Zuzu Angel

[rating:2.5]

Desde que a produção de “Zuzu Angel” (Brasil, 2006) foi anunciada, em 2005, todos sabiam que o olhar sobre o filme de Sergio Rezende teria “Olga”, de Jayme Monjardim, como referência. Ambos são cinebiografias de personagens reais, mulheres fortes, brasileiras de projeção internacional que foram vítimas de ditaduras. A semelhança vai além, já que as duas são superproduções recheadas de atores de prestígio e contam com apoio da Globo Filmes. Há, porém, uma diferença crucial, que é o diretor. Se “Zuzu Angel” tem montagem hesitante e personagens simplistas em excesso, por outro lado possui carga melodramática bem menor do que “Olga” e expõe de modo bem mais convincente o contexto social em que a personagem principal vivia.

Para quem não conhece, Zuzu Angel foi uma estilista bastante famosa na virada dos anos 1960/70. Tinha talento, a ponto de conseguir projeção nos Estados Unidos e realizar desfiles de prestígio por lá. Porém, em 1971, teve o filho Stuart, um militante comunista, desaparecido nos porões da ditadura. Pôs-se então a denunciar o regime militar, inclusive através de criativas estampas que punha nos vestidos (o símbolo da grife era um anjo amordaçado). Incomodou tanto que acabou morta em um acidente de carro, em 1976. Duas décadas depois, uma investigação tardia do Congresso Nacional concluiu que a morte de Zuzu tinha sido provocada intencionalmente por sujeitos ligados às Forças Armadas.

A história, portanto, tem grande potencial; trata-se do clássico arquétipo da mãe movendo céus e terras por causa do filho, com a vantagem de que o caso é real e dramatiza um período importante da história do Brasil. A escolha por biografar o personagem bate com o perfil da carreira do cineasta, que se especializou em contar a história de grandes ícones da rebeldia política no país, como Carlos Lamarca (no filme de mesmo nome, de 1994) e Antônio Conselheiro (“Guerra de Canudos”, de 1997). Sergio Rezende tem experiência nesse tipo de personagem, e isso conta pontos a favor do filme, cuja estrutura narrativa é até convencional, mas bem mais discreta do que o bombardeio de closes de rostos acompanhados de acordes melodramáticos que fizeram de “Olga” um quase dramalhão mexicano.

Dito isto, é bom observar que “Zuzu Angel” não se afasta totalmente da estética de telenovela, que pode ser rastreada, por exemplo, nos discursos simplistas e superficiais dos personagens. Além disso, eles são maniqueístas: os que são maus são maus, o que são bons são bons, e não existem áreas de sombra entre as duas posturas. Em determinado momento do filme, durante uma peregrinação por quartéis para tentar descobrir o paradeiro do filho, ela aborda um padre, que não topa ajudá-la. Após ouvir um sermão completo da mulher, a única reação do religioso acuado é uma simples frase, repetida várias vezes: “um pastor tem que cuidar de todo o seu rebanho”. Soa como se ele soubesse que está errado e não se desse ao trabalho sequer de elaborar uma resposta coerente às questões morais com que, certamente, teria que lidar diariamente, na sua consciência.

Um outro problema aparece na direção de atores. O elenco é grande e talentoso (Othon Bastos, Paulo Betti, Nelson Dantas, Antônio Pitanga, Luana Piovani e Regiane Alves fazem papéis menores, imagine só!), mas quase todos os atores soam, em diversas cenas, impostados e teatrais. Talvez seja a maneira como falam sem as gírias dos anos 1970, com português perfeito – ninguém diz “eu to”, todos falam “eu estou”, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Tudo isso incomoda, torna tudo artificial, e impede a platéia de mergulhar de coração no filme, pois jamais esquecemos de que estamos vendo uma versão ficcional da história verdadeira.

Porém, o maior problema de “Zuzu Angel” está nos flashbacks, muito mal inseridos dentro da narrativa. O próprio diretor admite, no release distribuído aos críticos, que durante a fase de edição houve alterações na ordem dos flashbacks proposta pelo roteiro. A sensação que ficou é de uma narrativa hesitante, como se os flashbacks tivessem sido inseridos na narração do tempo presente de qualquer maneira. Dificilmente é possível notar alguma relação entre as cenas de flashback e os momentos imediatamente anteriores, que teoricamente deveriam levar às lembranças do passado naturalmente. A estratégia demonstra insegurança.

Por outro lado, a direção de arte é muito boa, e a reconstituição de época ficou excelente, desde os cenários naturais e os quartéis cariocas até o figurino. Além disso, Sergio Rezende acertou ao explorar generosamente a relação difícil entre mãe e filho. O diretor não cedeu à tentação de mostrar Zuzu como uma socialite alienada que, por causa da tragédia envolvendo Stuart, se transformou em militante política. Nada disso. Ela é essencialmente uma mãe desesperada, engolfada pela tragédia e vivendo uma situação que a exaspera e angustia. É uma situação, porém, que não cria nela uma consciência política no sentido estrito da palavra. Por isso, a estilista jamais é mostrada discutindo política, o que é uma decisão acertada. Esse acerto é confirmado por uma bonita cena final entre Zuzu e Stuart.

Como curiosidade, repare na pequena participação de Paulo Betti, repetindo o papel-título de “Lamarca” (1994), o que cria um elo interessante com o filme anterior de Sergio Rezende. Também ficou excelente a regravação de “Dê um Rolê”, antiga canção gravada por Gal Costa, que ganhou uma roupagem pesada, quase Zeppeliniana, por parte de Pedro Luís e a Parede e Roberta Sá, e abre o filme com vigor. No todo, apesar de apenas arranhar a superfície de uma época complexa que deixou traumas em muita gente, “Zuzu Angel” adota um tom mais discreto do que o dramalhão apaixonado que tem caracterizado as maiores produções do cinema brasileiro. E isso não deixa de ser bom sinal.

O DVD da Warner conta com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). O único extra disponível é um making of.

– Zuzu Angel (Brasil, 2006)
Direção: Sergio Rezende
Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Ângela Vieira
Duração: 110 minutos

4 comentários em “Zuzu Angel

  1. Boa crítica, ainda que ache que o filme merecesse ao menos 3 estrelas completas. Sinto falta nos seus comentários, porém, referências ao elenco – você fala brevemente no elenco secundário, mas em nenhum momento cita a Patricia Pillar como a personagem título ou o Daniel de Oliveira como o seu filho, muito menos ao excelente trabalho de ambos. Falha.

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  2. Eu gostei muito do filme pois nele foi retratado fatos que ocoreram na época da ditadura
    e com isso podemos de serta forma aprender de uma maneira dinamica mas ao mesmo tempo seria o que ocorel, eu o achei bastamte forte pois mostram senas esplisitas de pancamento e seuvagerismo mas eu gosto de filmes baseados em fatos reais.
    Apesar de tudo gostei dele e dos personagems que por sua vez interpretou de uma maneira absurdamente otimo, eles souberam entrar no personagem e interpretar muito bem e tirou a fama de que filme brasileiro não presta.

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  3. Não gostei do filme, porque eu não gosto muito de filmes brasileiros e porque não entendi quase nada mas é muito importante o tema desse filme que mostra uma coisa que aconteceu antigamente que foi a ditadura e mostra também uma mãe que perde seu filho ele era um estudante e queria justiça, então foi morto por tortura.

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