Gigante de Ferro, O

[rating:4]

O cineasta Brad Bird foi colega de faculdade do gênio John Lasseter, fundador e chefão da Pixar. Talentosos, os dois acabaram contratados pela Disney, mas tinham planos mais ambiciosos. Enquanto Lasseter se associava a Steve Jobs (Apple) para criar a Pixar, Bird fez carreira na TV antes de se aventurar no terreno do longa-metragem. Sua estréia no ramo foi justamente dirigindo “O Gigante de Ferro” (The Iron Giant, EUA, 1999), uma animação brilhante sobre preconceito e intolerância. Além de deixar de lado velhos cacoetes irritantes do gênero, como números musicais e bichos falantes engraçadinhos, o longa-metragem ainda funciona como uma homenagem apaixonada a velhos clássicos da ficção científica B.

Baseado em livro homônimo de sucesso, escrito por Ted Hughes, o filme traz ecos de “ET – O Extraterrestre”, de Steven Spielberg, ao narrar a história da amizade entre um menino solitário, filho de mãe divorciada, e um alienígena. Bem, a origem do robô de 30 metros que aparece nas florestas do estado rural do Maine (EUA), após a queda de um meteorito na região, não é revelada por inteiro. Na verdade, o enredo não tenta aprofundar esse ponto, porque de fato ele não importa – o impacto com o solo causou amnésia no robô. O importante, aqui, é o medo do desconhecido, já que o governo dos EUA, intimidado pelos relatos sobre o monstrengo e suspeitando que ele possa ser algum tipo de arma inimiga, envia um investigador militar ao local.

Estamos em 1957, no auge da guerra fria e da paranóia sobre supostas invasões comunistas aos Estados Unidos. O pesadelo nuclear é realidade, e as escolas ensinam os alunos a se enfiar embaixo das carteiras para se proteger de possíveis explosões atômicas. É neste contexto que o robô é salvo da destruição por Hogarth, um menino de 10 anos que vive sozinho, com a mãe, em uma casa no limite da floresta. O garotinho, fanático por ficção científica e revistas em quadrinhos, consegue desligar a estação elétrica da cidade depois que o robô se enrosca nos fios de alta tensão. Agradecido, o gigante de metal vai atrás do pequeno salvador. Um não sabe a língua do outro, mas eles logo dão um jeito de se comunicar.

O ótimo trabalho de Brad Bird comprova, mais uma vez, que a tecnologia pode ajudar a produzir bons filmes, mas as melhores histórias prescindem da técnica para funcionar. Apesar do orçamento de US$ 48 milhões, a animação em 2D de “O Gigante de Ferro” é bem pobre, se comparada com outras produções da mesma época, como “Toy Story 2”, da Pixar. Mesmo assim, o longa-metragem é maravilhoso. A narrativa ágil combina aventura, comédia e suspense em um enredo firme e sem gorduras, que conta com uma trilha sonora discreta e eficiente de Michael Kamen para evitar a chafurdação no terreno do melodrama fácil.

Os personagens são excelentes, fugindo do maniqueísmo clássicos dos desenhos da Disney, e têm um background decididamente consistente. Hogarth, por exemplo, é um menino fanático por filmes sci-fi, já que fica em casa sozinho durante as noites por causa do emprego da mãe (garçonete), e usa este tempo para comer potes proibidos de sorvete, vendo TV de madrugada. Bird ainda garante a delícia dos fãs do gênero ao incluir inúmeras referências a obras como “Guerra dos Mundos” (o design do robô, quando ele entra no “modo de guerra”) e ao seriado do Superman da década de 1940 (a música-tema ganha citação na trilha sonora quando o personagem é mencionado).

Infelizmente, “O Gigante de Ferro” não obteve o apoio necessário da Warner para se tornar um campeão de bilheteria. A animação feita de forma manual, técnica já em desuso na época, foi um dos fatores decisivos para que o estúdio deixasse de apostar no filme, o que decretou uma passagem pífia pelos cinemas do planeta. Com o tempo, porém, os poucos fãs garantiram a imortalidade de “O Gigante de Ferro” como uma pérola cult. E como bons diretores de animação sabem se reconhecer, John Lasseter foi atrás do ex-colega de faculdade e o levou para a diretoria da Pixar, onde Bird fez história dirigindo “Os Incríveis” (2005), espécie de primo rico deste longa. Biscoito fino para cinéfilos.

O DVD nacional, da Warner, é mais uma demonstração do abandono do longa-metragem pelo estúdio. Disco simples, com apenas um documentário feito para TV (30 minutos) como extra. Só para se ter uma idéia, a edição especial disponível nos EUA tem oito cenas deletadas. A qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1, com dublagem disponível em português) é boa.

– O Gigante de Ferro (The Iron Giant, EUA, 1999)
Direção: Brad Bird
Animação
Duração: 86 minutos

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3 comentários em “Gigante de Ferro, O

  1. Cara, este post está muito bacana. Parabéns! Concordo em muito com o que escreveu. Certamente, O Gigante de Ferro não é um filme de animação apenas, mas um belo ‘clássico’ que deverá ser sempre apreciado por sua beleza única.

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