Tubarão

[rating:5]

Depois de ser exibido algumas dezenas de vezes naquelas sonolentas sessões de reprise para insones, nas madrugadas, ele perdeu muito do ineditismo. Há até quem o confunda com uma das ridículas seqüências que foram feitas depois. Pouca gente sabe que ele é o responsável direto pela Hollywood que conhecemos hoje, para o bem e para o mal. “Tubarão” (Jaws, EUA, 1975), o primeiro grande clássico de Steven Spielberg, inaugurou o conceito do blockbuster: filmes para platéias jovens, com ritmo narrativo veloz, equilibrando suspense e humor e apostando alto no marketing e nos efeitos especiais.

Em 1976, Spielberg era apenas um diretor promissor, com dois filmes legais no currículo e faminto por uma produção maior. Quando recebeu o roteiro de “Tubarão”, no entanto, ele pensou em recusar o convite. “Fiquei pensando que era um filme sobre dentistas”, diz, fazendo referência ao título original, que significa “Mandíbulas”.

As filmagens foram de arrancar os cabelos. Com o prazo curto, o diretor teve que ir mudando o roteiro à medida que filmava e se deparava com problemas técnicos. Muitas das cenas previstas no roteiro original tiveram que ser riscadas do filme porque o tubarão mecânico feito para as filmagens (apelidado de Bruce) apresentava defeitos o tempo inteiro. Outras inovações da produção incluem a edição do filme, feita num galpão localizado nos fundos da casa da montadora Verna Fields. Ela foi a primeira montadora a acompanhar as filmagens nas locações (depois isso virou hábito em Hollywood).

Fields tornou-se crucial para o trabalho por causa de uma cena memorável. Após a primeira exibição-teste, em Boston (EUA), Spielberg decidiu incluir uma seqüência, na qual o personagem de Richard Dreyfuss, mergulhando no mar, descobre um cadáver dentro de um barco naufragado. O problema é que essa cena não havia sido filmada e as locações não existiam mais. Dreyfuss foi chamado e Spielberg filmou a seqüência dentro da piscina da casa de Verna – o tipo de coisa amadorística que literalmente seria impossível de realizar hoje.

Todo esse improviso acabou sendo benéfico para o longa-metragem, cuja montagem valoriza demais as cenas subjetivas, filmadas embaixo da água e com o ponto de vista do tubarão. Nele, Spielberg trata pela primeira vez daquele que seria o tema mais recorrente de sua obra: uma família em crise. Para isso, Spielberg focaliza o filme na maneira como o animal (que só é visto por inteiro quase 1h30 depois de iniciado o longa) interfere no cotidiano do chefe de polícia de uma pequena cidade da Flórida, Martin Brody (Roy Scheider).

O aparecimento do bichão é o estopim de uma desarmonia que pode ser desastrosa para o núcleo familiar dos Brody. Trata-se de uma estratégia brilhante de Spielberg, que dessa maneira consegue fazer o espectador se identificar com os medos de um personagem. Ao fechar o foco do filme em Martin Brody, o cineasta faz com que a platéia tenha alguém com quem se identificar. O cineasta sabia que, se fizesse um filme com um protagonista cujos problemas fossem coletivos, e não individuais, a platéia não seria atingida da mesma maneira.

Além disso, Spielberg utiliza com criatividade um velho recurso tornado popular por Alfred Hitchcock, que gostava de gerar suspense fazendo a platéia saber mais do que os protagonistas. Assim, a única seqüência do filme em que Brody não aparece é justamente a inicial, que flagra o primeiro – e mais memorável – ataque do tubarão, a uma garota que toma banho de mar nua, ao nascer do sol. Além da carga sexual implícita, a cena tem o objetivo de colocar o espectador a par da ameaça do tubarão, enquanto toda a cidade parece meio biruta porque não consegue compreender a situação com clareza.

Depois que “Tubarão” ficou pronto, nem todo mundo o achou bom. O estúdio Universal, por exemplo, amarelou. Até então, os grandes lançamentos eram feitos sempre em dezembro. Mas ninguém na Universal achava que “Tubarão” era um grande filme. A nova data passou a ser 20 de julho de 1975. Aí Spielberg apareceu com outra idéia de gênio: aumentar o orçamento do marketing, para despertar o interesse dos estudantes, então de férias – os jovens, na época, estavam mais ligados à TV e quase não iam ao cinema.

O resto é história: “Tubarão” tornou-se o filme mais visto na história do cinema, com 62 milhões de espectadores. A partir daquela experiência, os grandes estúdios passaram a repetir a fórmula: apostar em filmes para jovens, cheios de efeitos especiais e com muitos sustos; guardar os maiores lançamentos para o período de férias escolares nos EUA (entre junho e agosto); e investir pesado em marketing.

Como acontece com os grandes filmes, “Tubarão” ganhou com o tempo. Apesar da fórmula que inaugurou ter sido repetida à exaustão, e na maioria das vezes com resultados bem inferiores, o filme ainda assusta – e faz isso na melhor tradição da escola de Hitchcock. O diretor inglês é referência obrigatória na direção segura de Spielberg. A trilha sonora de John Williams tornou-se uma assinatura para o filme, e a música que sublinha os ataques do animal (duas simples notas, que vão ficando ganhando velocidade e volume à medida em que o bicho se aproxima da futura vítima) tornou-se quase tão famosa quanto o tema do assassinato no chuveiro de “Psicose”, em que foi claramente inspirada.

Spielberg gostou tanto nunca mais deixou de trabalhar com Williams. Com razão. A música anuncia ao espectador a proximidade do tubarão. A melodia familiar sofre variações de altura e velocidade, sempre com o objetivo de comunicar algo que nenhuma tomada visual poderia fazer de forma tão intensa: informar a distância do tubarão para a próxima vítima. É a música que guia as emoções do espectador.

Existem duas versões do filme em DVD nacional. A primeira é a edição especial do 25º Aniversário. Ela tem um disco e contém menos extras. O principal é um documentário de 1995, excelente (50 minutos), com entrevistas de todos os envolvidos, incluindo diretor, produtores, roteiristas, fotógrafo, editor e o elenco completo (à exceção de Robert Shaw, já falecido). Eles contam uma série de histórias curiosas a respeito da produção.

Há onze minutos de cenas inéditas, alguns (na verdade, só dois) erros de gravação e uma galeria de 720 imagens, com fotos da produção e os storyboards completos. No computador, em DVD-Rom, ainda dá para acessar um jogo. Os extras têm legendas em inglês (versão do DVD da Columbia) e em português (tiragem impressa pela Universal).

A edição comemorativa do 30º Aniversário (Universal) traz a versão integral do documentário de 1995 (123 minutos), mais cenas inéditas (17 minutos), os mesmos erros de gravação, mais um featurette (9 minutos) feito em 1974, e as mesmas galerias de fotos e storyboards da edição anterior. Há ainda uma faixa de áudio no formato DTS 5.1, mais forte e cristalina. As duas versões têm eexatamente a mesma transferência de imagem (widescreen).

– Tubarão (Jaws, EUA, 1975)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Roy Scheider, Richard Dreyfuss, Robert Shaw
Duração: 120 minutos

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2 comentários em “Tubarão

  1. Belíssimo artigo sobre um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, um brilhante exercício diretorial.

    Rodrigo, você tem um livro chamado “Steven Spielberg”, da coleção Columbus Filmmakers”? Foi escrito por Danald R. Mott e Cheryl Mcallister Saunders.

    Além da obrigatória biografia, eles dedicam capitulos inteiros para os principais filmes dele até a época de publicação do livro, 1986. Mas ao invés de ser apenas sobre a produção dos filmes e msi, eles fazem o que chamam de “Structural Analysis” onde dissecam os filmes cena a cena, mostrando como o roteiro foi adaptado com as soluções visuais e narrativas dos filmes.

    E a análise que fazem de Tubarão é uma das melhores que já li até agora, 15 páginas bastante elucidativas.

    Entre em contato pelo meu email que a gente pode conversar mais sobre esse assunto, se você quiser.

    Abraços!
    Cristiano

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