Espiã, A

[rating:4]

Depois de sofrer seguidas decepções no comando de grandes produções para estúdios de Hollywood, o cineasta holandês Paul Verhoeven decidiu que a melhor maneira de reciclar as energias seria voltar à terra natal e retomar um projeto acalentado durante duas décadas. “A Espiã” (Zwartboek, Holanda/Bélgica/Inglaterra/Alemanha, 2007) aborda o funcionamento da Resistência holandesa ao nazismo, aspecto pouco conhecido de um dos temas mais surrados do cinema ocidental – a Segunda Guerra Mundial –, através da narração da jornada dramática de uma bela mulher holandesa, de origem judia, tentando sobreviver ao Holocausto.

A inspiração para o longa-metragem surgiu ainda em 1977, durante as pesquisas que realizava para o filme “Soldado de Laranja”, que tornou Verhoeven e o ator Hutger Hauer (“Blade Runner”) conhecidos em todo o mundo. A idéia de contar uma história relacionada aos rebeldes que resistiram à ocupação nazista na Holanda foi acalentada durante 20 anos por Verhoeven, e enquanto o cineasta desenvolvia uma carreira explosiva em Hollywood, com filmes cheios de sexo, violência e polêmicas, o roteirista Gerard Soeteman trabalhava sem pressa na história. Foi só em 2000, após o relativo fracasso do thriller “Homem Sem Sombra”, que o diretor decidiu filmar o épico de guerra.

O filme ainda demorou sete anos para ficar pronto, devido às dificuldades de encontrar financiadores, na Europa, capazes de arcar com os 16 milhões de euros que a produção exigia. De fato, Verhoeven poderia ter eliminado tanto tempo de espera, caso houvesse procurado abrigo em algum estúdio norte-americano, mas as experiências negativas do diretor com produções em Hollywood lhe deixaram a certeza de que nenhum projeto pessoal poderia ser levado a cabo, exatamente do jeito que ele queria, caso o dinheiro envolvido viesse dessas empresas. Para viabilizá-lo, Verhoeven voltou a morar na Holanda e recusou seguidas propostas para comandar produções de ação como “Robocop” e “Instinto Selvagem”, que lhe fizeram rico e famoso.

Levando em conta essas condições de trabalho que o cineasta estabeleceu para si mesmo, é curioso que “Black Book” exiba tantos vícios do cinema norte-americano. Esses vícios incluem trilha sonora grandiloqüente, montagem veloz que privilegia momentos de ação e evita cenas de caráter mais intimista, e fotografia grandiosa, de textura épica, abusando de gruas e tomadas panorâmicas com a câmera nas alturas. Juntas, essas características imprimem ao filme o tom solene de um grande melodrama de guerra. Se o tratamento estético de “A Espiã” está bem próximo do estilo hollywoodiano de filmar, por outro lado a liberdade criativa permitiu a Verhoeven construir uma protagonista que encaixa perfeitamente no cinema explosivo e sensual do diretor.

Rachel (Carice van Houten) é uma bela jovem holandesa de classe média que tem a vida posta em xeque após a invasão da Alemanha nazista, em 1944. Separada da família e enfrentando seguidas tragédias pessoais, ela acaba se juntando a um núcleo da Resistência holandesa e passa a combater os nazistas, recebendo uma missão extremamente arriscada: se envolver sexualmente com um alto oficial alemão (Sebastian Koch) e espionar o quartel-general de Hitler, repassando informações estratégicas aos rebeldes. A história erguida por Verhoeven passa ao largo dos clichês habituais dos filmes de guerra, incluindo espiões que trabalham para os dois lados, traidores misteriosos, nazistas de boa índole e até mesmo falsos heróis da Resistência. Espere por revelações bombásticas até os últimos segundos de projeção.

Como se não bastasse tudo isso, Verhoeven ainda encontra espaço para acompanhar o desabrochar da sexualidade da protagonista, mantendo em muitos instantes a guerra como pano de fundo. Em uma seqüência particularmente safada, a câmera fetichista de Verhoeven espia Rachel – loira e rebatizada de Ellie – pintando os pêlos pubianos para compor de modo mais eficaz a linda personagem da cantora de cabaré que vai se insinuar para o capitão da SS. “Como arde!”, exclama a garota, abanando o sexo, em uma imagem que oferece uma metáfora nada sutil (como é hábito no cinema do holandês) para a sexualidade vulcânica da mulher, prestes a explodir. Não é um grande filme, mas tem bons momentos e faz jus ao nome de Paul Verhoeven.

O DVD de locação, da Europa Filmes, traz apenas o filme, com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Black Book (Zwartboek, Holanda/Bélgica/Inglaterra/Alemanha, 2007)
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn
Duração: 145 minutos

Um comentário em “Espiã, A

  1. Olá Rodrigo. Assisti ontem A espiã e para mim é dos melhores filmes do diretor Verhoeven. Como vc mesmo afirmou, esta produção que resgata o gênero trailler de espionagem.. No entanto tratando-se de ser um filme de Verhoeven, há alguns bons elementos que fazem a diferença. Gostei do modo como o diretor trabalha o relaciomanto amoroso entre a espiã (uma atriz linda e talentosa, cujo visual evoca as musas do cinema alemão e também faz lembra a loira platinada Jean Harlow, fez mais algum filme?) e o militar alemçao que mesmo sabendo que ela faz parte da resistência se deixa seduzir por ela. Foi uma das poucas vezes que vi neste tipo de filme um “nazista” não ser retratado como um monstro sádico e sim como um ser humano dotada de emoção. Também gostei do tratamento da personagem da heróina que não é do tipo frágil e é mulher lliberal com relação ao sexo que além do desejo de vingança, demonstra gostar de viver em situaçoes de perigo. Sobre as reviraltas acho que elas são coerentes e se encaixam dentro do argumento do filme. Quanto ao exagero em alguns aspectos técnicos eles não me incomodaram, pois a trama tem bom ritmo e bons momentos. Enfim, A espiã é um dos melhores traillers de espionagem que assisti nos últimos anos. Muito superior que algumas bobagens que Hollywood tem produzido (apenas de Encontro Explosivo ter seus momentos divertidos). A espiã tem o mérito de ser um filme votlado para o público adulto, bem realizado que demonstra o estilo de Verhoeven que nele combina muito bem a mistura sexo, violência e tem um fundo histórico bem desenvolvido, uma raridade nos dias atuais. É isso.

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