Procura da Felicidade, À

[rating:2]

Chris Gardner não é brasileiro, mas não desiste nunca. Este poderia ser o mantra pessoal do protagonista de “À Procura da Felicidade” (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006), melodrama estrelado e produzido pelo ator Will Smith, e um dos grandes sucessos da temporada de Natal de 2006 nos Estados Unidos. O longa-metragem, baseado numa história real, documenta a saga de um homem negro, humilde e sem estudos, lutando para não perder as esperanças e afundar na miséria absoluta. Tudo o que ele tem na vida é paciência e vontade de trabalhar. E um filho pequeno. Ou seja, é um filme sobre o sonho americano, sobre a crença quase mística que os norte-americanos têm na idéia de que o trabalho duro sempre leva as pessoas à riqueza.

O elemento que faz de “À Procura da Felicidade” um trabalho diferente do normal é o recorte que o roteiro de Steve Conrad escolhe para mostrar nas duas horas de projeção. Em um dramalhão habitual, Chris Gardner (Will Smith) passaria uma hora levando pauladas da vida. Na outra metade, teria a recompensa. Por isso, quando o filme vai se aproximando cada vez mais do final e o personagem continua afundando na miséria sem parar, como se estivesse preso em areia movediça, um lampejo de surpresa toma conta da audiência: será que a história vai acabar sem que este homem consiga vencer na vida?

Seria um modo surpreendente, honesto e corajoso de encerrar a obra, lançando-a a um patamar superior. A vida está cheia de trajetórias de gente humilhada e pisoteada do primeiro ao último dia de existência. Só que pessoas assim não viram protagonistas de filmes orçados em US$ 55 milhões. Portanto, no fundo, a platéia sabe que haverá uma reviravolta, ainda que ela demore mais do que o normal para ocorrer. E é por isso – por celebrar, ainda que de modo um tanto sombrio, a essência do sonho americano – que “À Procura da Felicidade” fez uma carreira tão formidável nos EUA, colecionando elogios e atingindo US$ 130 milhões de arrecadação.

No fundo, não é um filme ruim. De algum modo, a trajetória do vendedor autônomo Chris Gardner lembra um pouco o melodrama “Dançando no Escuro” (2000): ele sofre um revés atrás do outro, e quando a gente pensa que ele atingiu o fundo do poço, e não há como descer de nível ainda mais, o filme dá um jeitinho de pisar mais uma vez na cabeça do rapaz e empurrá-lo ainda mais para baixo. Vivendo em San Francisco em 1981, num tumultuado casamento com uma enfermeira (Thandie Newton) e um filho de cinco anos, Gardner faz uma escolha terrivelmente errada – investir todas as economias em um negócio que considera promissor, a venda de equipamentos médicos. O negócio dá errado, e o que se segue é uma sucessão quase ininterrupta de pauladas. Ele vai à falência, fica desempregado, é roubado (duas vezes!), perde a mulher, a casa, vai preso.

A experiência cinematográfica não é das melhores, porque não há variedade de sensações para o espectador; tudo o que podemos sentir é pena e comiseração por aquele estranho, um cara legal, inteligente, bom pai. É inevitável que se torça para que ele vença na vida. A interpretação de Will Smith, muito elogiada nos EUA, dribla a persona do ator – falastrão, engraçado, um cômico bom de improvisos – mas não obtém 100% de sucesso porque existe algo de artificial naquele gesto que ele faz com a boca, como um boi ruminando grama, ou como um ator tentando exprimir uma dor que não está sentindo. Ainda bem que Jaden Smith, que interpreta o adorável filho Christopher, é filho do ator na vida real. A química entre os dois é excelente, e se transforma no ponto forte do filme.

Na parte técnica, “À Procura da Felicidade” não é brilhante, mas também não compromete muito. A direção de arte reconstrói a San Francisco de 1981 com qualidade (observe os táxis que circulam pelas ladeiras características da cidade com luminárias ilustradas com a foto de Robert De Niro em “Touro Indomável”, um dos grandes filmes da época), mas suaviza bastante a miséria que Chris Gardner experimenta. O que dizer, por exemplo, do banheiro da estação de trem onde ele é obrigado a dormir uma noite, em certo ponto da jornada? Você já viu um banheiro público tão limpo como aquele?

É interessante observar que “À Procura da Felicidade” marca a estréia do diretor italiano Gabriele Muccino em Hollywood. Outrora considerado um promissor cineasta dramático na terra de Fellini, Muccino atua aqui como um cineasta de aluguel, sem conseguir impor qualquer tipo de marca registrada. De fato, este é um filme chapa-branca de Will Smith, que comprou os direitos da história verdadeira (o longa é baseado na autobiografia do verdadeiro Chris Gardner), escolheu o elenco e o diretor, e vendeu o projeto à Sony Pictures. Não é a idéia que as pessoas fazem de diversão para um domingo à noite, mas tem lá alguns momentos interessantes.

O lançamento da Sony é um disco simples, com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem quatro featurettes (sobre o diretor, o verdadeiro Chris Gardner, a relação entre Will Smith e o filho e o truque do cubo), comentário em áudio com o diretor e clipe musical.

– À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006)
Direção: Gabriele Muccino
Elenco: Will Smith, Jaden Christopher Smith, Thandie Newton, Brian Howe
Duração: 117 minutos

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3 comentários em “Procura da Felicidade, À

  1. Migão,

    Porque um filme só é lançado a um patamar superior se termina em desgraça?
    Quer dizer que o Cris original, se quisesse que sua história fosse para o cinema, teria que ter se estrepado na vida, para que, ironicamente, sua trajetória virasse um filme de um patamar superior e assim conseguir sair da miséria?

    Já li isso também no Mais Estranho que a Ficção; o filme vai excelentemente bem até o final, aí se perde porque não tiveram coragem de matar o cara, aí sim o filme seria um filmaço, igual ao Adaptação, esse sim…

    Acho que tem horas que a gente acredita/aceita que o filme tomou vida própria….assim como a escritora, ironicame, concluiu por mais estranho que pareça.

    Ah, o Em busca da Felicidade não é um filmão….mas aproveitei o gancho para rever esses clichês (sim os críticos também se valem deles) de finais de filmes.

    Clichês;
    Na parte técnica o filme é perfeito….
    Não vou me estender na parte técnica….como assim? se é umas das coisas que não nos saltam aos olhos! Ao invés disso, muitos críticos apelam para a parte “filosófica” do filme que, aí sim, todo mundo tem a sua.

    Sabia que uma das coisas que aprendi lendo críticas foi o tal lance do erro de linha de 180 graus….?
    Ou que a parte do tiroteio/perseguição do Fim dos Dias foi feita sem nehum corte…

    De vez em quando poderia-mos nos extender mais nesses toques..né não?!

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  2. Tchelo, eu adoraria me estender na resposta, mas não vejo necessidade. O filme não é perfeito na parte técnica (você deve ter notado que eu fiz uma crítica pertinente à direção de arte, quando falei do banheiro público mais limpo do universo – e direção de arte, convenhamos, faz parte da técnica de um filme ). Narrativa? Sim, acho ruim: o diretor não modula sua mensagem, simplesmente segue dando uma porrada atrás da outra no personagem. Isso é um defeito. Técnico. E em momento algum eu falei que o final estraga o filme, como você deduziu. Eu acho é que o filme se estraga sozinho. Abraços.

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