Meu Ódio Será Sua Herança

[rating:5]

A abertura do faroeste “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch, EUA, 1969) possui uma intrigante simetria com a longa e antológica seqüência final do longa-metragem. O filme começa com um grupo de policiais uniformizados, montados a cavalo, entrando numa pequena cidade norte-americana. O bando cruza com crianças que brincam no meio da rua, perto dos trilhos de um trem. Algumas tomadas esparsas mostram que a brincadeira infantil é um bocado cruel: os meninos jogaram escorpiões no meio de um formigueiro, e os bichos venenosos estão sendo devorados pelas formigas.

“Meu Ódio Será Sua Herança” encerra enfocando os remanescentes do mesmo grupo de homens que aparece no princípio. Eles não são policiais, e sim uma quadrilha de assaltantes de banco; aquele era apenas um disfarce, como o espectador logo vai descobrir, na movimentada e sangrenta seqüência que abre o filme com gosto de pólvora. Não há heróis aqui, nem vilões. Todo o longo espectro de personagens é moralmente questionável.

Na ocasião do fim do longa, os bandoleiros estão no México, e se dirigem para resgatar um dos membros do grupo, preso por um rebelde paramilitar chamado General Mapache (Emilio Fernandez). O violentíssimo tiroteio que se segue não apenas encerra o filme de maneira brilhante, mas fecha um círculo e explica a cena dos escorpiões da abertura; os escorpiões são uma metáfora para os bandidos.

Os escorpiões são intrigantes porque jamais estiveram no roteiro do longa-metragem. Na verdade, eles foram uma sugestão de Emilio Fernandez, que contou ao cineasta Sam Peckinpah como se divertia no deserto mexicano, quando era menino. Peckinpah percebeu a fascinante simetria e filmou o ataque das formigas aos escorpiões abusando de planos-detalhe. Ao fazê-lo, acabou concebendo uma das aberturas mais estranhas, criativas e interessantes do cinema contemporâneo.

Enquanto filmava nos sets poeirentos do México, é possível que o diretor não soubesse que estava colocando uma pá de cal no já combalido gênero western. Adepto dos chamados westerns crepusculares, que lamentavam a proximidade do fim do gênero por causa do crescente desinteresse das novas gerações de espectadores, “Meu Ódio Será Sua Herança” transportava para a história este lamento. Foi uma despedida honrosa e adequada, já que o filme não é ambientado nos anos de ouro do Velho Oeste, mas em 1913.

Às vésperas da Revolução Mexicana, o antigo código de honra dos homens violentos e beberrões já não valia mais nada. O mundo agora era urbano. Botas viravam sapatos engraxados, revólveres transformavam-se em metralhadoras. A violência migrava dos descampados empoeirados para as cidades grandes. O Velho Oeste dava os últimos suspiros. Esse é o grande tema da obra de Sam Peckinpah, e também o pano de fundo do mais controverso e impactante dos filme que dirigiu.

O crítico Roger Ebert lembra que, em 1969, “Meu Ódio Será Sua Herança” foi recebido da mesma forma que “Clube da Luta” o foi em 1999: sob acusações pesadas de ser hiperviolento e gratuito, até mesmo fascista. Para alguns, Peckinpah glorificava a violência. Reza a lenda que o astro William Holden teve uma violenta briga com o cineasta, após ver o filme pronto e odiar o resultado final. A verdade é o filme é tremendamente violento mesmo: somente no verdadeiro balé de sangue que é o duelo final, Peckinpah gastou doze dias e mais de 10 mil cartuchos de bala de festim.

Sim, é verdade que o filme apresentou uma nova maneira de representar a violência no cinema, utilizando pela primeira vez a câmera lenta para mostrar mortes. Caprichando no sangue e no estilo, Peckinpah enfatizava o sangue e fazia as mortes ganharem um significado simbólico e poético que ultrapassa a morte em si. No cinema dele, morrer dói para caramba. Mas muita gente não entendeu.

A péssima recepção do filme pelas platéias foi ajudada pela estrutura narrativa incomum. Um filme tradicional enfatiza o enredo ou os personagens; “Meu Ódio Será Sua Herança” não faz nenhum dos dois. Pike (William Holden) lidera o bando de assaltantes que se encaminha para uma última missão, que é roubar um trem carregado de armas para um rebelde mexicano. Eles são perseguidos por um grupo, liderado por Deke Thornton (Robert Ryan), cujo objetivo é capturar ou matar Pike.

Os dois já foram parceiros, anos antes, mas algo separou seus caminhos. Nenhum deles é retratado com profundidade; Peckinpah só oferece fragmentos do passado. Pike e Deke são homens duros, que mostram nos rostos cansados e nos ombros caídos o peso dos anos. Ambos são melancólicos. Sabem que estão ultrapassados pelo tempo. Sabem que o fim está próximo.

O grupo de Pike bebe o tempo todo e freqüentemente cai na gargalhada com piadas bobas, como se estivesse à beira da histeria. O personagem de William Holden, ruminando as palavras e com o olhar perdido no horizonte, resume perfeitamente o clima do filme: eles pertencem ao passado. Não há futuro possível para gente assim.

“Meu Ódio Será Sua Herança” documenta a melancolia do fim de uma era, a troca de guarda entre duas gerações muito diferentes. E, na medida que encerrou o tempo dos faroestes e inaugurou a fase da hiperviolência, representou a mesma coisa para Hollywood. Pouquíssimos filmes têm essa honra de serem marcos divisórios. Por isso, este aqui é um clássico inesquecível.

O Brasil tem duas edições do grande filme de Peckinpah, ambas da Warner. A primeira é simples e traz a montagem aprovada pelo diretor, sem cortes, que permaneceu no limbo por alguns anos. Preserva imagem (wide 2.35:1) e som (Dolby Digital 5.1). Já a edição especial é dupla e traz um disco extra com três longos documentários, além de um comentário em áudio com quatro críticos/biógrafos do grande diretor. Biscoito fino para cinéfilos.

– Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, EUA, 1969)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brien
Duração: 144 minutos

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8 comentários em “Meu Ódio Será Sua Herança

  1. E uma obra prima incontestavel para mim.Um dos melhores filmes que vi na minha vida no final dos anos 60,junto com Rocco e seus irmaos e Boulevard do crime.Imperdivel para quem ama e conhece cinema.O filme tem um roteiro simples mais foi filmado com classe e maestria pelo diretor Sam P. .A fotografia e a musica tambem sao poderosas e ajudam de uma maneira muito importante na grandeza desse filme que se nao estou enganado e patrimonio da humanidade.A cena inicial da entrada na cidade,quando estao chegando a cavalo,as criancas brincando com a morte dos escorpioes pelas formigas ate a entrada no correio quando fazem o escambau e o ator willian holden diz : Se se moverem, matem-nos , e algo dificil de esquecer ,e antologico , para ficar na historia do cinema.assim como o tiroteio inicial, a fuga quando encontram a carroca e a caminhada final e o tiroteio com os mexicanos e qualquer coisa de louco e indescritivel pela sua grandeza.E o maior faroeste da historia do cinema.Me desculpem Sergio Leone e John ford dois monstros sagrados e que tenho grande respeito.mas Sam Peckimpah e o cara, ele matou a pau.Meus parabens a toda equipe do filme.
    sander hahn -criciuma sc

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  2. Ótimo filme! Eu o vi há alguns anos e agora depois de revê-lo emocionei-me por várias coisas. Acho que é um filme atemporal, não porque eu gostei/gosto dele, mas por suas qualidades. Todas elas já foram ditas aqui nessa excelente resenha crítica. Gostaria apenas de destacar um aspecto do filme que foi muito bem mostrado aqui. Quando você falou que os escorpiões são metáforas dos bandidos, eu pensei também na própria natureza desses bichos. Não foi à toa que o diretor os escolheu para serem devorados por formigas. Cada bandido do filme tem seu lado fraco, mas também sublime. Porém, na fábula, o escorpião vence, mas no filme, não. E aí, mais uma vez reside a genialidade de Peckinpah, ou seja, a de conseguir subverter a fábula e ainda assim, fazer um filme genial! Ah, tão diferente de Roberto Benigni.
    Um abraço!

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  3. Ótimo filme. Rodrigo acho q vc deveria tirar da crítica a parte em que compara os escorpiões à morte do bando no fronte mexicano, pois entrega o final do filme, vez que como os personagens não são rotulados como bons ou maus, o retorno do pessoal ao forte para resgatar um amigo pode ser uma grata surpresa para muitos que assistem, deixando o filma ainda mais legal. Não concorda? Abraço.
    “…Na ocasião do fim do longa, os bandoleiros estão no México, e se dirigem para resgatar um dos membros do grupo, preso por um rebelde paramilitar chamado General Mapache (Emilio Fernandez). O violentíssimo tiroteio que se segue não apenas encerra o filme de maneira brilhante, mas fecha um círculo e explica a cena dos escorpiões da abertura; os escorpiões são uma metáfora para os bandidos…”

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  4. Concordo em termos, Fabrício. Além de achar praticamente impossível que a pessoa não saiba como o filme termina, já que se trata de uma das cenas mais famosas do cinema dos anos 1960, o que existe aí é uma alusão, no máximo implícita… abraço.

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  5. Por mais que filmes como 3 Homens em Conflito e o Bom, o Mal e o Feio sejam fenomenais, Meu ódio será sua Herança é o melhor faroeste já realizado, e não é um clássico só do Western, mas da Sétima arte em geral.

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  6. Esqueçam histórias de vaqueiros sensíveis e mordernihos como em ” O Segredo de BrokeBack Mountain” ! Muito bom filme! Nem me refiro ao elenco e à direção, que por si só já seriam bom motivo pra assistir! É faroeste de qualidade, do tempo em o mocinho pegava as mocinhas, matava o bandido mesmo se entregando a morte no final! Pode deixar um pouco a desejar no contexto político, diferente de “Dança com Lobos” ou “Cold Montain”, mesmo assim é filme de primeira, pela ação, e por tratar de temas tipicamente masculinos, bom pra psicólogos assitirem pelo drama dos personagens! Mas é filme de macho, aqui não há decepção!

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