescreen 2.35:1 anamórfico) e o áudio tem boa qualidade (Dolby Digital 5.1). O disco, simples, vem sem extras.

– Southland Tales – O Fim do Mundo (EUA/Alemanha/França, 2007)
Direção: Richard Kelly
Elenco: Dwayne Johnson, Seann William Scott, Sarah Michelle Gellar, Mandy Moore
Duração: 144 minutos

Um comentário em “Southland Tales – O Fim do Mundo

  1. Rodrigo Carreiro nos traz uma crítica bem elaborada sobre Southland Tales e o ineditismo de salientar as influências cinematográficas de Richard Kelly ao compor sua obra, enriquece o conteúdo da sua resenha. Importante notar a análise da trajetória do filme como produto e do processo pelo qual passou até chegar ao formato final em Dvd. Sou admirador de Richard Kelly e gosto de Southland Tales, portanto, tentarei explicar seu enredo.

    SPOILERS
    Após a explosão e o início da terceira guerra mundial os cientistas (e neomarxistas) estudam e descobrem uma forma de combustível alternativo, denominado carma fluído. As ondas oceânicas são a força-motriz da geringonça que produz o carma fluído. Porém, seu funcionamento acarreta a desaceleração planetária e o aparecimento de uma fenda na quarta dimensão, ou seja, uma espécie de máquina do tempo no deserto. Os cientistas enviam Boxer Santaros como cobaia da experiência, ou seja, encontrar o seu “eu” passado e futuro. O Boxer Santaros do presente é assassindo por Serpentine (a oriental namorada do Barão) e quem retorna é o Boxer Santaros “eu” do futuro. Todavia, Boxer Santaros foi conduzido ao deserto pelo policial Ronald e este entrou na fenda da quarta dimensão. Então, retornam do deserto, Boxer Santaros (do futuro) Ronald (do presente) e Roland (eu futuro de Ronald), todos com amnésia. Estes dois permanecem sob o domínio dos neomarxistas e Boxer Santaros (do futuro) sob a proteção de Krysta Now. Boxer Santaros (do futuro) escreve um roteiro para o filme denominado “The Power”, sendo divulgado pela internet e chegando as mãos dos neomarxistas (“é isto mesmo Senhor Santaros, o mundo termina exatamente como o senhor imaginou”) O roteiro descreve os acontecimentos até o fim do mundo. Roland, progressivamente vai se dando conta que é o “eu” futuro de Ronald. Percebe a necessidade em encontrar Ronald e que algo ruim está para acontecer, pois Ronald se sente culpado por desfigurar o piloto Abilene numa manobra desastrosa no Iraque. Surge uma nova droga, o carma fluído sintetizado. Desenvolvida e testada pelo Barão em soldados americanos que retornaram do Iraque e que é capaz de alterar a percepção mental de espaço e tempo. Conecta o usuário aos seus diferentes “eus” e os usuários entre si (“basta seguir o fluxo do sangue”) Roland injeta carma fluído em seu pescoço com o propósito de rastrear e encontrar seu “eu” presente, ou seja, Ronald. Enquanto isso, os cientistas revelam à Boxer Santaros, a natureza do corpo incinerado no deserto e que se encontra no Zeppelin do Barão, ou seja, um Boxer Santaros do passado. Boxer Santaros descobre que é o “eu” futuro e que seu roteiro são acontecimentos reais e previstos por ele. É revelado que a quarta dimensão entrará em colapso quando os dois “eus” do policial Ronald se encontrarem e apertarem as mãos. Os neomarxistas usaram o roteiro de Boxer Santaros para dar o golpe final no capitalismo e acabar de vez com a célula republicana. Ele escreveu o futuro e no encontro dos dois “eus” de Ronald, o furgão sobe até o Zeppelin do Barão, surgindo o momento propício para o terrorista neomarxista disparar o foguete e acabar com o capitalismo. (“e é assim que o mundo acaba, não num choro, mas numa explosão) A explosão do Zeppelin que Boxer Santaros tenta evitar no último instante, buscando evacuar o dirigível. Além disso, há um segundo plano, se o roteiro de Boxer Santaros falhasse, os neomarxistas divulgariam o vídeo de Santaros e Krysta transando para desmoralizar os republicanos nas eleições. Porém, o mundo permanece intacto perante o furgão e o aparecimento do vórtice da quarta dimensão. Consuma-se o encontro e o aperto de mão de Ronald e Roland. Os dois “eus” do policial se tornam um só e o mesmo quando o reflexo de Ronald desaparece dos olhos de Roland (“e é assim que o mundo acaba, não com um choro, mas com um aperto de mão”) Será que a quarta dimensão entrou em colapso? Será que o mundo acabou?

    CURIOSIDADES
    E curiosidades como, no início do filme, quando Roland está brincando em frente ao espelho e percebe um atraso na imagem. Dá a entender que se Roland é um “eu” futuro de Ronald, suas ações ultrapassam o presente e o diretor se vale de uma metáfora para instigar o espectador. O “eu” futuro de Ronald antecipa os próprios atos. Além do fato de Boxer Santaros ter permanecido 69 minutos no deserto com seu outro “eu” e surgir uma Proposição 69 que é defendida pelos republicanos e rechaçada pelos neomarxistas. Porém, o enredo falha em não explicar o que pensa Roland ao ver Ronald amarrado e sedado nas mãos dos neomarxistas no início do filme. Pensa ser um irmão gêmeo ou tem consciência que é seu “eu” presente? Rebekah Del Rio canta o hino americano em Southland Tales e “lla lorona de Los Angeles” em Mulholland Drive. Além da participação na Sitcom – Rabbits do próprio David Lynch, são as únicas atuações até o momento e segundo o IMDB.

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