Primeira Noite de um Homem, A

[rating:5]

Ainda no princípio de “A Primeira Noite de um Homem” (The Graduate, EUA, 1967), durante o primeiro encontro a sós entre os dois personagens principais, existe uma tomada despretensiosa, um plano com duração de no máximo três segundos, que encapsula perfeitamente o tema principal do longa-metragem. A imagem mostra Benjamin (Dustin Hoffman), o protagonista, ao fundo. Em primeiro plano, um aquário com peixes. O enquadramento causa a ilusão de que Benjamin está dentro do aquário. É uma forma engenhosa, sutil e inteligente, bolada pelo diretor Mike Nichols, para ilustrar o estado de espírito do personagem: preso numa armadilha criada pela vida, sem ter para onde ir.

Comédia de tintas suaves e humor sofisticado, do tipo que não provoca risadas, “A Primeira Noite de um Homem” surgiu num momento em que Hollywood estava prestes a passar pela mais radical troca de guarda de sua história. A fase clássica dos grandes estúdios já se fora. Era chegada uma época de investir em filmes mais baratos, com enredos mais focados nos personagens. O público jovem clamava por histórias mais humanas. Queria ver os personagens enfrentando problemas do dia-a-dia, gente com quem pudesse se identificar. O filme de Mike Nichols proporcionou tudo isso. Foi, junto com “Sem Destino” (1969), a obra responsável por provar aos executivos que existia, nas beiradas da indústria, uma legião de novos cineastas capazes de produzir material de qualidade com pouco dinheiro.

Também foi o filme que fez de Dustin Hoffman um astro – a primeira estrela de uma geração de atores que incluía Robert De Niro e Al Pacino. Hoffman já tinha 30 anos na época das filmagens, mas convence perfeitamente como o tímido rapaz de 21 anos, que terminou os estudos na faculdade e está de volta à casa dos pais, indeciso quanto ao caminho a seguir. “A Primeira Noite de um Homem” captura perfeitamente aquele momento de temor e indecisão que todos nós experimentamos quando concluímos os estudos. É hora de virar adulto, cair na vida, deixar a barra da saia da mãe, assumir responsabilidades reais. Quem não sentiu medo e insegurança diante desta situação que atire a primeira pedra. Em 1967, os filmes simplesmente não falavam das dificuldades do cotidiano, e um dos grandes méritos desta comédia foi investir em um protagonista cujo drama provocava empatia total com sua geração.

Mike Nichols, então um diretor de pouca experiência, encheu o longa-metragem de cenas sensíveis, evocativas, maravilhosas. Uma das grandes sacadas é o ambiente predileto de Benjamin, o lugar onde ele sempre deseja estar, o único local da residência dos pais onde ele realmente se sente em casa: a piscina. A câmera vai para dentro da água com Benjamin, em longas tomadas silenciosas, e sublinha lindamente o isolamento e o senso de inadequação do rapaz. Seduzido pela bela Mrs. Robinson (Anne Bancroft), mulher mais velha que é casada com o melhor amigo dos pais dele, Benjamin embarca em uma ciranda emocional, que inclui momentos constrangedores (e, para a platéia, hilariantes, como a cena em que ele tenta fazer check in num hotel para passar a noite com a balzaquiana).

A coisa complica de vez para Benjamin quando entra em cena Elaine (Katharine Ross), a bela filha da amante, por quem ele se apaixona logo na primeira noite em que saem juntos. É uma paixão filmada com exatidão por Nichols, em um encontro cheio de drama, excitação e senso perfeito de realidade. Sentimos que aquilo poderia estar acontecendo conosco. A cereja no bolo vem na trilha sonora, com as canções agridoces da dupla Simon e Garfunkel, cujas melodias tristonhas dão ao todo uma atmosfera melancólica como poucas coisas já filmadas. Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums”) adoraria ter assinado um filme assim.

O longa foi lançado duas vezes no Brasil em DVD, pela Versátil e pela Universal, em discos bem parecidos: sem extras, com áudio em Dolby Digital 2.0 e a mesma capa. Existe, porém, uma diferença sutil: o formato da imagem, que é widescreen 2.35:1 anamórfico no segundo caso, e não-anamórfico no primeiro.

– A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, EUA, 1967)
Direção: Mike Nichols
Elenco: Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Katherine Ross, William Daniels
Duração: 105 minutos

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4 comentários em “Primeira Noite de um Homem, A

  1. brincando de cinereporter, posso dizer que o ano de 1967 foi um turning point, o momento da virada em hollywood.
    considerando o Oscar como termômetro, tirando o esquecível dr. doolittle, os outros quatro indicados eram: um retrato violento e ousado do banditismo (Bonnie & Clyde), o moralmente avançado A primeira noite de um homem e dois filmes que tocavam de forma atual e com abordagens diferentes na ferida do racismo (Adivinhe quem vem para jantar e No calor da noite, ambos com sidney poitier).

    só faltou na lista dos cinco indicados o filme À sangue frio, adaptado do livraço do truman capote, mas se nem hoje a Academia percebe completamente quando há originalidade e inventividade no cinema, o ano de 67 fica muito bem na foto. Pelo menos, indicaram o diretor de À sangue frio, o subestimado richard brooks.
    Como a premiação foi em 68, nada a acrescentar ao famoso ano que mudou o mundo.

    joêzer, no cinereporter por um dia

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  2. Além de todos os pontos citados nesta crítica, acredito que o filme tenha como questão central a ‘busca de sentido‘. Benjamin passa por um momento de vazio. Se graduou e agora precisa trabalhar em algo que provavelmente não terá prazer para poder ter uma vida adulta materialmente farta e supérflua como a de seus pais. Os momentos descompromissados de prazer com Sra Robinson são rasos. O único sentimento que realmente faz com que Ben saia de seu ‘aquário‘ é o despertado por Elaine. Esta possibilidade de algo genuíno é o que tira Ben da inércia. Entretanto, assim que consegue roubar sua amada e fugir com ela num ônibus, a sensação de vazio que esteve presente na primeira metade do filme, retoma seu peso. Como se a busca por sentido fosse mais importante que o próprio sentido. A inevitabilidade do tédio. No ônibus, os dois passam rapidamente pela euforia em direçao a expressões mais sérias e cada vez menos trocas de olhares. E assim segue a viagem.

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