Johnny Guitar

[rating:4]

Mesmo em sua época mais prolífica (meados dos anos 1950), Nicholas Ray jamais deixou de ser considerado um dos diretores malditos de Hollywood. Os executivos da indústria de cinema olhavam para ele de soslaio, como se fosse um intruso. E era mesmo, mas também era muito mais do que isso. Ele era um visionário, um verdadeiro artista, daquela estirpe que percebe, antes de todo mundo, movimentos sociais tomando forma – e transforma essas observações em valiosos documentos de época. Pois foi nestas circunstâncias, num período marcado por episódios odiosos de censura, perseguição e proibição, que Ray criou dois grandes filmes antevendo a insurgência de dois protagonistas sociais então inexistentes: o jovem rebelde e a mulher poderosa.

Como todos sabem, Nicholas Ray radiografou o crescente abismo entre jovens e velhos, no clássico “Juventude Transviada” (1955), e o filme com James Dean se tornaria o cartão de visitas do diretor. Um ano antes, porém, ele já entrara para as fileiras dos cineastas que Martin Scorsese chamaria, anos depois, de “contrabandistas”, referindo-se aos criadores que dotavam suas obras de uma aparência de normalidade para falar, nas entrelinhas, de temas proscritos ou proibidos. Ray fez “Johnny Guitar” (EUA, 1954), um western irreal e onírico, protagonizado por duas mulheres iradas. Foi um filme que antecipou, em duas décadas, o surgimento do movimento feminista.

Apesar do título se referir a um personagem masculino, “Johnny Guitar” celebra a rivalidade mortal entre duas mulheres: Vienna (Joan Crawford), teimosa dona de um saloon com um passado repleto de homens, e Emma (Mercedes McCambridge), proprietária de um banco e defensora da moral e dos bons costumes de uma cidadezinha nos confins do Velho Oeste. Como sempre acontece nesses casos, as duas se odeiam, e aquela que está mais próxima do poder estabelecido – a virginal e odiosa Emma – está decidida a botar a rival para fora correr. Entre as duas, estão dois homens de passado obscuro (Sterling Hayden e Scott Brady) e os moradores indecisos e inoperantes do lugar.

Fugindo do realismo que predominava nos melhores faroestes da época (John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann), Ray cunhou um faroeste atípico já a partir do visual. Ele filmou em Tecnicolor e caprichou meticulosamente na criação de um estilo feérico, onírico, que Truffaut (o cineasta e crítico francês amava o longa-metragem) chamou de “a Bela e a Fera dos faroestes”. O trabalho de cores, auxiliado pelas características técnicas do sistema utilizado, é sensacional. Como outros grandes cineastas, Nicholas Ray não usava as cores de forma gratuita, dando aos cenários e figurinos uma dimensão extra de significa a partir da escolha das tonalidades. Obviamente, a aparência brilhante e explosiva cortava o efeito de naturalismo, mas enfatizava o estado de espírito dos personagens em cada cena.

Observe, por exemplo, as camisas e vestidos utilizados pelas duas personagens femininas. Na primeira cena em que Vienna aparece, ela usa calça e camisa pretas, e passa a imagem de uma chefe dura, austera, implacável (impressão acentuada pelo ângulo de câmera, que a flagra sempre de baixo para cima, frisando o poder que ela exerce sobre todos os personagens, mostrados de cima para baixo). Em uma das seqüências mais lembradas do filme, no auge da perseguição promovida por Emma (que usa preto), Vienna aparece toda vestida de branco, tocando piano enquanto o mundo desaba em torno dela. Para o duelo final, o vermelho do fogo.

Nicholas Ray usa com sabedoria uma técnica imbatível dos grandes diretores – utilizar a paisagem para expressar o estado emocional dos personagens – e realiza um grande trabalho. Na seqüência de abertura, quando todos com função dramática importante se cruzam no saloon de Vienna, a cidadezinha é sacudida por uma tempestade que parece prenunciar os acontecimentos futuros. Claro que, para melhor curtir o resultado, é preciso dar um desconto à artificialidade dos cenários, em que as paisagens de fundo são pintadas em grandes painéis (técnica conhecida em Hollywood como matte painting). Perceba que as nuvens do céu, durante a tradicional cena de pôr-do-sol – todos os filmes de Ray têm uma –, não se movem.

Curiosamente, se “Johnny Guitar” passou à história como o primeiro filme feminista realizado em Hollywood (e logo um western, o mais masculino dos gêneros!), o alvo verdadeiro de Nicholas Ray estava logo ali, na esquina. O longa-metragem foi pensado como uma crítica sutil à perseguição promovida por políticos republicanos contra supostos cineastas comunistas, em episódio que ficou conhecido como MacCarthismo. E o verdadeiro roteirista, que jamais ganhou crédito pelo trabalho, era justamente um dos homens proibidos de exercer a profissão pela crença na ideologia vermelha: Ben Maddow. Ou seja, por baixo de todo o espetáculo de cores e cenários fulgurantes, mora um dos filmes mais engajados já feitos nos intestinos de Hollywood.

O DVD brasileiro, da Versátil, é simples e não contém extras de fôlego. A qualidade de imagem (tela cheia, 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0) está apenas razoável.

– Johnny Guitar (EUA, 1954)
Direção: Nicholas Ray
Elenco: Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Scott Brady
Duração: 110 minutos

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Um comentário em “Johnny Guitar

  1. Olá Rodrigo. Atualmente, por meio do telecine estou descobrindo o gênero do faroeste, que sempre foi considerado menor pela grande maioria dos críticos, o que é uma bobagem. Talvez porque ele tem a tendencia de repetir demais os mesmos elementos (bandidos, mocinhos, perseguições), o faroeste é visto com desconfiança. Contudo, existem filmes que fazem a exceção dentro do gênero e, por isso, eles merecem o status de clássicos. Dentre eles, Johnny Guitar é um filme que impressionou. Apesar de ser um faroeste típico ( é ambientado no Velho Oeste, há pistoleiros, roubos de banco, etc), existem alguns elementos inovadores que necessitam ser analisados com maior profundidade. Um deles é o duelo verbal entre Viiena (Joan Crawford, magnífica) e Mercedes MCambrigde ( também excelente) cheios de ambiguidade, que sugere que houve no passado um envolvimento amoroso entre as duas. Não sei se você reparou mas o ódio de Emma por Viena denota um sentimento de frustração. Em um determinado momento Viena diz a Johnny que não tem idéia do sacrificio que ela fez para construir o saloon, o que me parece só ter sido possível com a ajuda de Emma, afinal é ela que manda no lugar. Além disso, Viena afirma que durante uma conversa que Emma quer matar o Garoto Dançarino porque ele a faz sentir uma mulher, sensação essa que a assusta. Ou seja, é demonstrado que Viena conhece Emmma em sua intimidade. Portanto, é possível afirmar que conforme que você salientou que Johnny Guitar apesar de suas limitações no aspecto técnico (mas que passa desapercebido devido à qualidade do conjunto) é um filme moderno, que prenuncia o movimento feminista. Outro aspecto que precisa ser levado em sua avaliação é que presença no filme de elementos que rementem à literatura romancesca e até mesmo gótica. Você notou no início que o modo como o saloom é mostrado, insolado e envolto em poeira, evoca um castelo, assim como Viena e Emma se comportam como rainhas que dão ordem aos seus cavalheiros ( os pistoleiros).Outros momentos tais como quando Viena aparece vestida de branco tocando o piano tendo ao fundo uma parede rochosa (uma cena de forte impacto visual) enquanto é acuada por Emma e seus capangas, ou Emma vestida de presto incendiando o salão, focalizada como se fosse uma bruxa parecem ter sido tirada de um romance gótico da metade do século XVIII. Também se deve levar em conta o acerto de contas entre as duas protagonistas, que até hoje configura um dos grande momentos do gênero faroeste. Portanto, seja por suas inovação estética (uso de cores), temática ( abordagem do feminismo em gênero tipicamente masculino), ou até mesmo mistura com outros gêneros Johnny Guitar merece o status de obra–prima e está muito acima de filmes considerados classicos como é o caso Sete Homens e um Destino, que empaledeceu e tornou-se antiquado com o tempo. É isso. Abraço.

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