Ladrões de Bicicleta

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“Ladrões de Bicicleta” (Ladri di Biciletti, Itália, 1948) está para o neo-realismo italiano como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” para a ficção científica, ou como “À Beira do Abismo” para o filme noir, ou ainda como “Rastros de Ódio” para o faroeste. É o filme mais importante dentro de seu gênero, o mais famoso, o mais conhecido. Embora não seja o inventor do neo-realismo, certamente foi a obra que melhor sintetizou os elementos do gênero, transformando-se em paradigma para tudo o que veio depois. Continua, até hoje, o título mais lembrado quando se fala de neo-realismo italiano.

Para entender tamanha fama, é preciso contextualizar o lançamento do longa-metragem. Em 1948, a Europa vivia uma fase de renascimento e efervescência cultural, mas também convivia com a fome e a miséria absoluta. As duas coisas eram conseqüências diretas da II Guerra Mundial, que havia terminado em 1945, com o continente inteiramente devastado. O cinema neo-realista, que sempre se pautou por uma narrativa mais seca e concisa, tentava reproduzir a realidade sem floreá-la (como faziam os melodramas, faroestes e policiais de Hollywood). Isso significava o uso de técnicas quase documentais, bem como a utilização de atores amadores.

A produção de Vittorio De Sica foi uma consagração completa de crítica e público. Além de se tornar o longa mais visto na Itália em 1948, também entrou direto no topo das listas de grandes filmes da história, em quase todas as listas realizadas por publicações de prestígio. O filme foi tão influente que levou vários preceitos neo-realistas para dentro da indústria cinematográfica norte-americana, pondo um pé no freio das narrativas cada vez mais sonhadoras e escapistas produzidas na Meca do cinema. Mesmo décadas depois, em condições históricas muito diferentes, “Ladrões de Bicicleta” continua um filme muito moderno, ágil e rápido.

Além disso, é um exercício interessante vê-lo com os olhos de hoje (2007), porque apesar de carregar o rótulo de realista, ele não parece exatamente realista. Por exemplo, a edição utiliza trilha sonora com abundância, e a música é um elemento evitado por todos os filmes contemporâneos que seguem uma veia mais naturalista. Isto é algo que acontece por uma razão simples: a vida real não tem trilha sonora. Se não dá para ter certeza, podemos pelo menos apenas supor que De Sica usou música porque não fazê-lo seria romper de forma tão radical com a tradição narrativa do cinema clássico que isso afastaria o público.

Outro detalhe que impede o filme de exalar um realismo cru é a fotografia, já que as câmeras se movem de forma 100% profissional e elegante. O filme valoriza composições bem elaboradas, inclusive com utilização abundante da profundidade de campo (ou seja, há ações ocorrendo em segundo plano, e o filme se preocupa em enquadrá-las e enfocá-las corretamente). É importante lembrar que a profundidade de campo era um recurso relativamente recente em 1948, tendo ficado realmente popular apenas após o lançamento de “Cidadão Kane”, que tinha ganho as primeiras exibições na Europa somente três anos antes, após o final da II Guerra Mundial.

Por outro lado, há inovações importantes a considerar. O diretor italiano evitou, por exemplo, o uso de close ups nos rostos dos atores, optando por filmar tudo em planos médios ou tomadas gerais, com a câmera posicionada bem longe da ação principal. Esta estratégia empresta ao filme uma estética bem mais sóbria e discreta do que o normal, pois sabemos que o close – especialmente o close do rosto humano – é um recurso utilizado, na gramática do cinema, para gerar emoção. Sem closes, o filme parece mais duro, mais seco, mais contido do que o normal.

Por fim, é fundamental lembrar que “Ladrões de Bicicleta” alcança plenamente um dos ideais mais importantes do neo-realismo, que era criar um registro histórico fiel dos primeiros anos do pós-guerra. Isto é conseguido tanto do ponto de vista da produção (atores semi-profissionais, cenas filmadas em locações reais) quanto da narração, já que a história aborda com propriedade a situação social-econômica da Itália naqueles anos difíceis: o desemprego, a fome, a falta de dinheiro, a dificuldade de transporte, os recursos materiais finitos e suas conseqüências mais problemáticas, como o crescimento do crime. Tudo isso está encapsulado perfeitamente na história do homem pobre (Lamberto Maggiorani ) que persegue desesperadamente o sujeito que lhe roubou a bicicleta, instrumento sem o qual ele não pode trabalhar. Para completar, o final, com sua amarga ironia, é espetacular.

A edição brasileira desta clássico, lançada pela Versátil, é muito boa. Embora o disco seja simples, a cópia do filme foi inteiramente restaurada, gerando uma imagem (fullscreen, 4:3) de excelente qualidade. O áudio (Dolby Digital 2.0) também é bom. Os extras incluem documentário sobre De Sica (54 minutos), três entrevistas de especialistas (19 minutos), um featurette sobre a restauração (10 minutos) e uma galeria de fotos.

– Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciletti, Itália, 1948)
Direção: Vittorio De Sica
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda
Duração: 90 minutos

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5 comentários em “Ladrões de Bicicleta

  1. Muito bom filme. O De Sica foi de uma sensibilidade genial e criou um enredo muito, mais muito realista (como se não devesse ser). Realmente é um filme bem família, legal para se tirar lições sobra honestidade, lealdade, amor e etc. Gostei demais. Pena que os filmes do neo são (um pouco) de difícil acesso aqui em Recife. Existe algum lugar bom para se adquirir bons filmes do Neo por aqui Rodrigo??? Abraços.

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  2. Rodrigo,

    gostei bastante do seu texto, mas você deve ler e compreender mais afundo o que foi a estética neo-realista e o que alguns conceitos que você citou em partes técnicas cinematográficas estão muito rasos. Se você der uma lida nos textos que coloco a baixo entederá o que estou falando.
    O conteúdo e a estrutura narrativa do texto está muito boa, mas falta mesmo um aprofundamento para que seu texto fique 100%!

    BAZIN, Andre. Cinema: ensaios. Editora Brasiliense: São Paulo, 1991.

    GEADA, Eduardo. Os mundos do cinema: modelos dramáticos e narrativos no período clássico. Editorial Notícias: Lisboa, 1998.

    Bom é isso, espero que não fique ofendido, não estou com o intuito de ficar te xingando a toa. não estou julgando se gostei ou não do que você escreveu. apenas um pouco mais de aprofundamento vai ficar lindo!

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  3. Camil, conheço os dois livros que você citou (e outros). Mas isso aqui é uma crítica, não um ensaio acadêmico. O aprofundamento que você sugere (e seria interessante que você dissesse em que pontos valeria a pena fazê-lo) só seria viável nesse caso. O objetivo dos textos deste site não é ensaístico, e acho que isso está claro no projeto editorial. Abs!

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