Henry – Retrato de um Serial Killer

[rating:4]

Dá para imaginar que um filme possa demorar três anos para ser lançado, apenas porque a comissão responsável por emitir a classificação etária para exibição em um país não consegue chegar a uma conclusão sobre que tipo de público estaria apto para ver tal produção? Parece incrível, mas isso aconteceu de verdade nos EUA, entre 1986 e 1989. O longa-metragem em questão era “Henry – Retrato de um Serial Killer” (EUA, 1986), e acabou sendo arremessado em cinemas alternativos sem qualquer classificação etária. O mais incrível é que a MPAA (órgão responsável pela atividade nos EUA) sequer conseguiu, mesmo depois de tanto tempo, chegar a um consenso, de forma que não emitiu qualquer selo de classificação para o filme. “Henry” teve que ser exibido em salas alternativas, pois os cinemas comerciais de lá não aceitam passar filmes que não contenham um selo de aprovação do MPAA.

Mas o que um simples longa poderia conter para provocar reação tão descabida? Resposta: um perfil corajoso e cru de um homem perturbado, para quem o ato de matar tem o mesmo significado que comer um saco de batatas fritas. “Henry – Retrato de um Serial Killer” foi o filme de estréia do diretor John McNaughton, e se tornou uma das obras mais importantes a focalizar o submundo sádico e violento dos assassinos em série, exatamente por abordar o tema de maneira totalmente original. A abordagem é seca e documental. Não tenta glamourizar, dramatizar, explicar ou julgar os atos do assassino, mas apenas registrá-los, de forma fria e metódica, com explosões ocasionais de violência gráfica e naturalista. O resultado é mesmo perturbador, e muito bom.

A produção foi levada a cabo com um orçamento de apenas US$ 110 mil, sem o apoio financeiro de nenhum estúdio. McNaughton contou com a ajuda de uma companhia independente de atores sediada em Chicago (EUA), de onde veio a maioria dos integrantes do elenco. Para alcançar a maior sensação possível de verossimilhança, o diretor filmou em locações verdadeiras – bares de terceira categoria freqüentados por bêbados, sujos apartamentos na periferia da cidade, becos cheios de lixo – sem cair na tentação de corrigir os defeitos de iluminação. A textura das imagens é semelhante à de um vídeo amador. Isso dá ao filme um aspecto de realidade inconfundível, e torna-o ainda mais perturbador, porque provoca a sensação de que essa história poderia estar acontecendo ao lado da sua casa.

A história foi inspirada no caso real do serial killer Henry Lucas, preso alguns anos antes. O foco dramático da narrativa está na tensão sexual latente entre três personagens. O principal é Henry (Michael Hooker), para quem cometer sangrentos assassinatos é uma técnica eficiente para curar insônia. Ele divide apartamento com o ex-presidiário Otis (Tom Towles), que eventualmente presencia um dos crimes cometidos pelo amigo, e pede para que este lhe ensine a matar também. A chegada da irmã mais jovem de Otis (Tracy Arnold), fugindo do marido espancador, cria uma espécie de triângulo amoroso demente. Ela tem atração por Henry, e provoca sentimentos incestuosos e violentos em Otis. O resultado disso tudo, como não poderia deixar de ser, será um banho de sangue e corpos despedaçados.

O fascínio pela figura dos serial killers faz parte da cultura pop norte-americana, e já gerou até mesmo um gênero específico de thrillers. “Henry”, porém, não se encaixa nesse nicho de mercado. Enquanto produções como “Seven” e “O Silêncio dos Inocentes” apostam no suspense melodramático através de bem elaborados jogos de gato-e-rato, o pequeno filme independente de John McNaughton prefere fazer um estudo clínico da patologia de um assassino (o subtítulo brasileiro é bem feliz, neste aspecto), despido de emoções, e alcança um resultado impressionante. Graças ao episódio da censura e aos debates ferozes que criou em círculos cinéfilos que freqüentam salas alternativas dos EUA, a obra garantiu o status cult e gerou seguidores, como “Chopper” (1998).

Se a distribuição do filme nos Estados Unidos já foi péssima, pode-se imaginar como aconteceu no Brasil, onde “Henry” não passou nos cinemas e ganhou uma edição vagabunda em VHS. Não existe DVD nacional do longa-metragem. Uma edição especial dupla saiu nos EUA em 2001. A qualidade de imagem (fullscreen 1.37:1, formato original) e áudio (Dolby Digital 5.1) é OK. Há comentário em áudio do diretor, galerias de fotos e storyboards, um documentário sobre o filme (52 minutos), outro sobre o serial killer verdadeiro que o inspirou (26 minutos) e cenas cortadas (21 minutos).

– Henry – Retrato de um Serial Killer (EUA, 1986)
Direção: John McNaughton
Elenco: Michael Hooker, Tom Towles, Tracy Arnold, David Katz
Duração: 83 minutos

Um comentário em “Henry – Retrato de um Serial Killer

  1. Rodrigo, tá aí um dos melhores filmes sobre assassinos em série que já vi, Michael Rooker tem uma atuação impecável e concordo com você no fato do filme abordar o tema de maneira totalmente original, seca e documental. O fato dele não glamourizar, dramatizar, explicar ou julgar os atos do assassino, apenas registrá-los, de forma fria e metódica, como você bem citou, o torna uma obra indispensável para quem busca algo alternativo.

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