Dexter – 1ª Temporada

[rating:3.5]

Dexter Morgan (Michael C. Hall) é perito forense da polícia de Miami (EUA). Ele possui duas especialidades profissionais. Uma, que pratica à luz do dia, é a habilidade afiada para desvendar cenas de crimes a partir da análise das manchas de sangue. A outra, que ninguém conhece, é a compulsão por matar. Dexter é um serial killer que, com a ajuda do pai adotivo, criou para si próprio um código de conduta moral. Foi por isso que ele entrou para a polícia: para investigar, identificar e exterminar outros serial killers. Este homem jovem e bonito, que se esforça horrores para esconder uma absoluta ausência de emoções, é o protagonista da elogiada série “Dexter”, lançada com sucesso nos Estados Unidos em 2006.

Em tese, o programa poderia ser descrito como um cruzamento de “C.S.I.” com “O Silêncio dos Inocentes”, mas na prática vai bem além disso. A maior qualidade do seriado, baseado em uma série de livros escrita pelo romancista Jeff Lindsay, é a complexidade mortal inusitada do protagonista. Dexter está longe do perfil de herói que, em geral, cerca os personagens mais importantes das séries de TV norte-americanas. Por outro lado, o charme cativante do personagem e sua agonia diária, seu esforço hercúleo para criar uma fachada cada vez mais perfeita que permita esconder seu lado negro, permitem à platéia criar com ele um laço inegável de empatia – todos nós temos lados negros que gostaríamos de esconder, certo? Rico e inusitado em seus dilemas morais, Dexter é um personagem fascinante justamente porque sua humanidade reside na luta para esconder uma completa falta de humanidade.

Como é exibida em um canal de TV paga, “Dexter” faz parte das chamadas séries de primavera, cujas temporadas começam seis meses depois (ou antes, conforme o cálculo que você quiser fazer) do normal. Por isso, a primeira temporada tem só doze episódios, mais ou menos a metade de uma série tradicional. A galeria de personagens inclui todas as pessoas que gravitam ao redor do personagem: detetives e peritos que trabalham na mesma delegacia, a irmã policial desbocada (Jennifer Carpenter), a namorada problemática (Julie Benz). Esta última é um achado dos roteiristas: traumatizada por sucessivos espancamentos e estupros do ex-marido drogado, ela não quer sexo nem pintada de ouro, o que representa um alívio para Dexter, que não gosta de absolutamente nada que não seja matar.

Um ponto positivo da série é que ela, provavelmente para manter o interesse dramático e não reduzir o programa a um thriller esticado, reserva bastante tempo em cada episódio para enfocar problemas pessoais dos personagens. Um dos detetives (David Zayas) está em busca da reconciliação após ter traído a esposa, a tenente negra (Lauren Vélez) luta para se manter no cargo enquanto dá em cima de Dexter, o sargento pentelho (Erik King) se vê às voltas com a acusação de ter matado um suspeito, e assim por diante. Todos são personagens razoavelmente bem desenvolvidos, o que dá uma dinâmica agradável à série como um todo. Além disso, na segunda metade da temporada, o próprio protagonista começa a desenvolver sentimentos ambivalentes sobre tudo, e questionar as próprias neuroses e obsessões.

O fio condutor da série é a caça a um misterioso matador, chamado Assassino do Caminhão de Gelo, que tem o péssimo hábito de fatiar prostitutas em pedaços depois de drenar todo o sangue do corpo. O sujeito, cuja identidade permanece obscura durante quase toda a temporada, conhece os hábitos secretos de Dexter e costuma mandar recadinhos sarcásticos para ele, o que põe em cheque a sobrevivência do lado secreto do agente matador. Embora seja limpinha demais, com aquela fotografia brilhante, de plástico, típica de soap opera, e tenha um lado thriller um tanto burocrático, o seriado consegue ser um programa acima da média, graças aos bons personagens e à excelente atuação do ator Michael C. Hall.

Além disso, os conflitos cômico-trágicos em que o personagem se enfia, involuntariamente, cada vez que precisa ajustar sua vida a um novo imprevisto, garantem o humor sardônico. Não à toa, os melhores momentos de “Dexter” envolvem o namoro excêntrico do protagonista e seu envolvimento emocional com os dois filhos pequenos da namorada – como qualquer sujeito com sentimentos psicopatas, ele só se sente realmente à vontade com crianças, já que emocionalmente jamais chegou à idade adulta. A série não tem a ousadia e a complexidade de “Os Sopranos”, e nem a inteligência de “Lost”, mas merece uma conferida atenta.

A caixa da Paramount tem quatro discos, com qualidade boa de imagem (widescreen 1.78:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Ela vem com alguns extras, inclusive dois comentários em áudio, episódios de outras séries do canal Showtime, dois capítulos do terceiro livro da série para download e um featurette sobre um caso real em que o trabalho de análise dos padrões de sangue na cena do crime ajudou a apontar o culpado.

– Dexter – 1ª Temporada (Dexter Season One, EUA, 2007)
Produção: James Manos Jr.
Elenco: Michael C. Hall, Jennifer Carpenter, Julie Benz, Lauren Vélez
Duração: 650 minutos

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2 comentários em “Dexter – 1ª Temporada

  1. Já vi a 1ª temporada e estou na 2ª.Um seriado acima da média como vc falou.Não perco um só episódio ao contrário de muitas séries que estão aparecendo sobre investigação criminal Dexter tem um clima de suspense e drama como nenhuma outra.Excelente.

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  2. É uma série óóóóótima.
    A primeira temporada é excelente (até pq é uma dinâmica inusitada, como o Rodrigo explicou muito bem) e a gente se descobre torcendo por Dexter o tempo todo. A segunda perdeu o ritmo um pouco e ficou muito fantasiosa mas ainda manteve o estilo irônico e bem-humorado.
    Já a terceira temporada é sensacional (o único porém é o fim abrupto dela). Há a introdução de um “pupilo” de Dexter que acaba distorcendo seu código irritando-o profundamente; o crescimento do carinho que ele sente pela namorada e pelos filhos dela, algo que o torna cada vez mais humano; e um acontecimento inesperado que o faz vislumbrar todo uma gama de possibilidades inéditas e planejar um futuro que até então seria de solidão.
    A simpatia do protoganista e seus pensamentos que de tão torpes e inesperados são engraçados, o jeito “durão” da vulnerável irmã dele, o eterno suspense que nos faz pensar a cada episódio “Agora lascou!!!” e a humanidade dos personagens coadjuvantes tornam Dexter uma séria muito gostosa de se assistir, um entretenimento de primeira categoria.
    Espero que dure ainda mais algumas temporadas.

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