Embriagado de Amor

[rating:3.5]

As surpresas começam a partir da escalação do elenco, antes mesmo que um único segundo de filme seja projetado. O protagonista de “Embriagado de Amor” (Punch-Drunk Love, EUA, 2002) é o comediante Adam Sandler. Espanto, surpresa, choque! Como é possível, um ator especialista em bobas comédias juvenis no papel principal de um filme de Paul Thomas “Magnólia” Anderson?!?! Um diretor acostumado a filmar longos épicos dramáticos, trabalhando em associação com um clown, um palhaço? Seria como colocar Didi Mocó para trabalhar em “Vidas Secas”. Estranho, sem dúvida. Pois bem: “estranho” é um vocábulo que resume perfeitamente o projeto mais incomum da carreira de ambos.

“Embriagado de Amor” é uma comédia romântica anti-convencional. Ou melhor, uma comédia romântica tradicional, só que filtrada pela visão de mundo singular de PT Anderson, um dos diretores norte-americanos mais estilistas e consistentes da geração contemporânea. Como qualquer bom exemplar do gênero, o longa-metragem mostra um homem e uma mulher atravessando o delicado, gostoso e difícil processo de se apaixonar. Só que ao invés de exibir um repertório completo de clichês, como 95% dos diretores faria, PT Anderson aplica ao formato narrativo uma dose saudável de conteúdo autoral. O resultado é uma homenagem sincera àquele período de insegurança – o frio na barriga, as noites mal-dormidas, os medos e dúvidas – que caracteriza todo começo de namoro.

Aliás, o projeto começou com um simples artigo de revista, quando Anderson leu na Time uma história curiosa sobre um engenheiro que tinha ficado conhecido, na indústria aeronáutica dos EUA, como “o cara do pudim”. O sujeito tinha acumulado 1,25 milhão de milhares aéreas depois de comprar 12.150 embalagens de pudim, ao custo ridículo de UIS$ 3 mil. Ou seja, ele tinha percebido um erro de cálculo dos responsáveis pela promoção e aproveitado para acumular bônus que lhe garantiam uma confortável autonomia de viagens aérea para o resto da vida. O que fez o cineasta? Comprou os direitos do caso e o encaixou dentro de um clássico conto de amor, povoado por personagens tão estranhos quanto a história bizarra do engenheiro.

Barry Egan (Sandler) é o magnífico personagem fictício criado por PT Anderson em cima do caso. Ele é um rapaz introspectivo, com uma boa carga de tensão acumulada, que comanda uma pequena empresa e vive sendo zoado pelo fato de ser o único homem em uma família de sete irmãs. Enquanto enche a empresa de embalagens de pudim que compra como um maníaco, ele recebe a visita de uma moça simpática (Emily Watson) e se apaixona perdidamente (isso acontece num dia esquisito, que começa com um piano velho sendo deixado na calçada da firma por um furgão, e segue com um espetacular acidente de trânsito). Quase ao mesmo tempo, Egan passa a ser vítima de chantagem por parte de uma atendente anônima de telessexo.

São três linhas narrativas absolutamente incomuns, que se cruzam dos modos mais díspares imagináveis. PT Anderson costura as três histórias com um visual estilizado que explora a cor azul, utilizando planos de transição que são como tomadas abstratas de desenhos coloridos. Os trechos sonoros são pequenas vinhetas musicais ao estilo caótico de John Cage, misturando barulhos a trechos desconexos de piano e cordas. A cara de criança de Adam Sandler e o jeito experiente de Emily Watson até podem dar ao espectador uma idéia de onde o enredo vai parar, mas PT Anderson se diverte à beça ao contrariar todas as expectativas. Ele entrega um filme absolutamente imprevisível, habitado por gente esquisita e ao mesmo tempo adorável, que lembra um pouco a atmosfera surreal dos filmes dos irmãos Coen, mas com personalidade própria. O resultado é ótimo.

Este é um DVD duplo, da Columbia, tão estranho quanto o filme. No disco 1, nenhum extra. Apenas o filme, com ótima qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1 e DTS). Os extras estão concentrados no disco 2: galeria de cenas cortadas, um comercial de TV, trailers, uma fotomontagem musical e uma pequeno segmento (12 minutos) que misturam cenas extras, clipes musicais e fotografias. Legendas, só em chinês.

– Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, EUA, 2002)
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Luiz Gusmán, Philip Seymour Hoffman
Duração: 95 minutos

2 comentários em “Embriagado de Amor

  1. Acabei de assisti esse filme, e ele confirmou o que esperava: Paul Thomas Anderson é um dos meus diretores preferidos (só tinha assistido Magnólia e Sangue Negro). Sua narrativa sempre peculiar dentro da narrativa convencional, me facina. Nunca entrega tudo para o espectador (o que costuma provocar nenhuma reflexão [esse fato de entregar] ) mas também não complexifica tanto quanto o esquizofrênico David Linch (os seus filmes [Anderson] sempre possuem códigos incrivéis e complexos, mas que não são indecifráveis). Adoro essa linha frágil entre o convencional e a loucura em que ele constroe os seu filmes.

    Curtir

  2. Barry(Adam Sandler) estava morto!

    Minha tese sobre o filme:

    Na parte inicial do filme acontecem inúmeros acidentes(o do carro, o do desentupidor inquebrável, o empilhadeira), simbolizando “a possível morte” de Barry. Também no início um harmônio abandonado da rua, cujo ele não sabe o que é, acha que é um piano e leva para o escritório. Logo depois Lena aparece (vestida de vermelho), perguntando sobre a oficina e deixa com Barry (sempre de azul) a chaves do carro, reparem que uma forte luz branca do sol fica em cima de Lena. Bem, na minha interpretação, Lena é o anjo que veio para ajudar Barry. E é ela quem deixa o harmônio para ele. Mais a frente no filme, Lena pergunta para Barry se ele roubou o harmônio que está no escritório dele, e ele responde:” – Harmônio?” E ela fala: ” – Piano. ” e Ele fala: “Sim, roubei, ele é seu?” E ela responde: “Não, é seu.” E pergunta se ele vai tocá-lo, e ele diz basicamente que ainda não. Bem, a meu ver o harmônio significa algo que Barry tem que aprender a tocar, para poder passar de plano (viajar). Reparem também que bem no início do filme, quando Barry vai ao mercado pela primeira vez, Lena está lá atrás de vermelho seguindo ele pelos corredores.

    Pois bem, logo depois, perto do final, Lena vai para o Havaí e Barry vai atrás dela, e quando Barry está passando pelo túnel do aeroporto, reparem que uma curiosa e forte luz branca surgem no túnel, e quando ele entra no avião ele diz que ele nunca viajou de avião antes. Entende-se que o Havaí representa o paraíso, tanto é que lá tudo dá certo para Barry, tudo está em paz, e curiosamente pela única e primeira vez no filme, os dois estão de roupa branca. Em uma rápida consulta minha ao significado da cor branca no google, encontrei: “O branco associa-se à ideia de paz, de calma, de pureza.”
    E no significado do azul-escuro(cor do tenro de Barry): “É considerada uma cor romântica, talvez porque lembre a cor do mar, no entanto é uma cor que se associa a uma certa falta de coragem ou monotonia.” Ou seja, os simbolismos das cores se encaixam perfeitamente na trama. E as cores são relevantes pro filme, tanto é que aparecem vários mosaicos se mesclando durante toda a projeção. Além disso, a música “He Needs Me” que o PTA tirou do filme ‘Popeye’ de Robert Altman, um dos seus diretores preferidos, é outra grande pista.

    E pra encerrar, no final do filme, quando Barry enfim aprende a tocar o harmônio, Lena chega e diz: “Aqui vamos nós…”

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s