Rocky Balboa

[rating:3.5]

Se a carreira de Sylvester Stallone definhou até um estágio quase vegetativo, ninguém a não ser o próprio ator tem culpa no cartório. Foi ele mesmo que, depois de ganhar o Oscar de melhor filme com o interessante “Rocky”, de 1976, desistiu de fazer cinema sério para explorar o personagem como quem chupa uma laranja até o bagaço. Fez quatro seqüências caça-níqueis, de qualidade duvidosa, e expôs não apenas o lutador, como também seu outro personagem importante (o tenente John Rambo), ao ridículo. “Rocky Balboa” (EUA, 2006), sexta seqüência do filme original, soa simultaneamente como adeus e pedido de desculpas do diretor e astro aos fãs, por ter transformado Rocky em uma caricatura de si mesmo.

Curiosamente, o filme cria um nítido diálogo entre ficção e realidade, gerando um paralelo interessante entre a criatura e o criador, entre Rocky e Stallone. Esta tensão realidade/ficção é explorada sem pudor pelo outrora grande astro (que também escreveu o roteiro do longa-metragem, e portanto leva crédito completo pela ousadia). Ela acaba adicionando à película uma dimensão extra, mais rica, que é a melhor coisa do filme. No fundo, trata-se de uma história sobre a chegada da velhice, e o inevitável acerto de contas com o passado que ela proporciona. O tema dá a Stallone a oportunidade de tentar devolver à franquia o espírito rústico e honesto do primeiro filme. Não é um grande trabalho, mas está longe de ser um caça-níquel barato, e isto é o melhor elogio que “Rocky Balboa” poderia receber.

De fato, o enredo elaborado pelo ator não passa de uma variação da história mostrada em “Rocky, o Lutador”. A história encontra Rocky (Stallone) aposentado há muitos anos e dirigindo um pequeno restaurante em Nova York, chamado Adrian’s (homenagem à falecida esposa, cujo túmulo Rocky visita religiosamente). O lugar é um templo da nostalgia, freqüentado por admiradores do antigo ídolo, que estão mais interessados em tirar uma foto com ele do que na comida em si. O espírito de nostalgia não incomoda o lutador, já que ele mesmo é um nostálgico de carteirinha, e sente falta dos ringues. Rocky tem um filho (Milo Ventimiglia) que trabalha na bolsa de valores e vive, emburrado, sob a sombra do pai. Eles não se dão bem.

Nas entrelinhas, o tema é a busca pela identidade, a necessidade orgânica que cada um de nós sente de encontrar seu lugar, e se manter fiel a ele custe o que custar. Para Rocky, isto significa estar no ringue. À beira dos 60 anos de idade, ele sabe que não tem mais chances de lutar profissionalmente, mas mesmo assim sonha com isso. E a chance acaba aparecendo, quando um famoso programa esportivo de TV simula um combate em computador entre Rocky e o atual campeão mundial dos pesos pesados, Mason Dixon (Antonio Tarver, boxeador de verdade, ex-detentor do cinturão dos meio-pesados). Dixon é uma máquina de bater: está invicto e vence os combates facilmente, embora seja criticado pelo mau-humor. Seu agente vê na briga de mentirinha, popular entre espectadores, uma chance de dar carisma ao rapaz, e acaba propondo uma luta de verdade entre o campeão e o lutador aposentado.

Os dois primeiros terços da projeção, que mostram Rocky enfrentando de cara limpa os problemas pessoais – a relação difícil com o filho, as discussões públicas com o genro Paulie (Burt Young) – rendem um filme bem razoável. Pela primeira vez desde 1976, Rocky Balboa parece um ser humano de carne e osso, e não um bonequinho de plástico que passeia por histórias simplórias antes de levar porrada e nocautear solenemente um adversário qualquer, como ocorreu nas quatro seqüências da obra original. Talvez seja por isso que Sylvester Stallone tenha se recusado a intitular o filme como “Rocky 6”. Ao colocar o sobrenome do personagem no título, e não usar números, Stallone está mandando um recado aos fãs: este é Rocky, um ser humano de verdade, cara simples e bruto, de raciocínio meio lento mas enorme coração.

Infelizmente, o diretor derrapa quando o filme se aproxima do clímax (obviamente, a luta entre o campeão de hoje e o de ontem), exagerando na enorme quantidade de cenas que remetem ao longa de 1976 (Rocky treinando ao som de rock pesado, Rocky correndo pelas ruas com um cachorro, Rocky subindo as escadarias do Palácio da Justiça da Filadélfia). Além disso, é impensável que um sujeito com 60 anos de idade, mesmo dando duro em uma academia de ginástica várias horas por dia, consiga realmente lutar boxe em pé de igualdade com um campeão de 20 e poucos anos. De qualquer forma, assistir a uma derrota humilhante de Rocky – algo normal para as circunstâncias da luta – talvez causasse uma rejeição completa do longa pelos fãs. No fim das contas, “Rocky Balboa” é um filme honesto, que honra a memória do personagem. É o melhor que se poderia pedir a Sylvester Stallone.

– Rocky Balboa (EUA, 2006)
Direção: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Geraldine Hughes, Milo Ventimiglia, Burt Young
Duração: 102 minutos

7 comentários em “Rocky Balboa

  1. Gostei do texto, mas discordo de algumas coisas: Rocky treinando ao som de rock pesado? O filme jamais poderia deixar o tema clássico da série “GONNA FLY NOW” de lado, que é à única que toca durante o treinamento e não tem nada à ver com “rock pesado”.

    Fez quatro seqüências caça-níqueis, de qualidade duvidosa, e expôs não apenas o lutador, como também seu outro personagem importante (o tenente John Rambo), ao ridículo? Discordo!

    Às seqüencias podem não ter à qualidade do original (1976 ) ou até mesmo do último (2006) mas não acho que cairam no ridículo. cada um tem seu valor e não é preciso ser fã para percebê-los.

    Histórias simplórias nas seqüências? Desafio qualquer roteirista hollywoodiano dessa nova safra (os quais vc mesmo elogia) à desenvolver um roteiro tão forte, denso e difício como o Rocky 3.

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  2. Pois é, Gelikom. Todos nós fãs sabemos disso, às qualidades estão lá e stallone leva crédito por isso. É um dos poucos atores/diretores que merece ser tratado com,no mínimo,respeito.
    Os Críticos ( com excessão de alguns, mas muito poucos ) são pessoas que assímilam fácilmente o que lhes parecem ser à opinião da maioria. Bichos-esponjas, Maria-vão-com-as-outras. Dão à nota sem mesmo ver à execução do produto. Basta ser com Sly, pronto, não presta. Uma pena!

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  3. Rodrigo, você não precisa impressionar para escrever uma crítica. Seja honesto. Ou no mínimo, pense duas vezes no que escreve: reconheça as qualidades da série antes de cruzar as pernas e tecer críticas.

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  4. E quais seriam as qualidades cinematográficas da série, Renan? Você não disse quais são. Se limitou a pedir que eu “seja honesto” (e é preciso muita ingenuidade pra imaginar que eu vá perder meu tempo escrevendo uma só palavra em que eu não acredite, o que configuraria, aí sim, uma desonestidade). Eu gostaria de saber quais as qualidades que você enxergou e eu não.

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  5. Então vou ser honesto: “Nas entrelinhas, o tema é a busca pela identidade, a necessidade orgânica que cada um de nós sente de encontrar seu lugar, e se manter fiel a ele custe o que custar.”
    Eu achei isso risível. A questão do filme é a passagem do tempo, não simples nostalgia ou busca de identidade. Ele sedimenta no personagem as camadas da perda da mulher e da passagem no tempo para o Rocky que se configuram nas mudanças físicas: as casas, a ruína do bairro etc. Isso toca na questão da identidade, mas falar simplesmente isso é tão banal, como se iludir em elencar “necessidades orgânicas” é tão ingênuo…
    Quando te pedi honestidade, não é simplesmente falar o que pensa e: “pronto, agora sou honesto”. Digo isso para você tentar ser mais criterioso, principalmente porque você é estudante do tema. Critério no sentido de que você tem que pesar as coisas antes de escrever. Não confunda revisão textual e montagem dos argumentos com a honestidade acadêmica.

    p.s. Desculpe, mas fiquei só no Rocky Balboa, não vou me alargar para falar de filme por filme.

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  6. Lamento que você tenha achado minha observação risível. É absolutamente natural discordar dela. Também concordo com você sobre a questão da passagem do tempo, porque o filme trata disso também. Daí a achar que a busca da identidade é um tema “simples”… De toda forma, continuo honestamente fiel ao meu primeiro comentário – e discordo veementemente quando você coloca sua discordância num termo que considero ofensivo. Pode me chamar de superficial, até burro se desejar, mas desonesto é algo que não sou. Paro por aqui.

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