Menina Santa, A

[rating:4.5]

O cinema da diretora argentina Lucrecia Martel é, em grande parte, dedicado a decifrar os segredos, as armadilhas, as sutilezas do corpo humano. A própria cineasta admite abertamente este interesse. Observando-se sobre este aspecto, a jornada íntima da protagonista de “A Menina Santa” (La Niña Santa, Argentina/Espanha/Itália, 2004) ganha todo um novo significado, já que se trata de uma adolescente, na casa dos 16 anos, que precisa lidar simultaneamente com o despertar da sexualidade e com uma rígida e castradora educação religiosa. Em seu segundo filme, Martel insere esta problemática num desconcertante longa-metragem, cujo impressionante rigor formal deixa evidente a originalidade da abordagem da diretora.

Produzido por Pedro Almodóvar, “A Menina Santa” é o segundo trabalho assinado por Lucrecia Martel. Depois de chamar a atenção da comunidade cinematográfica internacional pelo impecável trabalho cênico desenvolvido em “O Pântano” (2001), a diretora demonstra maturidade e talento. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2004, foi bem recebido pela crítica, mas saiu do festival sem nenhum prêmio importante. Trata-se de um daqueles trabalhos que não cabem dentro de rótulos ou gêneros. Consegue, ainda, a proeza de se aproximar e ao mesmo tempo se afastar do cinema argentino contemporâneo, sempre tão elogiado. A abordagem de Martel é minimalista, sutil e de índole naturalista, como quase todo bom cinema feito pelos conterrâneos, mas possui bem mais complexidade e sutileza.

O enredo constrói com delicadeza um triângulo amoroso dos mais inusitados, entre a dona de um hotel (Mercedes Morán), a jovem filha dela (María Alche) e um tímido médico que está hospedado lá para participar de um congresso (Carlos Belloso). A mulher se sente atraída pelo otorrinolaringologista caladão, sem saber o sujeito se insinuou sexualmente para a garota, logo no primeiro dia da estada no hotel. Amália, a menina, vive aquela fase de ebulição sexual que todos experimentamos na adolescência. Graças à rígida educação cristã que recebe, ela interpreta o acontecido como um sinal divino, e inicia uma espécie de jogo sexual inconsciente com o desconhecido, para desespero dele. O desenrolar da história inclui pequenas tramas paralelas – o ciúme que a mãe ainda sente pelo ex-marido, a amizade entre Amália e Josefina (Julieta Zylberberg) – e segue por caminhos completamente inusitados.

Graças à abordagem seca e naturalista, que se reflete nas atuações espontâneas do elenco, na fotografia cheia de sombras e tonalidades pastéis e na economia de diálogos, Lucrecia Martel constrói uma teia complexa de sentimentos de culpa, ansiedade e desejo entre os personagens, através de uma dinâmica de filme de suspense. Não há trilha sonora para sublinhar o significado emocional de cada cena, e isto mantém o espectador sempre alerta e receptivo a novos desdobramentos, o que é muito bom. A imprevisibilidade da ação dramática, porém, não significa uma trama frouxa e aberta, já que o terceiro ato alinhava todas as subtramas em um único e poderoso clímax, que encerra o filme de maneira inconclusa (o final pode desagradar muita gente) e deixa, propositalmente, vários pontos de interrogação que a platéia precisa preencher para atribuir significados ao filme. A experiência de ver “A Menina Santa” é original e estimulante.

O DVD da Imagem Filmes é simples e seco, sem qualquer extra. A qualidade do filme é apenas razoável em imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– A Menina Santa (La Niña Santa, Argentina/Espanha/Itália, 2004)
Direção: Lucrecia Martel
Elenco: Mercedes Morán, Carlos Belloso, María Alche, Julieta Zylberberg
Duração: 106 minutos

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2 comentários em “Menina Santa, A

  1. Ao que parece, é um caso de filme superestimado pela crítica. O clima da trama (através de cenários, fotografia, expressões etc.) é elogiavelmente denso e cativante, mas expoente acaba se diluindo, muitas vezes, na narrativa imotivadamente lenta. O enredo é forte e atrativo. Contrapõe a frieza de conclave médico, o ensino religioso irracional, dramas familiares e fantasmas e impulsos da sexualidade reprimida nos adultos e da sexualidade que desperta forte nos adolescentes (nem um, nem outro, consegue se conter. Cada qual se extravasa como lhe é possível e de acordo com a leitura psicológica de seu amadurecimento): o frio médico formal e tradicional, longe da família há tempos, tenta se livrar da tensão sexual encostando-se em uma adolescente desconhecida (naturalmente certo de que a imaturidade da vítima não lhe traria consequências); a adolescente vê nesse contato a chance de criar uma ponte entre seu desejo sexual insurgente e a opressão religiosa, identificando o assédio como indício de uma missão divina, que poderia permitir um contato sexual mais profundo; uma divorciada, perturbada por ciúmes quando fica sabendo que o ex-marido vai ser pai de gêmeos com a nova esposa, atiça seu poder de sedução, procurando envolver o médico; outra adolescente, submetida à mesma opressão do ensino religioso, permite que seu namorado, também adolescente, satisfaça seu desejo por via menos convencional, mas proíbe que ele fale alguma coisa durante o ato. Tanto faz o sexo reprimido ou insurgente, a satisfação se justifica desde que convenientemente plausível em cada leitura pessoal. A narrativa, no entanto, perde a oportunidade de acompanhar a força do enredo. A conclusão do filme, longe de ser a conclusão das estórias que se entrelaçam, deixa margem aos espectadores para construírem as definições de seus próprios desejos. O que, se para alguns é causa de decepção, para muitos é uma excelente estratégia do roteiro. O filme, de qualquer forma, mexe com todos. É ver para crer. Destaques para as interpretações excelentes da jovem Maria Alche, como a adolescente assediada, e da veterana Mercedes Morán, como a divorciada sedutora. Tudo isso, é claro, é minha opinião particular.

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