Sacrifício, O

[rating:2.5]

Em meio à crise enfrentada pelo cinema desde 2004, com crescentes quedas de faturamento nas principais bilheterias do mercado em todo o mundo, apenas dois gêneros continuam dando lucro certo: comédias e filmes de horror direcionados a adolescentes. Assim, é natural que os grandes estúdios de Hollywood estejam apostando cada vez mais em projetos de médio porte, já previamente testados com sucesso, que se encaixem nesses dois filões. É dentro deste contexto que deve ser compreendido o apenas razoável “O Sacrifício” (Wicker Man, EUA/Alemanha, 2006), mais burocrático longa-metragem dirigido pelo canadense Neil LaBute (“Enfermeira Betty”).

“O Sacrifício” é a refilmagem de um obscuro título de horror britânico de 1973. O filme original, lançado no Brasil como “O Homem de Palha”, é um dos filmes prediletos do legendário Christopher Lee, e permanece muito cultuado entre platéias de fanáticos pelo gênero, embora seja relativamente desconhecido do grande público. Esta característica explica porque executivos da produtora independente Lions Gate botaram US$ 40 milhões no projeto, um orçamento caprichado, ainda que modesto para os padrões das superproduções habituais. O resultado final pouco altera os rumos da história original, mas são justamente as mudanças – feitas para incluir mais sustos e suavizar o pesado conteúdo sexual do filme de 1973 – as responsáveis pelo fracasso artístico e comercial da produção.

O roteiro, escrito pelo próprio LaBute, não hesita em transferir a ação da costa gelada da Escócia para o igualmente gelado e longínquo estado norte-americano do Maine. É uma mudança comum em quase todos os remakes conduzidos nos EUA, já que o povo do país não costuma mostrar interesse por outras culturas. O perfil do protagonista e a linha-base da história são mantidos: Edward Manus (Nicolas Cage) é um solitário policial levado a investigar o desaparecimento de uma criança, em uma ilha quase deserta, onde habita uma comunidade de extravagantes hábitos religiosos, bastante avessa à presença de estranhos.

Manus descobre esse último detalhe ao perceber a fria recepção dos ilhéus, quando chega ao povoado local. Eles não escondem o desconforto com a presença do policial. E negam sem rodeios a existência da criança desaparecida. O detetive, contudo, não demora a desconfiar que todos estão escondendo algo. No decorrer da investigação, vai tomar contato com os exóticos rituais religiosos praticados no povoado, onde praticamente só vivem mulheres, sob a liderança da misteriosa Irmã Summerisle (Ellen Burstyn). A investigação rapidamente aponta para um possível envolvimento entre o culto e o sumiço da pequena Rowan (Erika Shaye-Gaye).

O prólogo que abre “O Sacrifício” serve como bom exemplo para ilustrar como as modificações feitas por LaBute são desnecessárias, inócuas, sem acrescentar nenhuma informação relevante à trama. A seqüência mostra Edward Manus presenciando um horrível acidente, envolvendo uma criança, que o deixa traumatizado. A cena vai introduzir à narrativa um dos piores e mais repetidos clichês de filmes de horror, sendo repetida abruptamente em duas ou três ocasiões – que descobriremos serem pesadelos ou imaginação do protagonista – apenas para provocar sustos gratuitos na platéia.

Além disso, na tentativa de conseguir uma censura baixa (e, conseqüentemente, atrair mais adolescentes para a platéia), Neil LaBute eliminou quase por completo o caráter dionisíaco dos rituais levados a cabo na ilha. O filme de 1971 aproveitava todas as chances que podia para mostrar cerimônias pagãs onde mulheres peladas apareciam dançando ao som de canções medievais. Já o conteúdo de “O Sacrifício” é bem mais familiar. Não há referências sexuais, e o enredo até mesmo providencia uma ligação afetiva entre o detetive e a vítima, já que na refilmagem a mãe da menina desaparecida (Kate Beahan) é uma ex-noiva de Edward Manus.

Para completar a coleção de equívocos, os marqueteiros responsáveis pela promoção do longa-metragem erraram feio ao criar o pôster principal da campanha publicitária. Nele, aparece a imagem de uma menina de olhos brancos, sem pupilas, como se estivesse possuída por um demônio. No entanto, a natureza do mistério de “O Sacrifício” não tem absolutamente nada de sobrenatural, como o tal pôster indica, e isso pode ser uma grande decepção para parte do público. Talvez por causa disso, o filme bombou nas bilheterias norte-americanas, amealhando apenas US$ 22 milhões, pouco mais da metade do orçamento do projeto.

É bom deixar claro, porém, que apesar de perder na comparação com o original de 1971, a produção de Neil LaBute tem pontos positivos. O diretor soube manter a atmosfera desolada, utilizando belas imagens da natureza e tingindo a fotografia principal com uma coloração dourada que cai muito bem na atmosfera mística da história. O andamento lento mantém o clima de mistério durante toda a duração do filme, liberando informações a conta-gotas e mantendo o público sob tensão. Por fim, é salutar perceber que LaBute manteve intacto o final audacioso do filme anterior. Entre prós e contras, “O Sacrifício” consegue se salvar como diversão despretensiosa para quem curte filmes de horror.

O DVD é um lançamento da Califórnia Filmes. O disco é simples e sem extras, contendo o filme com qualidade boa de imagem (widescreen letterboxed) e som (Dolby Digital 5.1).

– O Sacrifício (Wicker Man, EUA/Alemanha, 2006)
Direção: Neil LaBute
Elenco: Nicolas Cage, Kate Beahan, Frances Conroy, Ellen Burstyn
Duração: 102 minutos

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3 comentários em “Sacrifício, O

  1. Bom texto.Eu sou um grande fã do filme original dirigido por Robin Hardy, e gostaria apenas de fazer uma pequena correção: o filme original é de 1973, não de 1971.
    Grato

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  2. Bem… confesso que nunca me atraiu a idéia de locar o dvd (ou comprar) e assistir ao sacrifício, portanto, esperei chegar nas telinhas da Rede G… Vi então o filme esta semana que se passou. Sinceramente, não gostei. Também nunca assisti ao Homem de Palha, mas esse O sacrifício, na minha opinião, é nostalgico demais e as atuações são péssimas. O Nicolas Cage está horrível no papel, soando antipático em todos os momentos, até quando está em apuros, não senti vontade alguma que se salvasse (verdade!!). Certo que todas as dublagens retiram a qualidade do filme e tal, mas a dublagem do Sacrifício foi a pior que eu já ouvi na vida. Ter que escutar uma voz ínfima dublando o Nicolas e gritando Primaveraaaa, milhares de vezes, é muito chato. A fotografia… bem… confesso que eu não gostei muito também não, achei muito artificial, abusaram do dourado, o sol nascendo parecia desenho animado. Mas tá certo. Vou assistir de novo, agora em dvd, pra ver se (sem a dublagem podre) capto mais da sensibilidade do filme.

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