Factotum – Sem Destino

[rating:3.5]

O independente “Factotum – Sem Destino” (EUA/Noruega, 2005) é baseado em contos e poemas do lendário escritor Charles Bukowski, o bêbado profissional mais festejado por rebeldes, com ou sem causa, de sensibilidade artística aguçada. Quem já leu Bukowski vai se identificar de imediato com a atmosfera triste e letárgica da obra de Bent Hamer. O diretor foi feliz em traduzir para o meio audiovisual o clima de ressaca dos livros de Bukowski. “Factotum” não é sobre a fauna que habita o submundo boêmio da noite; é sobre a manhã seguinte. Tem gosto de cabo de guarda chuva na boca, exatamente como a prosa produzida pelo escritor.

A rigor, a película não é uma tentativa de biografia do romancista maldito, mas sim uma colagem informal de contos, poemas e trechos do romance que leva o mesmo título do livro. Não é uma tarefa especialmente difícil, uma vez que o alter-ego literário de Bukowski sempre foi um só. Henry Chinaski (Matt Dillon) personifica a auto-imagem que o escritor sempre projetou sobre si mesmo: um vagabundo anestesiado, homem triste e solitário, que afoga as mágoas em grandes bebedeiras, se diverte em apostas de corridas de cavalos e faz sexo com qualquer ser que tenha duas pernas e faça xixi sentado.

Chinaski, é preciso que se diga, não reflete fielmente o homem que foi Bukowski. O melhor biógrafo do escritor de ascendência alemã, Howard Sounes, sustenta que o homem bebia, jogava e trepava muito menos do que fazia crer nos seus escritos. Mas ele seguia fielmente a tradição romântica da boêmia implacável como fonte de pureza artística, algo popular no Ocidente desde Baudelaire, Rimbaud e Lautreamónt, ou seja, a França do século XIX. Posto isso, é preciso que se diga: Bent Hamer não está interessado em biografar Bukowski, mas apenas em transportar para outra mídia a poesia desse marginal das letras que virou ídolo pop estampado na camiseta de Bono Vox (U2).

“Factotum” se sai razoavelmente bem na tarefa. É um filme de ritmo lento, contemplativo, silencioso, que narra uma fatia da vida fictícia do vagabundo Henry Chinaski. A vida do rapaz consiste, basicamente, em permanecer o mínimo possível em empregos de quinta categoria, apenas para poder voltar à fila do seguro-desemprego e gastar os cheques em garrafas de vinho barato, lápis e cadernos de anotações. Nesse meio termo, pausas apenas para visitas ao hipódromo e para conhecer mulheres sem rumo como ele. É o caso de Jan (Lily Taylor) e Laura (Marisa Tomei).

Leitores neófitos de Bukowski podem imaginar que o filme seja uma espécie de viagem lisérgica ao submundo da noite de Minneapolis, a cidade-natal de Chinaski. Estão terrivelmente errados. “Factotum” não celebra nem glamouriza a bebedeira; narra tudo com distanciamento formal, sintetizado na excelente tomada em que o protagonista fuma numa minúscula janela de um depósito de freios automotivos, enquanto a câmera se afasta progressivamente, revelando uma interminável parede inteiriça de tijolos vermelhos, com apenas aquele minúsculo buraco no meio.

A cena simboliza o isolamento de Bukowski, um homem que não pertenceu a nenhum movimento (há quem acredite que ele foi da geração beat, outro erro grosseiro) e nem estava particularmente interessado nisso. Seu jogo era solitário; o que lhe atraía na bebida era a experiência da embriaguez, não a fauna boêmia dos bares de segunda. Há provavelmente mais cenas dos personagens bebendo sozinhos em cozinhas e quartos empoeirados do que em bares. Bent Hamer fez a lição de casa direitinho.

Quem leu Bukowski vai reconhecer de imediato o clima funesto dos romances. De qualquer forma, o filme não captura inteiramente a experiência de ler a obra de Bukowski; sua proza funciona melhor em livro. Talvez isso ocorra porque a prosa dele tem um senso de humor depressivo, um tanto desolado, mas que funciona direitinho no papel. Na telona um pouco desse humor se perde, e o filme fica mais deprimente do que engraçado, apesar de retratar bem a ambientação.

Esse ambiente solitário ganha realce na cenografia e na iluminação, bem distantes do que se espera de um filme de Hollywood. As locações em geral são bares decrépitos e quartos de motel, e parece que faltou coragem de mostrá-las sujas como deveriam ser, mas mesmo dão para o gasto. Já a luz é fria, uma luz de fim de tarde, difusa, fraca e cheia de sombras. A combinação das duas coisas, junto com o silêncio geral (quando há música, quase sempre é ambiente) cria um clima melancólico que se adequa perfeitamente à narrativa.

O maior destaque de “Factotum” é a performance de Matt Dillon. O ator incorporou não apenas a figura física de Bukowski – a barba rala, os olhos fundos e injetados, as camisas de botão brancas e largas – mas também a postura corporal e o jeito de ser: o andar letárgico, o olhar sempre para baixo, a dificuldade de entabular uma conversa, quase sempre dando respostas curtas que tentam encerrar qualquer tentativa de diálogo. Mérito também para Hamer e Jim Stark, autores do roteiro.

Talvez a grande cena do filme, a cena que melhor explique Chinaski, seja aquela em que ele volta à casa dos pais quando fica sem dinheiro. Ele senta na mesa e come, diante do pai, que de cara amarrada resmunga: “Você não tem nenhum ímpeto, nenhuma ambição. Como vai conseguir sobreviver?”. Chinaski levanta os olhos tristemente para o pai, o fita por um segundo, e então baixa a vista e continua a comer. Não dá uma palavra. Nem precisa. Ele não tem resposta para aquela pergunta, nem sequer deseja respondê-la. O filme também não.

O DVD da Califórnia Filmes não tem extras. A qualidade da imagem é razoável (wide letterboxed) e o áudio é bom (Dolby Digital 5.1).

– Factotum – Sem Destino (EUA/Noruega, 2005)
Direção: Bent Hamer
Elenco: Matt Dillon, Lily Taylor, Marisa Tomei, Fisher Stevens
Duração: 93 minutos

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3 comentários em “Factotum – Sem Destino

  1. Rodrigo.
    Discordo de alguns pontos levantados por voce. Eu assisti o Cronica de um amor louco, que é uma produção italiana, e fiquei bastante impressionado pelo roteiro e pelo otimo desempenho do ator principal. Tem também o Barfly que é bem forçado com o Mickey Rourke, o proprio buk participa do filme na consultoria de personagem e numa cena no bar no inicio do filme.
    Ainda tem um documentario Born into This , que o Buk fala odiar a forma forçada de Rouke imitar o jeito dele e a demasiada aura cool e espalhafatosa. ele fala que ficou fake demais.
    Falo isso tudo para chegar no Factotum. Tudo é muito pior. a começar que não é o melhor livro dele na minha opiniao. Depois o Matt Dillón é tão expressivo quando a garrafa de bebida que ele carrega sozinho. Enfim é muito sem graça (o velho buk era muito engraçado nas descrições da vida cotidiana) e não tem a poesia que era marcante no velho safado. (ele é conhecido mais nos estados unidos pela poesia). O Dillon não ri, não sofre, não faz porra alguma (desculpas pela expressao) e até a cena de sexo é de uma tão sexy quanto a cena dele esmurrando um anao no inicio do filme.
    Sem graça e sem sentido. Uma pena.

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  2. Caros, passando por aqui, não pude deixar de ler tanto a crítica feita por Rodrigo Carreiro, como o comentário do Anderson. Estudo a obra de Charles Bukowski à mais cinco anos e gostaria, apenas, de pincelar uma singela opinião. Muitos lêem os muitos livros deixados por Bukowski e tentam associá-los aos filmes baseados nos mesmos, projetando e apostando no enredo filmatográfico, e por isso acabam se frustrando. Na verdade são trabalhos releituras sobre todo conteúdo literário absorvido, cujo, para incrementar e dar um toque especial, pitadas de cada diretor se é acrescentada. Em Crônicas de um amor louco o filme baseia-se numa fase mais tardia da vida de Bukowski, quando ele estava começando a ser reconhecido. E apesar de Bukowski ter repudiado a película e a interpretação do ator Ben Gazzara, não deixa de ter lá o mérito de filme Cult e audacioso dos anos 80. Já em Barfly as considerações são para o período das bebedeiras do alter-ego, onde perambulando de bar em bar, o leva à conhecer a mulher com quem Bukowski dedicou boa parte de sua obra e amor. Apesar da representação forçada do ator Mike Rourke, neste filme em especial, a linha trás todo o sarcasmo cômico contido na obra Bukowskiana. Já em Factótum – Sem Destino, um relato superficial das andanças do autor (Bukowski) atrás de subemprego. O filme deixa a desejar se a pessoa não tiver lido o livro, mas se o leitor assistir o longa, logo após a leitura, ele acaba sendo quase fiel a obra. Lembrando que é inviável transferir toda a história para a tela. A voz de Bukowski é a voz dos menos afortunados e se por um acaso algum leitor não se identifica com uma ou outra obra ou mesmo com os filmes, é pelo fato de não vivenciar na carne essas pequenas tragédias. Em Factótum não há realmente como ser engraçado. O país estava no período da guerra, havia falta de emprego e perspectivas. No livro o isolamento e a solidão permeiam o ritmo da leitura e foi camuflada de forma monótona nas cenas constantes do filme. A obra do autor é de uma escrita muito simples que às vezes se torna difícil perceber as entrelinhas. O comentário tecido pelo Rodrigo Carreiro captou toda a atmosfera desta solidão. As pessoas comuns e caricatas do filme num cotidiano novelístico. Se o Anderson não conseguiu essa abstração, acredito que seja pelo fato de já estar anestesiado por filmes que trazem uma temática mastigada ou por nunca ter vivido ou convivido nas ruas; por nunca ter perdido a esperança ou o emprego. Ou por ter oportunidades melhores que os excluídos. Em minha opinião o filme peca nos cenários limpos (como descrito na crítica do Rodrigo), mas a representação da vida comum foi muito bem refletida. Por isso não se tornou um filme interessante e de grande bilheteria. No geral as pessoas se incomodam quando se vêem num “espelho”. Elas não querem ou não estão preparadas para isso e buscam nos filmes de fluxo frenético, tramas e finais bem elaborados uma espécie de hipnose para uma fuga da realidade em que vive. A verdade é: quem quer assistir um filme onde o personagem é um perdedor do começo ao fim e não há um clímax hollywoodiano? Parabéns pela crítica Rodrigo!

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