Interlúdio

[rating:5]

Ao entrevistar o mestre do suspense para o famoso livro que lançou na década de 1960, François Truffaut afirmou considerar “Interlúdio” (Notorious, EUA, 1946) o melhor filme da primeira fase de Alfred Hitchcock (1940-1950) em Hollywood. É uma afirmativa difícil de fazer, mas fácil de concordar. O clássico romance de espionagem compete com obras-primas do naipe de “Rebecca” (1940), único trabalho do inglês a faturar o Oscar de melhor filme, e “Festim Diabólico” (1948) – e mesmo assim, Truffaut parece ter razão. Ancorado na simplicidade narrativa e na elegância visual, Hitchcock conseguiu construir um híbrido perfeito de thriller de espionagem e drama romântico ousado.

“Interlúdio” consiste, na verdade, de dois filmes organizados habilmente em uma só estrutura narrativa. Ambas são histórias eletrizantes, emocionantes, perfeitas. Na superfície, o longa-metragem é uma história de espionagem, em que dois espiões norte-americanos precisam desvendar um diabólico plano concebido por fugitivos nazistas no Rio de Janeiro, logo após a II Guerra Mundial. Neste nível, “Interlúdio” é empolgante, mesmo sem conter uma única cena de ação física. A outra história – aquela que realmente interessa – é mais profunda, mais dramática e mais universal. Trata-se do velho triângulo amoroso clássico, em que dois homens disputam o amor de uma mulher. Uma segunda camada de significados, ainda mais rica e eletrizante do que a primeira.

A gigantesca fama adquirida pelo mestre do suspense se solidificou a partir de uma constatação: durante um filme de Hitchcock, a platéia se sente absolutamente envolvida pela ação dramática, muitas vezes sem se dar conta de que existe, por trás daquelas tramas fluidas e absolutamente vibrantes, um contador de histórias se esforçando para fazê-lo da melhor maneira possível. Os filmes de Hitchcock parecem simples. As histórias que o mestre do suspense conta parecem se desdobrar naturalmente diante do espectador, sem que este sinta o esforço realizado pelo diretor para narrá-las da forma clara. São raros os cineastas que alcançam o grau de segurança de Hitchcock. E “Interlúdio” está entre as histórias mais bem contadas pelo cineasta.

O enredo, concebido em parceria por Hitchcock e Ben Hetch, é construído do ponto de vista de uma mulher de caráter duvidoso. Alicia (Ingrid Bergman) é a filha americana de um ex-líder nazista. Ela trabalha como acompanhante de homens mais velhos, e é vista freqüentemente bêbada. Cooptada por Devlin, um charmoso agente dos EUA (Cary Grant), a moça viaja ao Rio de Janeiro para executar uma missão secreta – tão secreta que nem ela sabe qual é. Os dois se apaixonam, embora ele não reconheça isto abertamente. Mas a relação é abalada quando a missão finalmente se revela. Alicia precisa criar uma conexão romântica com Sebastian (Claude Rains), velho amigo do pai dela, que lidera uma conspiração nazista no pós-guerra. Uma vez infiltrada na gangue, a moça poderá passar informações para os EUA, de forma que os norte-americanos saibam o que eles estão tramando.

Obviamente, há aí um componente sexual que Hitchcock, graças à rígida censura da época, não pode enfatizar abertamente. Para cumprir a missão, Devlin precisa deliberadamente jogar a amada nos braços de outro. Alicia, por sua vez, deve encarar a insuportável idéia de ir para a cama de outro, bem nas barbas do homem que ama. Em circunstâncias normais, eles se negariam a fazê-lo e iriam viver a tórrida paixão em outro lugar, mas aí não haveria filme. As circunstâncias não são normais. Devlin é um sujeito orgulhoso, e o passado promíscuo de Alicia o assombra. O mesmo passado, por sinal, que a impede de pressionar o amado para impedir que o plano seja levado a cabo. Alicia espera que Devlin reconheça que a ama e a tire das garras dos nazistas. Isto nunca acontece. Sem que nenhum dos dois fale sobre o assunto, as coisas seguem em frente, apenas para se complicarem mais e mais.

Hitchcock faz um trabalho brilhante com o roteiro, recusando-se a expor o drama íntimo dos protagonistas em palavras. A tensão sexual é trabalhada no subtexto, através de insinuações, diálogos de duplo sentido e olhares. Algumas das melhores cenas do trabalho lidam magnificamente com este subtexto, de forma que apenas Devlin e Alicia (e a platéia) compreendem inteiramente a natureza do drama que se desenrola. É o caso, por exemplo, da magnífica cena em que a moça, um tanto desorientada, procura o escritório dos agentes americanos no Rio de Janeiro para comunicar que o vilão acaba de lhe pedir em casamento. Secretamente, ela guarda a esperança de que o amado impeça o plano de seguir em frente. Do outro lado, ele se tortura com as dúvidas. Será que ela abandonou mesmo o passado condenável? Será que está se divertindo nas noitadas ao lado de Sebastian? Será que ela o ama?

Como thriller de espionagem, “Interlúdio” também é maravilhoso, como comprova a extraordinária seqüência da festa de apresentação de Alicia à alta sociedade do Rio de Janeiro. Trabalhando junto, apesar das animosidades sempre crescentes, o casal precisa invadir um cômodo proibido para descobrir o que exatamente os nazistas estão tramando. A tomada de abertura da seqüência é uma tour-de-force visual: um plano geral, visto do alto, em que a câmera faz um movimento fluido até focalizar, em close, a mão de Alicia, que segura um objeto essencial para os planos dos agentes norte-americanos. Hitchcock usa e abusa da montagem paralela como recurso para gerar mais tensão, e conta com um desempenho maravilhoso de Ingrid Bergman para dar vida e cor à personagem. Talvez seja a melhor interpretação da atriz sueca, o que é notável, considerando que ela fez “Casablanca” (1942).

Por sua vez, Cary Grant não fica atrás da parceira. A cena em que ele esquece a garrafa de champanhe no escritório, ao descobrir sobre a intenção dos superiores de mandar Alicia direto ao covil do inimigo, é um dos grandes momentos do filme (um momento que Hitchcock amplifica, aliás, ao encerrar a última tomada da cena com um close da garrafa, congelando uma imagem que funciona simultaneamente como símbolo da desorientação do espião apaixonado e como pista de eventos futuros). De quebra, Hitchcock consegue ainda uma performance discreta e poderosa de Claude Rains, o único membro do elenco a conseguir uma indicação ao Oscar (de coadjuvante). O ator alcança a proeza de conferir humanidade ao vilão, interpretando como um homem tão apaixonado que se torna bobo, e isto faz a platéia sentir simpatia por ele. Além de tudo isso, o cineasta nos brinda com uma inesquecível seqüência final, em que as duas tramas paralelas são concluídas de forma surpreendente. Em resumo, um filmaço.

O filme foi lançado no Brasil pela Continental Home Vídeo. A edição é simples, sem extras, e o filme aparece com qualidade razoável de imagem (4:3, fullscreen) e áudio (Dolby Digital 1.0).

– Interlúdio (Notorious, EUA, 1946)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern
Duração: 102 minutos

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4 comentários em “Interlúdio

  1. Eu vi Interlúdio essa semana e fiquei encantada. Tanto pelo história empolgante, como pelo modo como foi contada pelo Hitchcock. A cena final da escadaria, bem como todas as cenas envolvendo o envenenamento da Alicia são inesquecíveis e maravilhosas. Fico arrepiada só de lembrar. Excelente filme de romance e de suspense.

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  2. Interessante você comentar a cena da escadaria. Nas minhas aulas, eu sempre passo a cena completa e peço para que os alunos contem o número de degraus da escada na subida, e façam o mesmo na descida. Experimente. E depois pense sobre isso. 🙂

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  3. Neste filme, Hitchcock domina não só a forma de narrar uma estória, mas também a todos nós, espectadores, que somos surpreendidos com um verdadeiro romance. Um excelente filme, dos melhores do grande mestre do suspense. Mais uma vez ele nos engana, pois achamos que estamos vendo um filme, mas, na verdade, estamos vendo outro. Fantástico.

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