Gosto de Sangue

[rating:4]

Pouco conhecidos pelo grande público, mas tremendamente respeitado por cinéfilos e integrantes da comunidade cinematográfica, os irmãos Joel e Ethan Coen são donos de uma das mais consistentes carreiras do cinema independente. Vários dos filmes que dirigiram, como “Barton Fink” (1991) e “Fargo” (1996), são obras-primas de humor negro, quase sempre enfocando personagens que põem em curso, com atitudes inofensivas, uma corrente descontrolada – e às vezes sangrenta – de eventos criminais. “Gosto de Sangue” (Blood Simple, EUA, 1984) é a estréia da dupla de diretores, e confirma que os dois já eram craques desde o começo da carreira.

Filmado de forma independente, sem o apoio de grandes estúdios, “Gosto de Sangue” chamou a atenção após uma vitoriosa exibição no Festival de Sundance, onde ganhou um prêmio em 1982. Antes de chegar às telas, contudo, o filme ficou no estaleiro por dois anos, esperando que os irmãos Coen conseguissem um bom contrato de distribuição. O sucesso de público não veio, mas a boa receptividade em Cannes garantiu aos Coen a continuidade de uma carreira autoral de longa duração, nos subterrâneos de Hollywood, com qualidade e consistência pouco encontradas em produtos norte-americanos.

Curiosamente, para comemorar os 20 anos da estréia cinematográfica, Joel e Ethan (apenas o primeiro assina como diretor, uma atitude que virou tradição nos filmes da dupla, embora se saiba que os dois trabalham juntos no roteiro e nos sets de filmagens) se debruçaram sobre o filme para criar uma versão do diretor. Ao invés de acrescentar trechos cortados, porém, os dois fizeram o aposto: eliminaram quatro minutos, para criar um ritmo mais constante e rápido, e acrescentaram algumas canções na trilha sonora. As músicas não haviam entrado antes por falta de orçamento.

O filme é a cara dos irmãos Coen, homenageando os antigos filmes noir sem, no entanto, tentar copiá-los. O evento que dá partida à trama cheia de lances desconcertantes é uma traição – nada mais noir do que isso, certo? O dono de um bar no Texas, Julian (Dan Hedaya), manda um detetive particular (M. Emmet Walsh) seguir a esposa (Francês McDormand) e confirma que ela o está traindo com um empregado do boteco (John Getz). Furioso, o homem pede que o detetive mate os dois amantes, enquanto passa uma temporada fora da cidade. O que acontece a seguir… bem, é tão inesperado que funciona melhor quando não se sabe nada sobre.

As surpresas são incessantes neste longa-metragem lento, sangrento (a violência crua foi objeto de polêmica à época do lançamento original) e dono de um humor negro peculiar. As performances dos atores são excepcionais, com destaque para M. Emmet Walsh, ao mesmo tempo hilariante e aterrorizante, e para Frances McDormand, espetacular no papel de uma dama fatal às avessas. Vale lembrar que Frances só assumiu o papel depois que a amiga Holly Hunter, escalada pelos irmãos Coen, teve que recusar a oferta e a indicou. A atriz acabaria casando com Joel Coen e iniciando uma discreta parceria que culminaria com um Oscar de melhor atriz (em 1997, por “Fargo”). Filmaço, que conta ainda com uma bela fotografia escurecida e com a familiar atmosfera híbrida de melancolia e bom-humor, um clima que os dois irmãos cineastas se tornariam especialistas em reproduzir.

A edição nacional em DVD, da Europa, não é muito boa. Sem extras, o disco contém o filme com imagem cortada nas laterais (fullscreen 4:3) e áudio apenas razoável (Dolby Digital 2.0). A edição presente é a chamada versão do diretor, com quatro minutos a menos do que aquela lançada originalmente.

– Gosto de Sangue (Blood Simple, EUA, 1984)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Francês McDormand, John Getz, Dan Hedaya, M. Emmet Walsh
Duração: 96 minutos

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Um comentário em “Gosto de Sangue

  1. Assisti a pouco tempo e considero junto de “No country for old men” o melhor filme dos irmãos. E olha que já assisti a praticamente todas as suas obras.

    Aquele climão do Texas com músicas country, e a atmosfera tétrica que toma conta do filme o tornam excelente.
    Uma das poucas críticas que faço ao cinema dos Coen´s é o fato de eles tenrarem ser “cult” o tempo todo em algumas cenas, as tornando forçadas. Mas neste filme isso ainda não acontece, tudo é muito natural e sem dúvidas uma explosão de talento

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