Faca na Água

[rating:4.5]

Uma velha máxima de Hollywood afirma que os melhores cineastas são aqueles que conseguem extrair o máximo de emoções com um mínimo de recursos. Para os defensores desta tese, provavelmente devem existir bem poucos filmes mais eficientes do que “Faca na Água” (Nóz w Wodzie, Polônia, 1962), a exuberante estréia cinematográfica de Roman Polanski. O diretor polonês, que logo se tornaria internacionalmente famoso com o assustador “O Bebê de Rosemary” (1968), demonstra talento e desenvoltura em um thriller minimalista que aprisiona três pessoas em um barco por 24 horas e constrói, com perfeito controle, um crescendo de tensão que oferece ricas possibilidades de leitura.

“Faca na Água” funciona como verdadeira lição para aspirantes a cineastas. Sem recursos para bancar a história inicialmente desenvolvida no roteiro – era um suspense criminal passado num navio e com mais personagens – o diretor se reuniu com os parceiros roteiristas Jerzy Skolimowski e Jakub Goldberg, trocou o navio por um veleiro pequeno e, durante três dias, eliminou tudo o que era supérfluo, criando uma narrativa compacta e ágil, quase uma parábola. A pobreza de recursos acabou sendo benéfica para a produção, porque desta forma Polanski pôde enriquecer a dinâmica entre os três personagens, criando uma obra claustrofóbica e asfixiante. Esses aspectos seriam, depois retomados em outros grandes filmes do diretor, como “Repulsa ao Sexo” e “O Inquilino”.

O ponto de partida é um fiapo de enredo. No caminho para uma marina, um casal (Leon Niemczyk e Jolanta Umecka) quase atropela um jovem andarilho. Ele é um homem rico na casa dos 40 anos; ela é uma jovem estudante com pouco mais de 20 anos. O rapaz, humilde, pede carona e acaba sendo convidado para passar o dia velejando. Os dois homens, tão diferentes em tudo, se estranham desde o princípio. Este ponto de partida é o pretexto de Polanski para brincar com a tensão. Exibindo enorme desenvoltura no trabalho de câmera, o diretor regula a tensão a partir de diálogos afiados, ora apertando-a, ora relaxando-a. Para isso, Polanski conta também com uma edição bem ágil e uma trilha sonora jazzística fenomenal, que acompanha os humores dos personagens e sublinha belamente os momentos mais explosivos, deixando-os ainda mais carregados.

Nos momentos relaxados, Polanski demonstra que sabe trabalhar também com humor negro. Chama atenção também a multiplicidade de leituras possíveis – as diferenças de sexo, idade, classe social e instrução dos três personagens provocam rusgas que vão e vêm com ligeireza, de forma que cada espectador possa projetar um pouco de sua própria experiência no filme, interpretando-o conforme sua própria vivência, o que é muito bom. Vale ressaltar, ainda, a fotografia espetacular de Jerzy Lipman, com uma organização exemplar de elementos dentro e fora do quadro. O uso da profundidade de foco é excepcional: em algumas tomadas, podemos acompanhar com clareza até três camadas de movimento independente, algo raro e muito bem feito.

Uma curiosidade interessante é que o pequeno veleiro onde as filmagens aconteceram pertencera ao líder nazista Herman Göering (um dado particularmente cruel, considerando-se o passado de Polanski, que foi perseguido nos guetos judeus da Polônia pelos alemães e perdeu os pais, assassinados em campos de concentração). O fato é que a segurança narrativa demonstrada no filme não passou despercebida à comunidade cinematográfica. O longa ganhou o prêmio da crítica no Festival de Veneza e se tornou o primeiro trabalho polonês a concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, abrindo as portas de Hollywood para o diretor, que logo emigraria para a França (fazendo o instigante “Repulsa ao Sexo”) e, em seguida, para os EUA. “Faca na Água” é um ponto alto em uma carreira que inclui pérolas como “Chinatown” – e isto é um enorme elogio.

O lançamento brasileiro é da distribuidora Amazonas. O disco simples tem apenas uma galeria de fotos como extra. O longa-metragem aparece com boa qualidade de imagem (fullscreen, formato original) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Faca na Água (Nóz w Wodzie, Polônia, 1962)
Diretor: Roman Polanski
Elenco: Leon Niemczyk, Jolanta Umecka, Zygmunt Malanowicz
Duração: 94 minutos

3 comentários em “Faca na Água

  1. Realmente Chinatown é o máximo noir. Um filme cheio de cinismo, onde Roman Polanski participa de uma cena cortando o nariz de Jack Nicholson. Sem dúvida, é um dos melhores filmes dos anos 70, juntamente com A CONVERSAÇÃO com Gene Hackman…pena que esse último não se encontra em DVD no Brasil.

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