Homem que Odiava as Mulheres, O

[rating:4]

Cidade de Boston (EUA), 1962. Se um turista recém-chegado desse uma simples caminhada pelas ruas, veria uma cena bizarra e tomaria um susto. A maioria esmagadora das mulheres da cidade usava os cabelos pintados de louro. Encontrar uma morena, ou mesmo uma negra de cabelos naturais, era tarefa quase impossível. O turista, abobalhado, perguntaria: que tipo de moda exótica faria somente as mulheres daqui tomarem atitude tão excêntrica, já que assa mania loura não existia em qualquer outro lugar? A resposta: não era moda, era medo. Medo de um assassino em série. O chamado “Estrangulador de Boston”, que a polícia acreditava ter estuprado cerca de 300 mulheres em dois anos, só atacava morenas.

Esta informação curiosíssima, que num filme normal seria explorada com bastante generosidade, aparece com discrição e austeridade em “O Homem que Odiava as Mulheres” (The Boston Strangler, EUA, 1968), longa-metragem de Richard Fleischer que conta a história do criminoso. A verdade é que, embora esteja inserido no subgênero extremamente popular dos thrillers que tratam de caçadas a serial killers, a produção tem muito pouca relação com seus “parentes”. A narrativa elaborada por Fleischer tem atmosfera fria, clínica, cirúrgica. A câmera acompanha os personagens à distância, sem buscar um envolvimento emocional mais forte, sem procurar o melodrama, como ocorre geralmente no gênero.

A chave para entender a abordagem original é conhecer um pouco do passado do cineasta. O crítico Luiz Carlos Merten observa que antes de se tornar diretor de cinema, Richard Fleischer estudou Medicina, com a intenção de se especializar em Psiquiatria. Pois bem, “O Homem que Odiava as Mulheres” parece mesmo um filme dirigido por um psiquiatra. A ação é lenta, meticulosa. Os dois personagens principais – o detetive-chefe da investigação (Henry Fonda) e o criminoso (Tony Curtis) – são mostrados longamente em seus respectivos cotidianos. O primeiro é tudo aquilo que o intérprete projetava fora da tela: um homem pacato, correto, bonzinho. O segundo não fica muito distante. É pai carinhoso e marido paciente. Mas mata. Com a abordagem clínica que conduz, Fleischer tenta reproduzir o processo mental do assassino, mostrando-o mais como vítima (de uma doença mental) do que como criminoso.

Do ponto de vista técnico, o filme é um deleite. Fleischer dá atenção maiúscula aos detalhes, abusando de closes e tomadas fechadas. Ele dá atenção especial aos procedimentos investigativos, acompanhando pacientemente o trabalho dos detetives, e evita mostrar os crimes de forma muito gráfica, preferindo as elipses. Grande destaque vai para o trabalho de montagem, que utiliza com abundância anormal o recurso do split-screen (telas divididas), quase sempre nos momentos em que o assassino está agindo ou em que as vítimas dele estão sendo descobertas. Além disso, o terceiro ato – que mostra Albert De Salvo (Tony Curtis) já encarcerado – é especialmente fascinante, embora possa desagradar aos espectadores que prefeririam conferir o clássico jogo de gato-e-rato entre polícia e bandido.

O DVD nacional saiu na série Fox Classics. É simples, não tem extras e a qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é ótima.

– O Homem que Odiava as Mulheres (The Boston Strangler, EUA, 1968)
Direção: Richard Fleischer
Elenco: Henry Fonda, Tony Curtis, Murray Hamilton, Sally Kellerman
Duração: 116 minutos

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3 comentários em “Homem que Odiava as Mulheres, O

  1. Ruth Botelho, eu encontrei estas informações no site do tcm.

    ‘Boston Strangler, The (1968) — (Movie Clip) Don’t Be Sad”

    More than an hour into the film, the star appears, Tony Curtis as Albert DeSalvo, watching coverage of the JFK assassination on TV, with kids and wife (Carolyn Conwell), then going about his business, in The Boston Strangler, 1968.

    Se você quiser assistir ao vídeo, copie e cole o título entre aspas e coloque no google, o vídeo tem 3 minutos de duração.

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