Professora de Piano, A

[rating:5]

Em uma de suas declarações mais famosas, Martins Scorsese certa vez afirmou que a última fronteira a ser conquistada pelo cinema era a sexualidade. O perturbador e fascinante estudo de personagem “A Professora de Piano” (La Pianiste, Áustria/França, 2001), filme do austríaco Michael Haneke, oferece uma contribuição importante para romper esta barreira, ao investigar com frieza cirúrgica uma das áreas mais sombrias da sexualidade humana: a perversão. Faz isso em um filme provocante e original, comprimindo em pouco mais de duas horas uma carga anormalmente alta de erotismo e estudo refinado da psique humana, em um filme que é verdadeira anomalia – no bom sentido, claro, já que originalíssimo e brilhante.

Não há muitos cineastas contemporâneos que possuem a ousadia, a criatividade e a liberdade temática necessárias para levar a cabo a tarefa proposta por Scorsese. Certamente, não dá para esperar que Hollywood, sempre tão casta e medrosa (porque dependente de um público muito conservador, especialmente na área sexual, que é o americano típico), vá ajudar de alguma forma nesta cruzada. De fato, um filme como “A Professora de Piano” não poderia ter vindo de outro lugar que não a Europa. A obra de Haneke é européia por excelência, libertária e profunda, e de alguma forma propõe uma experiência cinematográfica diferente, excitante, que mistura música, história, psicanálise e, porque não, políticas complexas de classes e gênero.

A história realiza um fantástico estudo de personagem, a pianista do título. Erika (Isabelle Huppert) dá aulas de piano em um prestigiado conservatório em Viena. A mulher, na faixa dos 40 anos, é solteira e mora com uma mãe castradora (Annie Girardot), que trata a filha como uma adolescente, alguém que precisa explicar o que fez quando chega tarde em casa. Erika é altiva, orgulhosa, aristocrática, e tem uma paixão assumida pela música de Schubert (“ele era feio”, diz ela em certo momento, como que para explicar a fúria contida das partituras do compositor). A mestra parece ter prazer genuíno em maltratar alunos esforçados com palavras duras e gestos idem. Erika é aquilo que os brasileiros chamam de mulher mal comida.

Melhor seria dizer mulher não comida. Erika não tem namorado, e não demonstra nenhum interesse em ter. No entanto, ela não é uma dessas pessoas indiferentes a sexo – apenas gosta de uma modalidade de sexo não exatamente ortodoxa. E Haneke não tem nenhum pudor em invadir os recônditos mais negros da alma depravada desta mulher. Nas horas vagas, ela não se dedica a alimentar pombos na praça ou a assistir TV. Erika freqüenta lojas de artigos pornográficos, onde assiste a vídeos de sexo explícito e esfrega no rosto o esperma dos freqüentadores que lá estiveram antes dela. Também tem uma queda pela auto-mutilação, usando uma enervante gilete de barbear, em longas tomadas sem cortes que Michael Haneke arremessa com força na cara do espectador. Erika faz tudo isso de rosto impassível, como se fosse um robô à prova de emoções. Ela é um mistério, um personagem fascinante.

No entanto, algo muda dentro desta mulher de gelo quando ela conhece Walter (Benoît Magimel), loiro e desembaraçado rapaz de 20 e poucos anos. Ele logo demonstra interesse na professora, e não apenas em sentido estritamente musical. A partir daí, Michael Haneke se dedica a nos mostrar as imprevisíveis reações de Erika aos perfeitamente saudáveis impulsos sexuais do garoto, o que inevitavelmente leva a platéia a identificar uma situação muito presente no cotidiano de qualquer um: afinal, qual é exatamente o momento certo para revelar ao nosso parceiro sexual uma pequena (ou grande) perversão?

O absoluto rigor formal com que o diretor austríaco aborda o tema faz de “A Professora de Piano” um filme incômodo, duro, violento, ultrajante para alguns. Haneke cutuca a ferida da sexualidade sem nenhum traço de pudor, e sem qualquer tipo de julgamento moral. A narrativa é crua e direta, e não faz qualquer tipo de concessão ao melodrama, à manipulação das emoções do espectador. Haneke é tão impassível quanto Erika, cada um em sua área. E essa abordagem gélida atinge em cheio o objetivo: destrói as defesas do espectador, deixa a habitual indiferença das platéias em frangalhos. “A Professora de Piano” é um filme que aperta firme algum botão localizado lá no fundo da alma.

É o tipo de obra que permanece na mente muito tempo depois da projeção, talvez para sempre. Esta é uma característica do melhor cinema de Michael Haneke (“Violência Gratuita”, “Caché”): faz pensar, arrasta o espectador pelo colarinho para dentro do filme, obriga-o a ver o que não quer com um misto de fascínio e repulsa que é genuinamente atraente. O austríaco demonstra ter um talento natural para fazer a carga de imagens pesadas ser amplificada naturalmente dentro da imaginação de cada membro da platéia (pense bem: as cenas de “A Professora de Piano” não têm, isoladamente, o potencial subversivo que o filme por inteiro apresenta).

De quebra, a cereja no topo do bolo é a interpretação arrasadora de Isabelle Huppert. Sem a atriz francesa, é provável que Haneke não tivesse conseguido um resultado tão abrasivo, tão impressionante. O rosto gelado e inexpressivo da atriz diante de qualquer pessoa ou objeto é impressionantemente duro e sem emoções. Não importa se à frente dela está um homem tendo um orgasmo, um prato de comida ou uma canção sendo executada impecavelmente diante de uma platéia às lágrimas. Erika é um robô, um mistério inexpugnável, e isso é grande parte do fascínio do longa-metragem, uma verdadeira obra-prima contemporânea.

O DVD brasileiro, lançado pela Movie Star, é espartano. Nada de extras, apenas o filme, em qualidade OK. O formato original de imagem está preservado (widescreen 1.85:1 letterboxed), e o som é razoável (Dolby Digital 1.0).

– A Professora de Piano (La Pianiste, Áustria/França, 2001)
Direção: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Benoît Magimel, Annie Girardot, Susanne Lothar
Duração: 126 minutos

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4 comentários em “Professora de Piano, A

  1. Ótima crítca, Rodrigo !!!! Vi o filme sábado passado e ainda estou com ele martelando na cabeça. Temo que vc tenha toda razão quando diz que ele nos acompanha(rá) por muito tempo. Que obra ! O Haneke é brilhante ! Pensava que A Fita Branca seria seu ápice, mas já vi que o cara é um talento inesgotável. Outra coincidência com relação a sua crítica foi que eu vi o DVD de dia e, à noite, convidada por amigas, fui ao cinema. E aceitei ! Mas pra ver “Encontro explosivo”. Não achei ruim, pois não tinha condições de encarar nada parecido com “A Professora de Piano”. E como é que Hollywood não tira proveito de Tom Cruise e Cameron Diaz juntos ? Dois belos artistas que, no máximo, se beijam duas, não mais que três vezes no filme ? rsrsrs… Tem que ter mais Haneke no mundo pra desafiar o coro dos contentes…

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  2. Andrea, na verdade tenho a forte impressão de que “A Fita Branca” é um dos filmes mais fracos do Haneke. Isso não quer dizer que seja um filme ruim, longe disso. Mas quando o colocamos ao lado de “Funny Games” ou “Caché”, por exemplo, ele empalidece. Muito.

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  3. Eu assisti a esse filme aos 14. Tenho 22 e estava hoje procurando algumas cenas do filme que tinham ficado em minha memória. Confesso ainda ter dificuldade para entender em profundidade algumas coisas. Definitivamente, “talvez para sempre” não é nenhum exagero.

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